Confissão #95

Capítulo 11 - Parte IV


Do que são feitos os sonhos


Durante a tarde, tentei encontrar o Zé e não consegui. Queria me despedir dele e pedir que ficasse atento. Eu, que tenho a mania dos sinais, acabava de receber um. Liguei para J. e ele disse que viria me buscar e me levaria ao aeroporto. Aceitei, porque assim chego mais rápido e também converso direito com ele. Queria deixar claro que mesmo com o bejio nada tinha mudado entre nós. Ou será que era eu quem precisava me convencer disto? Precisava ouvir isto para me convencer?

- Mas quando você volta? – ele quis saber.

- Acho que em três ou quatro dias. Dá para aguentar a saudade? – brinquei com ele.

- Vou tentar. Mas me avisa que eu vou te buscar, está bem?

Eu tinha conseguido um vôo para as seis da manhã do dia seguinte. Ia de avião até Belo Horizonte e de lá seguiria de carro com os meus pais até Ibiá, onde chegaríamos ainda a tempo do enterro. A minha mãe não acreditou quando eu disse que iria e pedi que me esperassem, pois ela tinha telefonado mais por desencargo de consciência. Avisou-me da morte da Tê, que trabalhava em casa e ajudou a cuidar de mim e de meus irmãos até nos mudarmos de Ibiá. Sentíamos um carinho muito especial uma pela outra, e eu sempre a visitava quando ia até lá; já fazia pelo menos uns cinco anos desde a última vez. Ela tinha uma certa idade e estava doente havia algum tempo. Eu perguntava muito por ela, de quem a minha mãe sempre tinha notícias; e mesmo assim, ela não achou que eu fosse. Eu tinha dito que não sairia da ilha por um bom tempo, que precisava descansar e tomar algumas decisões. Menti, porque tenho a certeza de que nem a minha mãe me apoiaria nesta idéia que parece absurda para quem não a vive, a de estar fisicamente à espera de um amor.

Em outra situação talvez eu não fosse mesmo, mas enquanto falava com minha mãe ao telefone, lembrei-me do sinal que eu havia pedido. Achei que fosse aquele e que era melhor mesmo viajar, melhor me afastar um pouco. Aquela era uma oportunidade de estar longe da atenção de J., da espera, das minhas dúvidas, dos meus medos. Pensaria melhor se pudesse estar apenas comigo mesma. E é claro, sentia muito pela Tê também. Sempre que eu ia a Ibiá para o Natal, trocávamos presentes, e era como se eu a visse abrindo os braços e me puxando para ela, dizendo “repara não, é lembrancinha de pobre, mas é de coração”. Ela não sabia quantas outras ricas lembranças tinha me dado, com jeito de avó carinhosa ajudando a minha mãe a cuidar da casa e dos filhos. E a viagem seria também uma oportunidade para rever os meus pais, a minha avó que ainda morava lá, os meus tios, alguns amigos e a cidade onde nasci. Tenho me lembrado tanto dela ultimamente, da infância, de uma época feliz. Do lago.

J. foi me buscar de lancha antes que escurecesse e me convenceu de que seria melhor passar a noite em Salvador; isto é, era quase a única opção. O vôo sairia bastante cedo e eu teria que deixar a ilha ainda de madrugada, no escuro, o que seria arriscado fazer em uma embarcação pequena. E a balsa, dependendo ainda das condições do mar, só começa a travessia às cinco horas, não deixando tempo suficiente para eu chegar ao aeroporto. Prometi a ele que durante a viagem pensaria no que tinha acontecido entre nós e no que ainda poderia acontecer.

- Eu vou te esperar – foi o que ele respondeu.

E eu tive vontade de dizer que estava cansada de esperas...

Fomos para o apartamento dele. Quando chegamos, ele me mostrou o quarto que tinha mandado preparar para mim. E logo em seguida o dele, se eu preferisse. Disse que não tentaria nada que eu não quisesse, que eu podia até trancar a porta do meu quarto se assim achasse melhor. Mas ela estava lá, para me provar que não mentia: a cama dele coberta com lençol de linho branco e pétalas de rosas vermelhas.

3 Comments:

Anonymous Sonia said...

Mesmo sendo difícil acompanhar um romance em capítulos, dá para sentir a qualidade do seu texto. Certamente estarei presente à noite de autógrafos do seu novo livro aqui no Rio.

4/26/2006 12:36:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Ah, Sônia, obrigada; eu vou ficar muito feliz por te conhecer. ;-)
Beijos,
Ana

4/26/2006 03:18:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it What barcode scanners are compatible with zebra loftware http://www.polyphonic-ringtones-9.info/Ringtones1.html Eczema hand remedy natural recipe Paris hilton ssex tape getting cum in butt hole

3/01/2007 12:17:00 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home