Confissão #89

Capítulo 11 - Parte III


Do que são feitos os sonhos


Duas mãos vendaram meus olhos.
- Adivinha quem é? – perguntou o dono delas.
- J.!
- Estava pensando em mim, é?
J. contornou a cadeira, parou na minha frente e sorriu, do jeito que sabia que eu gosto, só pra me provocar.
– Ou então como sabia que era eu? – insistiu.
- Pelo seu perfume – respondi.
E era verdade; ele é um dos homens mais perfumados que já conheci.
- Hum.... então já notou meu perfume?! É bom saber! Viu como eu me arrumo todo para vir me encontrar com você?
- Devo admitir que sim...
J. me deu um beijo no rosto e me entregou um embrulho que disse conter um presente que era a minha cara, e foi até a casa pegar uma cadeira para ele. Eu gostava de ficar na praia, vendo o pôr-do-sol; estando na ilha, ele sempre me acompanhava. Sempre trazia presentes, flores, bombons, uma garrafa de vinho ou de champagne. Uma vez, tentei dizer que não aceitaria mais, mas J. não deixou, disse que era uma alegria para ele. Acho que falei também só da boca para fora, porque eu estava adorando ser paparicada daquele jeito. Mas isso eu não disse a ele...
- Eu queria uma foto sua agora... – era J. voltando e se sentando ao meu lado; eu, com o presente nas mãos, não sabia o que dizer.
- Já disse que nada de fotos. Como os índios, eu acho que elas aprisionam a alma da gente – foi do que me lembrei para dizer. – Onde você conseguiu isso?
- Já te falei que eu consigo tudo o que você quiser, não falei? – disse J., segurando meu queixo a uma distância muito pequena do rosto dele, com o olhar quase a me fazer um carinho. – E falo sério, posso te fazer muito mais feliz do que este cara aí no qual você está pensando. Ou já não está pensando mais nele tanto assim?
Eu ia retrucar que tínhamos combinado nunca mais falar do assunto, mas não era disso que J. falava. Não era isso que importava e nem o que estava em discussão. J. era um homem inteligente e eu passaria por idiota se tentasse fingir que não tinha entendido. Eu nunca acreditei muito nas coisas que ele falava, sempre com aqueles ares de conquistador para o meu lado, olhares de boto, como dizia a dona Isabel. Mas naquele momento eu acreditei. E não sabia o que dizer. Ao mesmo tempo que gostava, que era bom, que me sentia vaidosa pelo que ele sentia por mim, não era. Eu não queria ter dúvidas, não vim até a ilha para ter um caso, um romance de férias, mesmo que ele dissesse que não era isso o que queria comigo. Que era sério, que ele tinha se apaixonado. E que quanto mais eu tentava afastá-lo, com o meu jeito de mulher séria e que sabe o que quer, mais ele me queria. Porque ele sabia que eu não estava representando, que eu era assim, e era assim também a mulher que ele queria ao lado dele. E eu queria alguém que me tratasse como ele tratava...
- Eu nem sei o que te dizer. É a coisa mais linda que já vi.
Outro dia conversávamos sobre se sentir estranho no mundo, da mesma maneira que J. também dizia se sentir. Contei a ele que eu tentava me acertar, tentava acertar meus passos com esta nossa época e não conseguia. Que me sentia dona de uma alma antiga, conservadora e romântica, que me remetia à época dos castelos, das cortes, das conquistas e dos amores velados. Ele me chamou de princesa e disse que qualquer dia me daria um presente à altura.
- E ainda faço amor com você em uma cama coberta de pétalas de rosas... – complementou, naquele dia.
Qual é a mulher que não se derrete toda diante de tal imagem? Pode parecer a coisa mais piegas do mundo, mas só para quem está do lado de fora. Durante dias seguidos me imaginei sim, fazendo amor sobre uma cama coberta com um lençol de linho branco, bordado, e pétalas de rosas. Vermelhas.
Agora J. me trazia de presente um porta-buquê. Eu tinha visto alguns em uma exposição de jóias antigas no museu e comentei com ele, que disse que sempre me daria flores, à espera de um porta-buquê. E cumpria a promessa, quase todos os dias mandava flores, mesmo que não estivesse na ilha. Mas nunca imaginei que poderia cumprir a segunda parte dela. Eu não estava acreditando, era uma peça linda, provavelmente em prata, toda trabalhada com recortes e relevos de delicadas figuras de flores e anjos. Tinha mais ou menos o tamanho da minha mão aberta, de forma cilíndrica, e com um acabamento tão perfeito que parecia renda prateada. Era leve, e da ponta inferior, onde o cone quase se fechava, pendia uma correntinha, também de prata, terminando no que parecia ser um anel cravejado de minúsculas esmeraldas. Para que não se perdessem, as sinhazinhas os colocavam nos dedos e saíam a caminhar pelas ruas, levando os porta-buquês vazios à espera da cortesia dos pretendentes. Aquilo era uma peça de colecionador, muito mais bonita do que as que eu tinha visto no museu.
- Eu não sei se digo que nunca ganhei e que acho que nunca vou ganhar presente igual, ou se recuso dizendo que não posso aceitar. Isto deve ter custado muito caro...
- Se eu estou dando, é porque posso, não é? – ele me interrempeu - Não quero que você se preocupe com isso.
J. devia ser muito rico sim, embora fosse razoavelmente simples. Já tinha colocado à minha disposição uma lancha com marinheiro, e às vezes me contava sobre alguns lugares para onde tinha viajado, ou sobre situações que tinha vivido, nunca de uma maneira esnobe, mas de quem estava acostumado a ter dinheiro e saber gastá-lo bem.
- E eu não vou te cobrar nada por isso – riu, parecendo imaginar que eu podia estar pensando que ele queria algo em troca, ou que eu estivesse me sentindo na obrigação de retribuir.
J. falava baixinho, alisando o meu rosto com o dorso dos dedos, olhando nos meus olhos, bem de perto.
– O que eu quero de você é o que você vai querer me dar. E eu não vou querer pagar por isso, está bem?
Raramente senti tanta ternura por alguém como senti por J. naquele momento. Uma vontade de gostar, de retribuir, de me apaixonar por ele. Fiz que guardei um beijo no porta-buquê e levei aos lábios dele. Quando ele fechou os olhos para recebê-lo, troquei a peça pelos meus lábios.

3 Comments:

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