Confissão #81

Capítulo 10 - Parte VII


Sobre os olhos rasos d'água


Eu estava um pouco esquecida de mim. Sabe o que acabei de fazer? Fui até a cidade e cedi a um ataque de mulherice: limpeza de pele, manicure e pedicure, massagem, corte de cabelo. Não é porque estou aqui à espera que também devo esperar pacientemente pelos estragos do tempo. Quero estar bonita quando você chegar.

Sabe do que me lembrei? Minha avó dizia para tomar cuidado com os homens que ninguém paquerava, que mulher nenhuma quer, pois devem ter algo de muito errado com eles. Concordo com ela, e adoro que meu homem seja paquerado, que esteja sempre se sentindo bonito e charmoso. Fico achando que sou a mais sortuda das mulheres quando todas olham e só eu posso dizer: é meu! Cuido bem do meu homem, e isto faz bem a ele e a mim. Eu nunca seria capaz de deixá-lo sair de casa sem estar, no mínimo, digno dele mesmo. E não falo apenas de aparência. Você também pensa assim, que ter o outro desejável e ao mesmo tempo tê-lo só para si, é uma declaração de amor? Aprontando-me bonita, é uma homenagem que presto a você. Se me olham, se me desejam, se me fazem elogios, é como se os fizessem a você. Porque eu, que teoricamente poderia escolher qualquer um destes outros, escolhi você.

Foi boa a sensação de voltar a cuidar de mim. Tenho os meus tempos de andar por baixo, de esquecer que existo, mas o amor me revive sempre. Quando não tenho ninguém, tento aprender a me amar mais, e acho que tenho conseguido. Também é um jeito de dizer que te amo, que eu aprovo e gosto de mim, que sou aquela que você ama.

Quando me separei, a casa ficou enorme. Muitas das coisas que estavam por lá, as não materiais, foram embora com R.. E eu também fui um pouquinho. Sabe qual é a primeira sensação? Acho que deve saber; não sei porquê mas acho que você também já passou por isso, que já esteve do outro lado da porta. O que eu sentia era medo. Um medo absurdo de tudo, das coisas vivas e das coisas invisíveis, dos barulhos da casa na madrugada, dos silêncios nas manhãs. O susto de não encontrar ninguém ao lado na cama e ficar sem saber quando foi que se levantou. E a gente precisa aprender a tomar posse do território de novo. Sabe qual foi o meu primeiro ato? Brincar à vontade com o controle remoto da TV.

Depois comecei a me dar presentes. Comprava roupas novas para ir a lugar nenhum, ou apenas até o espelho. E me preparava jantares. Já te disse que adoro cozinhar? Adoro! E muitas vezes cozinhava os meus pratos preferidos, colocava música, abria um vinho, acendia incensos e velas, e jantava comigo mesma. Reaprendendo a gostar da companhia. Uma vez contei isso para minha mãe e ela começou a chorar, dizendo que era a coisa mais triste do mundo. Sei que chorou com olhos de mãe, que querem ver a filha em boa companhia. Mas eu não acho triste, você acha? Eu estava aprendendo a estar de novo comigo, a ver meus limites, a conversar pra dentro, a me bastar quando isto é imperativo. E hoje sinto sua falta, mas não como quem espera uma metade, como alguém capaz de me completar. Sinto sua falta como uma mulher que até sabe viver sem você, mas que não quer viver sem você.

Está certo que sei que o amor tem aquela coisa de melhorar a pele, dar brilho extra aos olhos, fazer a gente se sentir magra mesmo sem emagrecer. Ele nos faz ficar muito mais bonitos porque o outro assim nos vê. Eu ainda me assusto com o quanto isto se torna visível. Outro dia um amigo me pediu uma foto e eu mandei. Ele não gostou dela, disse que não era eu, que estava diferente. Mandei então uma que S. tinha tirado quando estávamos juntos, e comparando esta com a anterior eu também percebi a enorme diferença. Vou te contar porque não quero que tenha ciúmes do meu passado, assim como eu não tenho vontade de voltar atrás. Mas sabe o que S. me disse minutos antes de tirar a foto? Que faltavam só duas fotos para serem tiradas, para eu fazer uma pose qualquer e acabarmos logo com aquilo, pois ele não aguentava mais a vontade de fazer amor comigo. Pois é, acho que os de alta sensibilidade também a felicidade da gente.

2 Comments:

Anonymous Leila said...

Não, não acho triste, e sei exatamente como é essa sensação. :)

4/11/2006 03:44:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Pois é, Leila, eu também nunca achei. É bom a gente se cuidar, em todos os sentidos.
Beijos,
Ana

4/11/2006 07:17:00 PM  

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