Confissão #86

Capítulo 10 - Parte XII


Sobre os olhos rasos d’água


S. me contou que tem outra namorada. Outra não, que tem “uma” namorada, porque a mim ele nunca namorou. Hoje percebo como fizemos planos, como pensamos em morar juntos, e nem chegamos a namorar. Não que eu ache que uma relação tenha que cumprir etapas, mas com isto percebo que ele nunca assumiu nada comigo. E eu não acredito que tenha sido apenas por medo, como ele diz. Da última vez em que estivemos juntos ele não teve coragem de me contar que, com a outra, não tinha medo. Sumiu, deixou que eu adivinhasse o que já era óbvio. E me consola dizendo que está feliz. E eu só espero que esteja mesmo, e que o seja para sempre, que não venha mais me falar de infelicidades e de desacertos, que não venha mais me pedir ajuda.

É terrível, mas acho que agora ainda dependo mais de S. do que gostaria de depender. Talvez eu nunca mais consiga amar alguém e ser feliz, e preciso que S. me prove o contrário através da história dele. Qual é a impressão que fica quando alguém não aceita o nosso amor? Para mim, isto quer dizer que este alguém pode ser feliz sem ele, que talvez o meu jeito de amar não faça mesmo ninguém feliz. Será que existe um jeito certo para isso? Existirá um tipo de amor que pode dar certo? Eu não quero mais pagar para ver.

Pedi a S. que não me procurasse mais por um bom tempo, nem para saber como estou. Vou dizer o que? Que estou bem, só para que ele não se sinta tão culpado? Sinto muito, mas quem anda precisando de paliativos sou eu. Sofro tanto que até pensar dói, como se as palavras fossem pingando lentamente sobre uma superfície metálica, lentas, cortantes, insistentemente perfurantes: uma tortura. E eu seria capaz de confessar qualquer coisa pra acabar logo com isso. Seria capaz de confessar que a culpa é minha, que ainda escondo pelos cantos restinhos de esperança, que traio meus próprios sentimentos. Eu confesso. A culpa é minha, e não o entrego, o S., não o entrego.

Dentro de mim aconteceu uma festa da qual não participei. Arrastaram móveis, colocaram música alta, dançaram, se divertiram e foram embora, deixando a bagunça para que arrume no dia seguinte. Ainda deixaram portas e janelas abertas a noite toda, uma de frente para a outra, entrou uma corrente de ar que não deixou nada sobre nada. E eu não sei por onde começar a colocar as coisas em ordem. Eu tinha teorias lindas sobre o amor ser uma forma de compartilhar, de ser uma mulher completa e segura que tinha muito a trocar, e não apenas a dar. Eu queria que alguém me dissesse o que faço com isso na prática, o que faço com o que restou de mim, esta milésima parte de um ser. Acho que implodi.

Por que é que eu preciso tanto que alguém abra a porta e diga que me ama, mesmo que minta? Eu queria que alguém sentisse qualquer coisa por mim, mesmo que seja pena. Como a que eu senti no dia em que vi um palhaço bêbado. Velho e bêbado. Durante anos, a lembrança daquele palhaço me dava um nó na garganta e eu chorava onde quer que estivesse. E aí ficava com mais pena dele ainda, que bebia para acreditar que continuava capaz de fazer sorrir, apenas com sua sombra de palhaço. Ele tentava dar cambalhotas e caía no meio delas, interrompia a piada para vomitar na própria roupa. Aí cantava uma música triste e chorava, e ninguém sabia se chorava de verdade ou de palhaçada. Figura mais triste de se ver é um palhaço bêbado. Sabe o que está em jogo ali? Parar de acreditar que as alegrias da infância eram genuínas. Ou pelo menos os motivos delas.

Eu sinto um desespero muito grande de me olhar e não me ver. Sabe quando a gente está crescendo e ainda não se acostumou ao próprio tamanho? Quando esbarramos nas coisas sem querer, quando não sabemos se ainda cabemos nos lugares onde cabíamos antes? Eu sinto exatamente o contrário. Faço os mesmos movimentos de antes e não alcanço nada, olho-me no espelho e não preencho a imagem que tinha de mim, vejo apenas falhos contornos. E me procuro dentro das roupas que S. dizia ficarem ótimas em mim, ou no jeito de prender os cabelos e de sorrir com o rosto todo. Eu me procuro e não me acho. E fico sem saber se era S. que mentia ou se é o espelho que agora mente para mim de forma tão descarada...

15 Comments:

Blogger Surra de Pensamentos said...

Como é que pode alguém com esse poder nas palavras não conseguir entender que o S. significa qualquer um? Você precisa de um amor, não importa se S., P. ou T. Assim é mais fácil. É que justamente S. se foi, mas enquanto você não conseguir se ver, enquanto não arrumar essa bagunça que você se deixou fazer, enquanto não se olhar com olhos de amor, totalmente despida de qualquer máscara, ninguém mais a olhará. O pior é que sabe disso mais do que ninguém, é inteligente o suficiente para entender. Somos o reflexo do outro. Se ele não se abriu se pergunte: e você? Deixou claro as coisas? Se deixou, ele era o homem errado. Então, espere que o próximo te descubra. Não é possível que alguém com tanto sentimento não encontre alguém que perceba e valorize isso em você.
Beijos e se cuida.

4/17/2006 09:56:00 AM  
Blogger Matilda Penna said...

Espero que você tenha tido uma Páscoa maravilhosa, bem doce.
E S., sempre S. e seu fascínio, :).
Beijos, querida, :).

4/17/2006 10:29:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Raquel, fico feliz com a sua indignação, pois S. é um personagem, tanto meu quanto dele próprio ;-)Mas sim, concordo com você que toda relação é reflexo. Até a relação que se tem consigo mesmo e que, na verdade, é a que importa. Todas as outras são sim, reflexos dela. É isso, né?

Foi boa sim, Matilda, mas sem doce do-de-comer ;-) E a sua, também foi boa?
Pois é, esse ésse... ;-)

Beijos,
Ana

4/17/2006 02:57:00 PM  
Anonymous Lêda R. J. Chaves said...

Não acredito!!!
E eu que achava que o S. era o homem que toda mulher gostaria de encontrar!!...
S de quê? Só se for de sem-vergonha!
Um beijo
Lêda

4/17/2006 05:41:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Lêda,
Mas sabe que às vezes eu acho que deve mesmo? ;-) Para ver se aprende a ficar mais esperta. ;-) Enfim... E vice-versa, é claro.
Beijos,
Ana

4/19/2006 12:59:00 PM  
Blogger Surra de Pensamentos said...

Ana,
Você me falar que R., S. não existe. tudo bem...agora e o Zé? Eu amo o Zé? Como assim? Não dá prá não ter o Zé entre nós mortais!!!!

4/20/2006 09:24:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Ah, Raquel, quer mesmo saber? ;-)
O Zé também é meu preferido. Engraçado como ele não estava planejado, nasceu de um cara que eu vi usando búzios na barba, um pescador de mangue na praia do Baiacu, em Itaparica. Achei a figura tão interessante que botei ele no livro, e ele foi tomando conta da história. ;-) Então, digamos que, nesse sentido, ele existe...
Beijos,
Ana

4/20/2006 03:10:00 PM  
Anonymous Ednilce Almeida said...

Quero adquirir o livro : Ao lado e a margem do que sentes por mim.Por favor me responder no tel;11-38143210.Grata. Ednilce / SP

10/25/2006 02:35:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

S. existe, é real..eu o conheço bem; há 6 anos é o meu amor. Conheço a sua história e o seu papel nessa história. desejo-lhe sorte, suceso, alegrias e um grande amor!
Y5

1/09/2007 12:28:00 AM  
Anonymous Regina Coelho said...

Ana
ainda na emoção de ler "Um defeito de cor", quero dizer que quando li "Cem anos de solidão"(Gabriel G. Marques) e "Pássaros feridos"(Colleen MacCulhogh)fiquei meses sem poder escrever nada. Agora, no impacto do seu livro, acho que vou ficar anos... Parabéns!!! É um clássico e para sempre.

1/22/2007 04:37:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. »

3/05/2007 07:13:00 PM  
Anonymous helga said...

Olá Ana, meu nome é Helga Lima. Com o apoio da Professora Constância Duarte da UFMG, estamos escrevendo uma antologia de escritoras mineiras, cada uma das alunas de pós-graduação escolheu algumas escritoras mineiras, nascidas aqui mesmo que morando em outro lugar para fazer a escrita. O intuito da UFMG é editar o livro que será doado às bibliotecas para estudo. Eu gostaria de escrever sobre você e seu trabalho como escritora, mas para isso preciso da sua autorização, realmente espero que você fique satisfeita com a escolha, pois, lí seu livro Um Defeito de Cor e achei maravilhoso, tanto a parte literaria como a pesquisa que foi feita, criando assim uma metaficção historica, acho o nome bem apropriado. Não sou uma crítica literária, leio o que gosto e sei que de seu livro gosto muito. Obrigada pela atencão de ler meu email e espero que possa dar sua autorização.



Abraços, Helga Lima

3/19/2007 05:55:00 PM  
Anonymous ana brito said...

minha vida é tua vida.


exatamente.

5/29/2007 09:55:00 PM  
Blogger Ensaios de Narcisa said...

Boa tarde, Ana Maria

Estou tentando localizar uma amiga de infancia, que estudou comigo no colégio sagrado coraçao de jesus, moravamos no bairro agua verde... com o mesmo nome seu...por um acaso é voce?
Lidia Narcisa Marques

8/01/2010 01:49:00 PM  
Blogger Marilene said...

Ana Maria,

creio que você vai gostar de ver uma leitura acadêmica de seu romance em

http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/letras/issue/view/928

Marilene

2/19/2011 05:01:00 PM  

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