Confissão #93

Capítulo 11 - Parte III


Do que são feitos os sonhos


- Ai, dona Isabel, eu dei um beijo nele.

Ela tinha acabado de lavar a louça do almoço e estávamos na nossa hora costumeira de ficarmos sentadas na mureta do jardim, olhando o mar.

- Eu imaginei – ela pareceu feliz ao ouvir minha confidência. - A senhora se levantou numa alegria que dá gosto. Andava tão tristinha por estes dias...

- O que a senhora acha?

Ela já tinha me falado tanto dele, que ele não prestava, que era para eu tomar cuidado, e, no entanto, parecia ter mudado de idéia, ter gostado de saber do beijo.

- A senhora é quem sabe. Vai ver consegue consertar o boto, não é mesmo? Dizem que pau que nasce torto nunca se endireita, mas quem sabe... – respondeu, não querendo dar o braço a torcer.

Eu estava feliz sim, como há muitos dias não ficava. Foi só aquele beijo, só um, e depois estivemos conversando de mãos dadas, olhando o mar de fim de tarde até o dia escurecer por completo. Na hora de ir embora, J. tinha me dado outro beijo, mas que não contava porque foi rapidinho, só encostando os lábios. Mas bom, suave, carinhoso. Então, por que esta felicidade quase adolescente? Por que esta alegria ao recordar de um beijo?

O primeiro beijo em um homem tem quase sempre o sabor de um primeiro beijo na vida. A gente nunca sabe como vai ser, de que lado vai colocar a cabeça, se vai ter língua ou não, se vai sentir aquela vontade incontrolável de ir mais além. Será que apenas as mulheres sentem isso? Ou será que os homens também sentem tudo o que há por detrás de um beijo? Mas o beijo em J. tinha sido muito bom, tranquilo, carinhoso; durante e depois J. tinha ficado um tempão me fazendo carinho no rosto, na nuca, olhando pra mim, sorrindo.

- Eu não sei, dona Isabel. É que tem uma outra pessoa de quem eu gosto, sabe?!

- E onde essa pessoa está? – ela pareceu surpresa, pois nunca tinha me ouvido falar de alguém de quem eu gostasse, ou de um namorado. E percebia que ninguém me telefonava, pelo menos ninguém por quem eu parecesse ter um sentimento especial. Aquela era uma pergunta difícil de responder. Principalmente para mim, que sei a resposta: não sei.

- Está viajando. Pra longe. E agora eu não sei o que faço.

Eu tinha prometido a mim mesma que não ia pensar nisso, que ia aproveitar ao máximo a sensação de carinho bom que tinha ficado, mas não estava conseguindo. O que aconteceu ontem com J. acho que foi coisa do momento, eu estava encantada com o presente, com o jeito de ele me tratar, de me olhar. E como eu poderia saber se quem eu espero também estava me esperando como eu estive até então, guardando-me para ele? Mas tinha J., e eu não queria enganá-lo, não queria fazê-lo sofrer nem me aproveitar da companhia dele para dar uns beijos e pronto, para deixá-lo assim que o outro chegasse. Mas, e se o outro não chegasse e J. também se cansasse de me esperar? O pior é que eu tinha que dar o braço a torcer, tudo estava acontecendo exatamente como J. disse que aconteceria, que eu ia aprender a gostar dele – confesso que de início eu o achava bem pedante, convencido -, que eu ia querer beijá-lo. E depois ia querer fazer amor numa cama coberta de pétalas de rosas vermelhas...

- Ele ainda vai brincar comigo. Eu falei tanto que nunca ia acontecer nada...

- O que a senhora disse? – perguntou dona Isabel.

- Nada não. Pensei alto aqui, dona Isabel.

- Pois é – comentou ela –, e eu também penso alto que há muito tempo não via a senhora tão feliz. E falando em felicidade, olha ela ali mandando recado.
Era de novo o entregador da floricultura, e J. tinha mandado um buquê de jasmins, dizendo no cartão que era para perfumar o meu dia. De novo outra coisa que eu nunca tinha recebido: jasmins. Por que é que estas coisas acontecem? A gente passa tempos sozinha, e quando não está mais, quando está feliz com alguém, aparece outro pra atrapalhar. Para confundir, levar embora as certezas. A felicidade fica dividida, metade com um e metade com outro, e a gente não tem como unir as duas partes. Será que J. é uma prova pela qual eu tenho que passar para poder merecer o último amor? Será que eu tenho que resistir, e posso colocar tudo a perder deixando isso que eu sinto ficar dividido entre os dois? Ou melhor, com J. está apenas no começo, não é nada forte, mas eu sei que se continuar pode vir a ser. Ou será que J. é ele, e eu estou perdendo tempo? Eu sempre tive a certeza de que o reconheceria quando ele chegasse, mas pode não ser assim. E há tantas coincidências, ter aparecido no dia de Santo Antônio, quando a dona Isabel fez a promessa para que eu conhecesse alguém. E quando eu também pedi que ele chegasse. Eu queria tanto uma pista, alguma coisa que me desse a certeza.... Quanto mais eu conheço J., mais eu vou descobrindo coisas de que gosto nele; mas por que será que não aconteceu nada daquilo que eu previa? As estrelas cadentes, os fogos de artifício, o perf..... o perfume! Será?

- Dona Ana, telefone.

A dona Isabel me chamava da porta da sala. Eu nem tinha percebido ela entrar para colocar os jasmins na água. Fazia questão de cuidar dos arranjos das flores que J. me mandava.

- É ele?

Nem pensei antes de perguntar. A dona Isabel balançou a cabeça e sorriu, cruzando os braços em frente ao peito e batendo um dos pés do chão.

- Não, é a mãe da senhora.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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4/24/2007 03:38:00 PM  

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