Confissão #85

Capítulo 10 - Parte XI


Sobre os olhos rasos d’água


Sabe aquelas campanhas de vacinação? Hoje participei de uma, contra a rubéola, “para todas as mulheres em idade fértil, mesmo que não estejam pensando em engravidar agora”. Para agora, eu não penso nisto, mas quero. Eu quero filhos seus. Filhos nossos. Dizem que um homem foge como o diabo da cruz quando uma mulher que pouco conhece fala em ter filhos dele. Será que foge da responsabilidade de ter filhos ou de ser tão amado, a ponto de uma mulher querer tê-los com ele? Não sei... Mas sei que muitas vezes também não é assim, e deixo de lado os casos que não são por amor. Pobres filhos!

Não, eu não quero para logo; primeiro eu só quero você. E eu lá agüentaria, no início, dividir meu corpo com outro que não fosse o seu? Nem mesmo com um que fosse nosso. Quero um tempo para ter você e me dar egoísta, para estarmos a sós com a nossa saudade de séculos, com as nossas vontades fora de hora, as nossas horas à mercê das vontades. Não é o mais importante que quero com você, mas é igualmente importante. Acho que acabei de me contradizer, não é? Mas são amores diferentes, e quero sentir cada um no seu tempo. Primeiro o seu.

Lembra-se de B., aquele meu namoradinho de infância? Ele tinha uma pinta no olho esquerdo, resultado de um dia em que estava brincando de guerra de mamona, com estilingue. Ele se distraiu e... pimba! Em cheio dentro do olho; eu vi, estava perto dele quando aconteceu. Precisava ver como ele tentou esconder a dor, pois sabia que eu também a sentia. Não deixou cair uma lágrima sequer na minha frente. Teve que usar um tampão por dias e dias, e sabe que eu também usei, em solidariedade? Não tinha a mínima vergonha, nem de ele ter a certeza de que eu faria tudo por ele, até usar tampão sem precisar; nem vergonha de ninguém mais, de ninguém que pudesse achar aquela atitude ridícula.

Outra coisa que ninguém sabia também era que B. brincava de boneca comigo. Mas era só brincar mesmo, nunca demos um beijinho sequer, foi anterior às brincadeiras das descobertas; pelas quais, aliás, eu nem passei, “viúva” de B. depois que ele foi embora. Mas nós brincávamos escondidos no fundo do quintal da minha casa, umas vezes com os meus brinquedos, outras com os dele. Não nos importávamos se eram coisas de menina ou de menino, eram apenas brinquedos nossos. E um dia B. pintou manchinhas nos olhos de todas as minhas bonecas, no olho esquerdo delas, do mesmo jeito que ele as tinha. Disse que eram nossas filhas, todas as que ele queria ter comigo quando crescêssemos. Ali, naquela cumplicidade com B., senti pela primeira vez vontade de ter filhos do homem que amo. Antes, eu apenas brincava de boneca, de ser mãe delas. Mas naquele dia não, eu brincava de família, e isto é infinitamente melhor.

Será que você também sente vontade de ser pai de filhos meus? Eu já quis ter uma família grande, pelo menos com seis filhos. Imaginava uma mesa enorme, todos sentados à volta, conversando; ou mesmo brigando, não importa. Hoje não penso mais em tantos, talvez dois... Já não tenho idade para mais do que isso. Uma das coisas que com certeza vou adorar fazer com eles é contar histórias. Sou capaz de inventar várias seguidas, uma pra cada momento, tão perfeitas que poderiam passar por histórias que faziam parte dos livros dos tempos de nossos avós. Ou desde muito antes até, histórias milenares.
Por falar em histórias, tenho recordado uma, esta de verdade; talvez você tenha me percebido pesada aí pelos cantos... É que, nem tanto pela intensidade – foi forte sim, mas quando paramos de ter esperança, mesmo o que parece intenso demais vai se dissipando -, mas pela inconstância do “hoje-ama-amanhã-não-ama-mais”, S. quase me deixou a ponto de acreditar que eu nunca mais seria capaz de amar alguém. Esgotei. Sabe quando ficamos paranóicos e começamos a acreditar que fomos escolhidos por Deus para sofrer mais do que todos nesta terra? Deve ser a compensação do ego, esta de nos acharmos tão privilegiados nos desígnios de Deus. Que mais uma vez Deus me perdoe, mas eu queria que Ele, que tanto se lembrava de mim para expurgar os pecados da humanidade, que me chamasse logo. Que descesse um anjo vingador e arrancasse em oferenda o meu coração. Para Ele.

Há coisas que só se entende depois que passam. Sim, é isso, hoje eu sou capaz de agradecer a S. por estar aqui te esperando. Acho que você não gostaria do que eu já fui. E já fui, sendo tão bem, que eu nem percebia que não gostava. Não que tenha feito algo do que me envergonho, mas eu não combinava comigo. Entende? Não sabia em que lugar lá atrás tinha abandonado a minha essência. Só mesmo as sucessivas pancadas do amor de S. me fizeram perceber que sem me valer dessa busca, ou desse retorno, eu não seguiria em frente, não conseguiria reagir. Acho que é só isso que vence a dor de ter rejeitado um amor que parece ser maior do que tudo o que você pode querer na vida: fazer o que tem que ser feito. Uma questão de sobrevivência.

Por quantos anos a gente é capaz de adiar os próprios sonhos, com medo de não ser capaz de realizá-los? Eu estava empurrando os meus, sabe-se lá até onde, achando que felicidade e realização ainda poderiam ser alcançadas quando eu já estivesse velha demais para aproveitá-las. S. me fez precisar deles, dos meus sonhos, de mudar de vida. Sabe, meu amor... Eu quero ser feliz hoje, e quando me apego a esta certeza de que você está pra chegar, eu já vou sendo aos pouquinhos. É como um ensaio geral, aquele último, feito mais por desencargo de consciência do que por necessidade. Porque hoje eu sei dos meus limites, sei até onde posso ir e ainda conseguir voltar, se for preciso. Eu sei até onde agüento a dor. Ou a alegria. A alegria, sabe onde eu ia buscá-la? Num lago. Só quando eu me imaginava nadando em um lago muito azul e fundo, deserto. Mas eu nadava na vertical, sempre mais e mais fundo. O meu lago era o apêndice de um rio, correndo para o mar, metáfora de mim, metáfora desta ilha e desta espera. Aqui eu me sinto cercada de mim por todos os lados.

Feliz? Talvez também porque tenha percebido que felicidade não depende só de amor. Eu já amei homens que não me fizeram feliz, e já fui feliz com outros que não amei. E é bom sonhar que com você eu vou ter as duas coisas juntas, pelo tempo que for, nem que seja só para saber como é.

2 Comments:

Anonymous romulogarcias@yahoo.com.br said...

Ana minha querida,
Tive a grata felicidade de comprar a VEJa esta e semana e.....e me deparei com a matéria (ou seria confissão) do Millor Fernandes. Que maravilha... Fiquei emocionado... Melhor de tudo é que já tenho o meu exemplar, e autografado, e comecei a "navegar" naquelas páginas. Agora me diga uma coisa: depois do "Te cuida Samarago" em plena revista nacional o que é que você vai fazer...

P.S.: Deus realmente não dá asa a cobra. Eu por exemplo não faria mais nada (ra ra ra ra ra*)
*ra ra ra estilo Zé Simão...

Beijos mil

5/23/2006 03:17:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Ana,

Li Veja (Millor). Fiquei curioso com o "...te cuida Saramago" e "um defeito de cor" ficou martelando minha cabeça, insistindo em ser lido. Não resisti. Comprei o livro no inicio de uma longa viagem (aérea) e, simplesmente, o devorei, embevecido que fiquei com a qualidade do texto e sua fluidez - talvez sussurada pelos voduns de Luisa. Quantas viagens imagéticas fiz a partir do que li.

D'us a abençoe e lhe ajude a produzir outras obras desse nivel.

Ronaldo Brandão
09/06/2006

6/09/2006 07:49:00 PM  

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