Confissão #83

Capítulo 10 - Parte IX


Sobre os olhos rasos d'água


- Colocou mau olhado na minha festa, foi? Tive que cancelar por causa da chuva.

Encontrei o Zé no banco das pedras, na ponta da praia. Embora estivesse ameaçando chover eu precisava dar uma volta; esticar as pernas e tirar os pensamentos dos lugares aos quais eles estavam se acostumando. O Zé sorriu com a brincadeira, mas de uma maneira distante.

- Você conhece lá para os lados do Rio Milagre? – perguntou.

- Não.

- Fica um pouco longe, mas a gente vai conversando e nem sente. Quer ir até lá comigo?

- O que você vai fazer lá?

- Nada, especificamente. Mas gosto da caminhada...

Acho que eu também estava precisando andar um pouco, de forma que resolvi acompanhá-lo. Eu gosto de sair pela ilha, ver os antigos sobrados, as ruínas das fortalezas e das igrejas. Não fazia isto há vários dias; a chuva não deixava. A ilhas se tornam menores quando chove.

- Zé, você já viu que quando chove ficamos mesmo cercados de água por todos os lados? Até por cima...

O Zé soltou uma rumorosa gargalhada. Apesar do ar pensativo, estava de bom humor. E perguntou:

- A dona Isabel já te contou?

Foi direto ao assunto, enquanto tomávamos o caminho do Rio Milagre. Eu não quis interrompê-lo, mesmo surgindo uma dúvida que me fez ficar com mais vontade ainda de chegar ao rio: seria doce ou salgada a água dos rios ilhéus?

- Já... e eu não entendi nada – respondi.

- Quando ainda estávamos em Portugal, eu prometi a Lorelei que a traria para conhecer minha ilha preferida...

Ele se abaixou e pegou um pouco de areia, deixando-a escorrer por entre os dedos, lentamente, como se precisasse sentir a ilha. E então continuou:

- Fizemos algumas apresentações em Santos, em São Paulo, no Rio de Janeiro. Eu estava morrendo de vontade de chegarmos logo ao nordeste. Já tínhamos combinado que aqui seriam as nossas últimas apresentações, que depois contrataríamos outro mágico e outra ajudante. Acho que Lorelei também já tinha percebido que nossa história não ia acontecer antes disso, e gostava. Foi a viagem mais longa que já fizemos, as apresentações mais difíceis, as horas mais arrastadas, até chegarmos a Salvador. De lá, o circo ia continuar viajando para as outras capitais, mas eu já tinha conseguido um casal para nos substituir. Nós dois ficaríamos mais alguns dias por aqui e depois nos encontraríamos com eles em algum local. Pensávamos até em não ir, talvez...

Zé fez uma pausa, acho que para ele era dolorido falar desta história. Mas parecia decido a ir até o fim:

- Era inverno e fazia um tempo assim, como agora, um pouco mais frio, acho, um pouco mais chuvoso. Sabe aquele casarão antigo, lá perto de onde atracam os saveiros?! Hoje está abandonado, mas naquela época era um hotel bem agradável. Simples, mas muito bonito e conservado. É uma construção do século XVII. Se você quiser, qualquer dia entramos lá para que dê uma olhada. Era o lugar perfeito para estar com a Lorelei; eu o conhecia bem pois já tinha ficado lá algumas vezes. Reservei todo o andar de cima só para nós dois. Loucuras de apaixonados... E a pedi em casamento. No início ela não queria aceitar, disse que era muito cedo, que nem nos conhecíamos direito, que eu fizesse o pedido de novo depois de mais alguns dias, se ainda achasse que valia a pena. Mas eu insisti; tinha certeza do que sentia por ela, de que era forte e de verdade. Sabe quando você não consegue imaginar sua vida sem ter a outra pessoa ao seu lado?! Em tão pouco tempo foi o que Lorelei se tornou para mim, um motivo de viver. Ela disse que sentia o mesmo, e então aceitou. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida... Foi esse... Lembra que uma vez você me perguntou?! Resolvemos fazer um casamento que significasse algo especial para nós dois, só para nós dois. Então me lembrei de um lugar especial, as ruínas de uma igreja jesuíta lá do outro lado da ilha. Qualquer dia te levo lá também. E já que tínhamos decidido nos casar, queríamos que fosse o mais rápido possível. Então Lorelei ficou em Salvador e eu vim para cá. Queria ir até as ruínas, ver se estava tudo limpo, arrumar umas flores, umas velas, estas coisas. Ela queria comprar um vestido de noiva. Embora não pensasse em uma cerimônia tradicional, tinha vontade de se vestir de noiva, até para mandar uma foto para a família dela, lá em Cuba. A mãe iria gostar de saber que ela tinha se casado, que estava bem, que estava feliz. Depois de comprar o que precisasse, Lorelei viria para cá no dia seguinte ao da minha chegada. Amanheceu um dia muito chuvoso e eu aluguei o carro de um taxista da vila, para ir buscá-la. Naquele dia nenhum barco atracou. Esperei a manhã inteira, e nada. Pensei que pudesse ser a chuva, que tivessem parado a travessia. Então chegou a notícia de um naufrágio, uma balsa, a primeira do dia, aquela na qual Lorelei disse que viria... A Dois de Julho. Ela nunca foi encontrada, e é por isso que eu sei que ainda virá...

O Zé contou tudo isto de um só fôlego, falando alto e pisando forte no chão, enquanto também ia apertando o ritmo da caminhada. Tive a impressão de que, se ele parasse, não teria forças para chegar até o fim. A nenhum dos fins, nem o da caminhada nem o da história. Tínhamos acabado de entrar por uma estrada de terra, avançando por uma trilha estreita no meio da mata. Chegamos a uma clareira onde havia uma minúscula capela de pedra e alguns quiosques cobertos de piaçava. O Rio Milagres é bastante estreito, mas naquele dia, talvez por causa das chuvas nos dias anteriores, as águas desciam em grande quantidade e muito velozes sobre o leito pedregoso. Sob algumas árvores, às suas margens, uns bancos de pedra ou madeira. Eu ia comentar que aquele era um bonito lugar, apenas para dizer alguma coisa, mas nem isso consegui . Na verdade, não sabia como agir, depois de ter ouvido a história que o Zé acabara de me contar. Mas não precisei falar; como se estivesse se livrando de uma história ruim, o Zé começou a arrancar a roupa com raiva, dizendo que ia dar um mergulho. Falou-me então sobre aquele lugar:

- Dizem que morou aqui um velho chamado Venceslau, que começou a fazer alguns milagres. Está vendo estas oferendas por aí?

Olhei ao redor e percebi que o local estava cheio de flores secas, garrafas de bebidas, frascos de perfume, charutos, grãos...

- Desde a morte do velho este local aqui se tornou sagrado, as pessoas vêm fazer oferendas, orações e pagar promessas.

O Zé se atirou na água. Devia estar gelada. Ele disse que era para eu fazer um pedido, que geralmente os pedidos de quem ia lá pela primeira vez eram atendidos. Nadou por muito tempo, fazendo um grande esforço para ir contra as águas. Tive medo que elas o levassem, ou que ele se deixasse levar. Dava para perceber que chorava, o rosto crispado, o peito subindo e descendo às pancadas, como acontece quando a gente chora uma grande dor. Achei melhor deixá-los sozinhos, ele e a dor. Voltei com meu pedido e então, no meio do caminho, lembrei-me de que não tinha esclarecido a minha dúvida sobre os rios ilhéus, se por eles corre água doce ou salgada. Mas desconfiando de que pelo rio Milagre, naquele momento, corria água salgada...

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