Confissão #91

Hoje é, sem dúvida, o mais mineiro dos feriados.
O Idelber fala da morte de Telê, com uma linda homenagem.
Na capa do Uol tem chamada para o blog do Juca Kfouri, que lembra que em vinte e uns de abril morreram Tiradentes, Tancredo e Telê.
E só para ficar entre mineiros, coloco aqui um texto inédito, escrito para homenagear outro grande daqui da terra, que não tem nada a ver com 21 de abril. Não? Vai ver, até tem...

*****

Santo Antônio. São Francisco. No quando a menina se criava pelas pétalas, a Tia fazendo promessa, rezando novena. Santo Antônio, seu devedor, solteirona que tinha ficado, apesar de ter muito se ancorado no santo. São Francisco porque tinha visto em certa viagem, Arrozeado, uma imagem grande do santo, aos seus pés, cercado de bichinhos, avezinhas sobre os ombros, comendo na mão estendida. O santo governava as avezinhas, havera de ser assim também com os anjos. De anjinha, a menina, dita Jinha a gosto da mãe, que morreu tão logo fez a promessa: “Se vingar, vai vestir de anjo até os sete anos”. Falou assim e morreu, nem viu a filha desarroxear. Falaram que era milagre; outros, que era troca, a mãe tinha ido no lugar da filha. Apressaram em arrumar roupa de anjo para a menina, enterraram o umbigo e plantaram uma roseira, por costumes. Depois viram, nem espantaram: as rosas que nasciam roxas, para branquear mais tarde, feito a menina. O Pai, muito novo mas muito viúvo de si, disse que não colocava outra mulher dentro de casa, ia fazer nojo prolongado, triste triste, amor sem remetente, extraviado. Amar quem morre é amar eterno. Passou dias olhando a menina, sem saber de providências. Não botava culpa, a mulher assim tinha querido, assim tinha pedido, santa que era. As vizinhas acorrendo, mas ninguém não podia ficar para dormir, não pegava bem para viúvo fresco, nem mesmo se fosse a Velha, velha-velha, sem encanto um. Escreveu para a família, se ainda não estivesse casada era para vir a irmã, ele repunha as despesas, em ela chegar. Não estava. Chegando, viu a menina, tão anjinha, tão inocente, tomou cuidados. Em dias brigou com o irmão, tirou a túnica de luto da menina, que aquilo de anjo vestido de preto ofendia era a Deus. Acordaram só na fita preta no cabelo, cacho cacho, mesmo tão pequena, a Jinhazinha. A Tia cuidando, roupa branca, asa de pena para quando saísse de casa, até a igreja, coroa dourada na cabeça, anjinha mesmo, de se notar, admirar, comentar. Tinha até quem se benzia.

A Tia achou proveito no arranjo, não passava mais por moça enjeitada: não casava por ter obrigações com o irmão, com a anjinha. Como se fossem dela, a responsante. A Jinha rezou mesmo antes de falar, antes de ter tenência nas mãos, muito miudinhas, muito postinhas, no meio do peito. Fechava os olhinhos, parecendo dormir, até tomar tino tão logo a Tia calava a Salve Rainha.

Em muito pequena, a Jinha não se acostumava à roupa. Esperneava, levantava os bracinhos; mas crescendo, não sabia vestir outra coisa, nunca tinha, nunca teve. Acostumou-se. Passou ela mesma a ajudar a Tia, catando pena no quintal, para as asas. Quando aprendeu a falar, dizia que só não voava por não querer, Deus permitia. A Tia preocupou, falou com o Pai, muito bom, cumpridor, mas que não desvestia a menina antes dos sete anos, promessa feita a morto não se descumpria. No além da vida também se vive. A Jinha gostava, cumpria, acrescentava, fazia mais que a obrigação. Apartada das outras crianças, não travessurava; motivo de ralhar com ela, nunca que deu. Vivia miudinho, sem ocupar espaço. Acercava-se era da roseira – a do umbigo-, cuidava, tratava, cheirava, conversava. Chegasse perto, ela fingia rezar, a Tia percebeu. Perguntou o que era. “Posso dizer, não”, sorria a Jinha. Toda anjo, toda olho nas costas, se tentassem ouvir sem permissão. Suspirava, suspirinho. Passarinho, passarinha. “Como se soubesse”, o pensamento da Tia ignorava. Pois sabia! Quem nem sabia era o Pai. Mas a Jinha pediu e ele ficou, só disse: “Vai não...”, e ele não foi. Fazia os gostos da menina, tanto que a Tia reclamava, dizendo que ia pôr a anjinha a perder, que o diabo atenta mais quando em facilidades muitas. Mas qual o quê? Ele fazia e a menina continuava lá, anjinha de tudo. Estava de saída para a vila, negociar uns porcos acabados de engordar, comprar comida, que faltava, a Tia passando a lista, longa. Mas a menina tinha pedido. Ela quase nada queria, simplesinha que só; ele nem pensou em recusar. A Tia quis saber por quê, chamou a Jinha e perguntou. “Vai chover”, ela respondeu, toda certa, fatal, como se lhe houvessem perguntado o nome. A Tia olhou o céu, duvidou. Nem meia hora, as duas entretidas na reza, o pai entrou em casa, denunciando chuva forte, a caminho. A Tia carregou na reza, agradeceu. A Jinha nem riu, nem botou banca, sabia. Foi escuridão de noite sem lua, fatalidade de telhado desabando: o céu. Breve, fez grandes estragos, tinha caído a ponte, depois ficaram sabendo. “Bem que o pai não estava em cima, na hora, no aprazado, no combinado”, a Jinha disse no casual e no diferente a longa frase, sem economizar palavras. E riscou o ar com a mãozinha, muito grave, muito natural, com a agilidade de um raio: “Cabrummmm”. Pensou, fechadinha dentro das asas: “A véspera só pega o desprevenido”.

Foi então que a Jinha deu para dizer frases, do nada. A Tia queria saber onde aprendera e ela só sorria de volta. Uma frase mais linda que a outra. A Tia copiava de cabeça, depois passou a escrever. Tantas, tantas. “Tem milagre demais no mundo”. “Saudade é um fiozinho de Deus”. “A gente nem vive, só espera o de morrer”. “Felicidade é descuido da dor”. Eram das que a Tia sabia de cor, que repetia reconhecendo mais o sentido, a cada vez. Pegava amor e medo. “Ainda bem a tia não foi”, disse, toda dogmas, quando chegou notícia da festa na vila, o foguetório explodido, matando gente. A Tia tinha pensando em ir, quem sabe um pretendente. Pegou peixe frito do prato do pai, mostrou o espinho, fino, disfarçado, escondido, riu-se afiada: “Ainda bem o pai não comeu”.

Antes, o Pai querendo ir à vila, perguntava. A Jinha erguia as asinhas muito erguidas, brancas, parte dela, e dizia: “Deus cuida”. Acreditavam. Eles. Ele e Ele. Já tinha seis anos em dia que o Pai perguntou e ela respondeu: “Jinha cuida”, colocando a santa mãozinha dela dentro da mão dele, para ir junto, como se combinado de velho. Ela quase nem ia, só para a Semana Santa, mas nem por isso se espantou, olhou tudo com desdém, como se cansada de ver, bisver, trisver. O Pai mostrava e contava, e ela só bondade, delicadeza, anjinha que era, fingindo não saber. Em casa, a Tia quis saber, que tal. A Jinha só fez um muxoxo com as asinhas, nada disse, nem ter gostado nem não ter. Mas depois assuntou, faceirinha, santa diabrura, para a Tia aproveitar a reza antes de dormir: “Vi seu noivo”. A Tia quis saber mais, como quem não queria, mas ela só repetiu: “Posso dizer, não”.

Na seguinte ida do Pai à vila, a Tia quis ir também, saber do noivo. Mas a Jinha não se agradou de promessa alguma, não ia. A Tia não podia deixá-la sozinha, embirrou de ficar. Gostava de não ter obrigações, de casar, de ter casa e filhos, próprios. “A vida é longe”, a menina disse, para acalmar a Tia, que entendeu que “a vila é longe”. “Não para quem pode voar”, a Tia debicou, desgostosa, enervada. A menina não respondeu de pronto. Rezou, cuidou da roseira, tirou a armação de asinhas das costas, a aureola, os sapatinhos. Limpou tudo, lustrou, como novo. Depois sentou. Na porta, em frente à casa, esperando o pai voltar. Dali não se mexeu, não levantou para nada, nem rezar. A Tia chamou, ela só respondeu: “Tem um nome tão feio...”. E riu suspirado. A Tia tinha perdido as doçuras, sem tento de esperar, só pensando no noivo, só querendo o noivo, que ela soube existir. A Jinha, conformada, que antecipasse a véspera, então, "vem no velório", pensou de si para si. O pai chegou, tinha comprado presente. Os três na sala, ela, o pai, a Tia. Ela só respondeu: “Ih, que agora é tarde, pai”. Levantou e encumpridou abraços em cada um. Ao invés de pedir a benção, como de costume, abençoou. Nunca mais que levantou, aceitava comer só uma pétala por dia, sentindo falta de mais nada, alimentada. Anjinha de verdade. A Tia e o Pai querendo saber, ela só dizia, e mais não falava: “Vestir de anjo até os sete anos”, preparava. Veio o dia. A Jinha só abençoou, quando pedida: “A Jinha cuida”. Ninguém nem ficou triste, quem olhasse: “Parece dormindo, feito anja, voltou”. A Tia preocupou de encomendar caixãozinho que coubesse as asas, falou com o Pai: “São tão lindos, os anjos...”. “Tinha milagre demais no mundo”, o pai soube, nem sabendo que sabia.

7 Comments:

Blogger sub rosa said...

Mas que coisa, , bloguiro que não anda não come..ops não faz post nem fica sabendo de nada;-0
Eu não sabi deste e - pior, não vi ninguém falar de Tiradentes nem Cecília.
Será revissionismo?
Ou o Jorge ben tem razão; aqui é eminentemente o país do futebol:-)
Dolorosa dúvida.
M.

4/21/2006 08:25:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Belo conto, Aninha. É sempre um prazr passar por aqui. M, eu falei de Tiradentes no meu blog, mas talvez você considere revisionista.

4/22/2006 12:38:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Meg,ainda hoje procurei meu "Romanceiro" e não achei. Mas achei interessante a fatalidade do 21 de abril para os três mineiros ;-) E é ano de Copa, então tudo vai acabar virando futebol ;-)

Obrigada, Sônia. E já vou lá ler seu post, enquanto ainda não leio seu livro sobre a inconfidência.

beijos,
Ana

4/22/2006 02:50:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Cool blog, interesting information... Keep it UP »

2/07/2007 07:47:00 PM  
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Blogger 日月神教-向左使 said...

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