Confissão #84

Capítulo 10 - Parte X


Sobre os olhos rasos d'água


- Se você continuar chorando assim, daqui a pouco eu também vou chorar. – J. disse.

Ainda bem que ele veio hoje. Eu não estava com a menor vontade de ficar sozinha, e a dona Isabel precisou voltar para casa.

– Não quer me contar o que aconteceu? – ele insistiu.

Na verdade, não havia um motivo; havia vários. Eu chorava por mim, pelo Zé, pela dona Isabel, pelas histórias de amor que não davam certo, e até mesmo por ele, J.. De vez em quando me aparecem estas tristezas, e é difícil explicá-las.

- Não aconteceu nada demais. Apenas estou triste – tentei sorrir –; acontece.

Eu não sei lidar com a piedade alheia. E naquele momento, percebi que era isto que J. estava sentindo por mim. Durante tanto tempo me fiz de forte, escondi meus problemas, sempre dizendo que estava tudo bem, fingindo que era feliz mesmo quando estava longe de sê-lo... Às vezes eu acreditava que era mesmo, repetindo até que se tornasse verdade, como aquilo do condicionamento de que o Zé falou. Ele sabia que se enganava havia mais de vinte anos, mas precisava continuar repetindo e acreditando na sua verdade inventada, que sua Lorelei ainda vivia. Talvez até então a minha felicidade, aquela plena mesmo, também tenha sido inventada. Quando me esqueço dela, e quando confesso ou demonstro que comigo as coisas também podem dar errado, não sei lidar com as reações das pessoas. Como elas também não sabem lidar com as minhas queixas. Durante tanto tempo as escondi, durante tanto tempo tudo esteve sempre bem, que qualquer problema sobre o qual eu comento toma uma gravidade absurda. Não era esse o caso de agora, J. me conhecia de poucos dias e não tinha como chegar a esta conclusão. E até por isto mesmo eu me permitia estar chorando.

- Brigou com o namorado, aquele que sempre está longe?

Acho que era o que J. queria saber, desde o início, quando pedi colo e comecei a chorar.

- Não – apressei-me em responder. - Não brigamos.

- Porque aí eu ia chorar também, mas de felicidade. Esse cara não te merece.

- Como é que você sabe, se não o conhece?

- Por isso mesmo. Se eu o conhecesse, seria porque ele estaria aqui, com você. Mas nem para isso ele presta.

- Já te disse que não gosto que fale mal dele. Não gosto, é o homem que eu amo.

- Eu também não gosto quando você fala “o homem que eu amo”.

- Então vamos combinar uma coisa: não falamos dele, está certo? Nem mal, nem bem.

J. concordou, disse que sempre preferia pensar que não existia mesmo mais ninguém entre nós. Era estranho, mas eu já estava me acostumando a ouvi-lo dizer “nós”. E era verdade também o que ele disse, que o homem que me ama deveria estar aqui, ao meu lado.

- Ah, menina, se você me desse uma chance... Do que você tem medo?

Ele achava que eu tinha medo de ficar com ele e de me apaixonar. Mas não era isto. Ou será que era? Eu até queria levar tudo menos a sério, aproveitar, mas não queria me envolver. E isto eu não sei se conseguiria, não importando a ordem em que as coisas poderiam se passar. J. é um homem carinhoso, atencioso, mas eu acho que não me apaixonaria. Ele disse que estava cansado de ficar sozinho, que queria voltar a se casar, a ter alguém por perto, que procurava mas não encontrava ninguém legal. E quando encontrava, este alguém tinha namorado.

- Sabe o que eu acho, J.? Não é que as pessoas legais têm namorado. Eu acho que é ao contrário, a gente fica bem e interessante quando tem namorado, quando tem alguém de quem a gente gosta e que gosta da gente.

- Concordo. Mas você tem jeito de quem era legal mesmo antes de ter namorado... Acho que cheguei tarde, não é?

J. me olhava de um jeito que até dava vontade de dizer que não, que ele não sabia, que tínhamos que dar tempo ao tempo. Era o que eu tinha vontade de dizer, mas não seria justo. Sabia o que era criar expectativas, dar esperanças e depois retirá-las.

- Com você falando assim, eu me sinto mal... Parece que estou te negando alguma coisa que só eu posso dar. E não é bem assim.

J. disse que eu tinha razão, que gostava da minha companhia, que gostaria que eu mudasse de idéia, mas que não me pressionaria nunca. Achamos melhor mudar de assunto, e conversamos sobre a ilha, sobre os filmes que ele tinha visto – há quanto tempo eu não ia ao cinema? –, sobre sonhos, futuro, amores, filhos...

3 Comments:

Blogger sub rosa said...

Ana, desculpe o off topic:
Feliz Semana Santa, Feliz Páscoa.
Meg

4/14/2006 10:05:00 AM  
Blogger Matilda Penna said...

Feliz Páscoa, amiga.
Beijos e tudo de bom, sempre, :).

4/14/2006 10:36:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Meg e Matilda,
Feliz Páscoa para vocês também. Que seja a passagem para dias calmos, bons, felizes, cheios de tranquilidade, amor e saúde.
Beijos,
Ana

4/15/2006 09:57:00 PM  

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