Confissão #82

Capítulo 10 - Parte VIII


Sobre os olhos rasos d'água


Cada encontro com S. é sempre um susto para mim, um prenúncio de final. Às vezes eu queria que alguém puxasse uma faca e cortasse de vez esse cordão que nos prende. Eu não tenho coragem, e ele não quer. Dá-me aos poucos a vida da qual tenho urgência e pede que eu espere para receber o resto. Diz que eu posso esperar com certeza, mas até quando? Será que é difícil para ele entender que já não posso mais? Outro dia eu disse a ele que esta espera é absurda, que ele precisa se decidir; e ele me respondeu que não aguenta ser pressionado. Tenho a sensação de termos combinado apostar uma corrida e de estarmos os dois na linha de largada. Ele então começa a contagem regressiva e se prepara, mas quando diz “já” eu saio correndo e o vejo lá atrás, parado, rindo. E ainda fico na dúvida se é para mim ou de mim. Diz para eu continuar correndo e que, quando passar por ele, na segunda volta, seguirá comigo. Mas eu não tenho fôlego, e não tínhamos combinado uma segunda volta. Eu então estendo a mão, chamando-o, e ele vem em disparada para se deter metros à frente. E de novo. De novo. De novo...

Eu nunca entendo quando ele diz que me ama, mas que não pode. Que tem medo de me amar mais e depois me perder, que não consegue se entregar. Eu acredito, mas não entendo... Que amor é esse que tem medo de si mesmo? Eu não entendo. E muitas vezes já disse que não queria mais vê-lo, para ele não telefonar ou aparecer. Mas deixo meu coração bater desesperadamente feliz se reconheço a voz dele quando atendo ao telefone, ou quando aceito o abraço. Eu queria estar mais forte, mas não consigo. E aí vejo que o amor é mesmo egoísta. Roubou tudo o que eu tinha de meu, só meu, e deu para ele, para S.. Cadê meus desejos, meus planos, meus sonhos? Meu orgulho, minha dignidade, minha confiança? Cadê o coração que eu achava que estava aqui? Estas coisas só aparecem junto com ele, e às vezes nem me reconhecem mais, quando S. fica muito tempo sem estar comigo. E quando eu quase me acostumo, ele volta... E eu sofro por mim e por ele, que vai sentir falta de tudo isto quando eu deixar de ter esperança e ele perceber que estas posses são finitas.

S. é capaz de me amar por apenas alguns minutos, algumas horas, alguns dias. Nos outros, ele duvida. E quando estamos bem é como fugir daqui e ir habitar outra dimensão. Ele faz com que eu me sinta o próprio sol, e gravita em torno de mim buscando a metáfora do sol-amor: em torno do qual o mundo gira e se aquece, com força e duração quase infinitas. Mas depois ele me apaga.

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Ah! S. e seus conflitos, seus vai-e-vem...
Lembrei de S. lendo, desse e do outro, ler você é recordar e como!
E você conseguiu ler o que te mandei?
E apareça lá no blog, beijos, :).

4/11/2006 08:06:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda, você teve e tem uma leitura privilegiada desse livro ;-) Acho que mais do que a minha, pois acompanhou a escrita de perto e "ao vivo", mas de fora (nem tanto hehehe)
Ainda não li. Passei os olhos, mas não se pode chamar de leitura. Vou ler com calma e carinho. Estou nos finalmentes para a publicação do livro. É bom mas dá um trabalho! Logo teremos novidades ;-)E apareço sim.
Beijos,
Ana

4/11/2006 08:40:00 PM  

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