Confissão #88

Capítulo 11 - Parte II


Do que são feitos os sonhos


- Mas nunca a encontraram...
O Zé falava de Lorelei, da esperança de voltar a vê-la.
- Eu sei, Zé, mas, depois de tanto tempo...
Eu não tenho a pretensão de dissuadi-lo da espera, talvez ele precise dela.
- Mas, Zé, se é o que você sente...
Para falar a verdade, eu seria mesmo a última pessoa a convencê-lo de que Lorelei está morta, mesmo sem a prova irrefutável. Não sou eu que estou esperando por alguém que nem sei se existe? Quer dizer, sei, mas também não posso provar. Às vezes acho que devo começar a duvidar, para não estar tão despreparada se este alguém não chegar. Talvez fosse melhor começar a pensar assim, para ter uma grata surpresa.
- Depois do acidente com a balsa, passei dias e noites no mar, buscando por ela. Andamos por toda esta baía, porque daqui não tem como ela sair.
É verdade, a baía tem o formato de uma ferradura, e o movimento de suas águas nunca leva nada para o alto mar. A ilha funciona como uma espécie de quebra-mar, recebe as correntes marinhas e tira a força delas. Todo o movimento de qualquer coisa que aqui entra, ou que se perde aqui dentro, vai apenas da ilha ao continente. Como se tivesse mesmo encontrado um leito de mar, como se tivesse voltado ao lugar a que pertence, o lugar que escolheu para dar cabo dos dias.
- Você nunca mais esteve com o circo?
- Nunca. Durante algum tempo, nos primeiros anos, tinha até notícia deles; minha mãe escrevia de vez em quando. Mas depois soube que ela morreu. Meu pai queria que eu voltasse, o circo foi vendido... Nunca mais.
Eu tenho curiosidade em saber do que o Zé vivia. Nunca o ouvi falar de trabalho, de dinheiro. Mas não tinha coragem de perguntar. E se ele não tinha falado, talvez até se envergonhasse; aqui não tem muito o que fazer. Se exerce alguma atividade, deve ser muito aquém das capacidades dele. Era outra coisa na qual eu precisava começar a pensar também. Deixei o emprego, desgostei da profissão, não quero mais voltar a morar em nenhum dos lugares pelos quais já andei. Talvez quisesse mesmo ser trapezista do circo que o Zé diz que ainda vai ter...
- Era aqui que planejávamos nos casar. Sempre venho para cá à procura de uma pista dela. Eu descrevi bem este lugar, disse a ela onde ficava, como chegar, e ela pode vir até aqui se encontrar comigo, pois sabe que estarei à espera. Às vezes eu a imagino vinda das águas, a minha sereia do Reno, nadando nua, linda, nestes mares tropicais, numa noite de lua cheia...
Era mesmo um local de fantasias, a ilha e principalmente estas ruínas. Estávamos no cimo de um morro, um dos mais altos, de onde se via uma extensão muito maior do mar. Do outro lado, o interior da ilha, era desabitado; os povoados ocupavam apenas uma pequena faixa próxima ao mar. No centro permanece uma mata verde e abundante; acho que nesta época de chuvas ainda mais verde do que o normal. Este lado emoldurava a enorme construção abandonada, as ruínas de uma igreja jesuíta construída no início do século dezesseis. O Zé comentou que deveria ser a mais antiga do Brasil, e se percebia mesmo o ranço de velhas histórias, para as quais não se dava mais atenção, como argamassa sustentando as paredes.
Grossas paredes, tendo com certeza mais de meio metro de espessura, se erguiam contra a paisagem; acredito que aproximadamente por uns vinte metros mais perto do céu, cobertas de rachaduras e mofo. Não havia mais teto a sustentar, apenas a leveza do céu aberto e o peso do tempo. Delimitavam um enorme e bem iluminado vão central, com chão de terra batida. Ao fundo, um espaço mais estreito e elevado que deve ter sido o altar, acessível por degraus irregulares muito bem conservados pela terra compactada. Nas paredes, alguns nichos altos ainda com imagens de santos, impossíveis de serem reconhecidos por causa da vegetação que os recobria. Nos nichos mais baixos, quase ao alcance das mãos, apenas o vazio. Em cada parede lateral, duas enormes aberturas em formato de arcos levavam a pequenos salões, também descobertos, que devem ter sido salas de orações e sacristia.
Mas o que mais impressionava era o que acontecia no alto das paredes. Sabe-se há quantos anos, ou séculos, pássaros devem ter levado até lá sementes de gameleira, uma árvore bastante comum aqui na ilha. A gameleira é considerada sagrada no candomblé, uma das religiões trazidas pelos negros africanos. Por estar próxima ao continente, mas ao mesmo tempo grande e longe o suficiente para esconder escravos fugidos, a ilha era um dos locais preferidos para as comunidades chamadas quilombos. Num sincretismo também da natureza, o candomblé, literalmente, ali espalhava suas raízes no templo católico. Nutrindo-se, por certo, das condições de umidade e sustentação oferecidas pelo barro, as largas paredes têm sobre elas majestosas gameleiras, por toda a extensão da construção. Grossas raízes aéreas sustentam troncos que para serem envolvidos provavelmente precisariam de dois ou três pares de braços. Raízes que, numa escalada invertida, descem pelas paredes e vêm se espalhar pelo chão. De um lado e do outro, mantêm de pé as árvores, as paredes e as memórias daquele lugar.
- Eu, que nunca me casei, Zé, digo, oficialmente, acho que também me casaria aqui. Uma cerimônia diferente, simples, poucas pessoas, ou nenhuma... Este lugar inspira a gente a jurar amor eterno.
- É – ele concordou comigo –, ou a chorar amor eterno...
- Mas você contou a história direitinho para a dona Isabel? – lembrei-me de perguntar quando o Zé falou de amor eterno.
Eu sabia que ele falava de Lorelei, mas não me conformava com aquela situação, com aquelas histórias mal interpretadas.
- Contei, várias vezes, mas ela não quis acreditar. Na época o marido dela também contou, mas aí ela acreditava menos ainda.
- Você acha que eu devo tentar, Zé?
Havia dias que eu vinha pensando naquilo, mas queria falar primeirocom o Zé. Perguntei:
– Ela realmente acredita que o marido a traía com a Lorelei?
- Acredita, ou prefere fingir que acredita. É muito mais fácil numa situação como esta.
Acho que o Zé tem razão; neste caso talvez seja melhor mesmo não falar nada. É enorme a raiva que a dona Isabel ainda sente do ex-marido, ou precisa sentir; a raiva que de alguma forma desconta no Zé. Provavelmente não suportaria se tivesse que senti-la por ela mesma, reconhecer que esteve errada durante todos esses anos. E de uma maneira irreparável.
O Zé me contou a versão dele. Quando aconteceu o naufrágio da balsa onde estava Lorelei, ele quase enlouqueceu de tanto desespero. Mas mesmo assim não acreditou que ela estivesse morta. Depois de alguns dias, sem que encontrassem mais nenhum corpo, suspenderam as buscas. O Zé resolveu continuar a procura por conta própria. Na época, morava em uma casa ao lado de onde dona Isabel e o marido eram caseiros. O marido dela, que se chamava Natanael, tinha um barquinho que usava para pescar, complementando assim a renda da família. Tinham duas filhas. O Zé disse que eram vizinhos muito bons, prestativos, que o ajudavam em muita coisa. Então pediu que o Natanael o ajudasse com as buscas no mar, já que ele, sozinho, apenas perambulava pelas praias. Os dois ficaram muito amigos, dia e noite circundando a ilha, conversando, bebendo, falando de amores. O Zé disse que o Natanael tinha um amor enorme pela dona Isabel, mas ela começou a desconfiar que o marido a traía quando dizia que ia para o mar com o Zé, procurar uma defunta que nem tinha mais carne para boiar.
Eles nunca traziam peixes, mas saíam todas as noites e voltavam com o sol nascendo, geralmente bêbados. O Natanael comovia-se com a dor do Zé, com a história da sereia das “europas”, e não atendia ao pedido da dona Isabel para que não fosse mais. Até que um dia, delirando de bêbado, ele pronunciou o nome de Lorelei, que a dona Isabel desconfiou ser o da amante com quem ele ia se encontrar, usando o Zé como desculpa. Ela o expulsou de casa e nada a fez acreditar que estava errada, mesmo porque o nome da moça pela qual procuravam, que o Zé dizia ser sua amada e conforme tinha saído nos jornais, era Mercedes.
- Lembro-me de que sofriam os dois. Como eu morava na casa vizinha, ouvia a dona Isabel chorando de lá, as filhas tentando consolá-la, uma tristeza só. E o Natanael chorando de cá, bebendo o dia inteiro, aparecendo para fazer escândalo. Até que sumiu por alguns dias e depois o encontraram morto na praia. Pelo que falaram morreu afogado e o mar devolveu...
Esta história do Zé batia com a que a dona Isabel havia me contado, mas ela acreditava que o marido tinha saído de casa para ir morar com a amante. Uma tal de Lorelei, que devia ser de Salvador, porque ela conhecia todo mundo por ali. E quando a espertinha da amante viu que não ia ter mais só do bem bom, mandou-o de volta. Mas a dona Isabel não e aceitou. E então ele deu para beber e morreu de desgosto. Não por ela, que tinha estado com ele a vida inteira, mas pela outra, que nem apareceu para chorar o morto.
- Nem o mar quis ficar com o traste – disse a dona Isabel com os olhos secos e vazios de quem já tinha chorado tudo o que tinha para chorar. – E ainda tive que fazer despesa para enterrar aquele um...

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Que triste esse trecho, dá um nó na alma...
Beijos, :).

4/19/2006 05:59:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Desate já essa alma, Matilda! ;-)
Beijos,
Ana

4/20/2006 03:12:00 PM  

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