Confissão #78

Capítulo 10 - Parte V


Sobre os olhos rasos d'água


Há dias quero conversar com o Zé, mas de novo a chuva não dá tréguas. E eu também tenho estado chuvosa; perdi até o interesse pela festa de São João, e a chuva acabou sendo uma boa desculpa. Não dava para ensaiar a quadrilha, nem para pendurar bandeirinhas e outros enfeites, nem armar fogueiras. Pedi a dona Isabel que avisasse a todos e me ajudasse a enviar os “desconvites”. Para falar a verdade, com um pouco de boa vontade até que daria, bastava cobrir uma parte do jardim. Mas é melhor assim, não ando muito animada, e dona Isabel também não está em seus melhores dias, desde que conversamos sobre o ex-marido dela e sobre o Zé. E eu comecei a ler sobre S.

Há páginas e páginas de anotações sobre ele, feitas tentando me situar um pouco no meio da bagunça que ele deixou na minha vida. Eu nunca mais as tinha lido, mas desta vez vou ler até o final. Sei que não sinto mais nada por ele, que ando toda tomada por este amor que se anuncia, mas algumas dores e porquês ainda me assombram. Atingiram-me quando eu menos podia, quando estava fragilizada, despreparada. Talvez acrescentem um pouco de juízo ao meu coração, imprudente de nascença e por natureza. Mas delas agora quero tudo, quero reviver, quero consumir até o núcleo, até que fiquem apenas lembranças e não mais cicatrizes.

Às vezes tenho vontade de ir embora, mas acho que falta tão pouco para o meu amor chegar... De tantas coisas desisti no meio do caminho, que esta, a mais importante, não pode ter o mesmo fim. Eu espero, e se ele, o meu homem, não vier – por que teimo em duvidar que venha? –, o azar é dele. Esta culpa eu não carrego, pois me faria andar curvada por séculos e séculos. Vergada pelo peso da dúvida.

J. apareceu na noite de São João; sabia que não tinha mais festa, mas veio mesmo assim. Disse que era o seu dia, e que a presenteada seria eu. Trouxe mais flores; lindas, begônias alaranjadas, que disse ter tido um trabalhão para arranjar e que este esforço todo, afinal, não valia meu sorriso. Na última vez que esteve aqui eu disse a ele que gostava das flores menos comuns, como begônias, petúnias, girassóis.

- Eu nem sabia o que eram begônias... – disse J., olhando pra mim de um jeito que me fazia ficar sem saber direito como agir; se ficar brava, sem graça, se corresponder.

- J., eu já te disse que tenho namorado.

Eu tinha falado para ele sobre a existência de um certo namorado. De nada adiantaria dizer que apenas esperava por um.

- Mas eu não estou fazendo nada...

- Está sim – retruquei. - Está me olhando como se eu não tivesse.

- O que eu posso fazer se você mexe comigo?

Talvez, se fosse em uma outra situação, ele também mexesse comigo. Mas não agora. Era uma boa companhia, eu me sentia bem ao lado dele.

- E além do mais, a bananeira chorou a letra A.

- Como? – perguntei.

Ele me explicou uma das simpatias de São João, para quem não teve sorte com os pedidos a Santo Antônio. Enfia-se uma faca na bananeira e o líquido que ela solta escorre formando o desenho de uma letra. É a inicial do nome da pessoa com quem se vai casar.

- Mas existem tantos nomes de mulher que começam com a letra A. – brinquei.

- Mas é só uma que eu quero.

Ele tinha um jeito de olhar bastante decidido, direto nos olhos; confesso que isto me perturbava um pouco.

– E eu já te avisei que vou fazer de tudo para te conquistar – continuou.

- Mas eu já sou apaixonada por outro.

- Que está longe e te deixa sozinha aqui. Se eu fosse ele, não sairia de perto de você.

Já tínhamos conversado muito sobre isso, que eu estava até para me casar, mas ele afirmava que estes eram meus planos antes de conhecê-lo. Eu sabia que não corresponderia, mas as coisas que ele me dizia, as flores, os telefonemas, tudo me fazia muito bem. Qual é a mulher que não gosta de ser cortejada? E tenho que admitir que ele era muito bom nisto. E persistente.

- Eu já te falei que gosto – respondi, mais uma vez, à pergunta dele se eu não estava gostando do que ele fazia por mim. – É bom para mim, para o meu ego, para a minha vaidade; mas eu não vou corresponder. Não do jeito que você quer.

- Você não acha que está muito cedo para me dizer isso?

Nos carinhos, ele nunca ia além de passar a mão pelo meu rosto, como agora. Já tinha tentado me beijar uma vez e eu não deixei. Então disse que não estava acostumado que lhe negassem um beijo, e que só voltaria a tentar novamente quando percebesse que eu também queria.

– Por enquanto, aproveita – disse ele. - Eu gosto de estar perto de você, de conversar, de te dar presentes, e você gosta de receber. O que tem de errado nisso?

- Tem que eu não quero te iludir...

Eu não queria mesmo. Mas ficava dividida entre querer e não querer que ele continuasse agindo assim.

- Mas você não está me iludindo, está sendo honesta. Não me contou deste namorado no dia em que nos conhecemos?

- Contei.

- Então eu já sei, e daí não é mais problema seu; é meu. E não ligo a mínima para ele.

Eu não gostava quando ele falava assim, e principalmente quando dizia que a minha sinceridade, a minha fidelidade, a minha certeza do que sentia pelo meu namorado, mesmo estando longe, fazia com que ele gostasse ainda mais de mim. Ficava receosa de que ele achasse que era um jogo, que eu estava me fazendo de difícil para instigá-lo.

- Mas eu ligo, e muito. Não espere de mim mais do que amizade, está bem? Gosto muito de você, mas meu coração já tem dono...

Fiz-lhe um carinho no rosto também, e ele fechou os olhos e ficou quietinho sob o toque. Acho que J. é uma pessoa muito mais carente do que demonstra. Também já foi casado, também não tem filhos, e busca um novo amor. É muito mais difícil para os homens do que para as mulheres suportarem estar sozinhos. Há quatro dias ele está direto aqui na ilha, e temos ficado bastante tempo juntos. A dona Isabel até já implica menos com ele depois daquele primeiro dia em que mandou flores, logo depois da festa de Santo Antônio. E acho que às vezes até quer mudar de idéia sobre “o boto” – ela ainda o chama assim – depois que ele pediu a ela, na minha frente, que o ajudasse a me fazer aceitar o pedido de casamento. Com as bençõas de Santo Antônio. Ontem mesmo ela veio comentar comigo:

- A senhora lembra que eu falei que ia pedir a Santo Antônio para arrumar um moço bom para a senhora?!

- Lembro, por quê?

Eu imaginei onde ela queria chegar; provavelmente queria chamar minha atenção para J., mas ela desconversou, disse que não era por nada não.

Eu e J. nos sentamos na varanda para ver a noite chuvosa de São João, imaginando quantas fogueiras, de pura inveja, São Pedro deve ter apagado por aí. J. se deitou no banco e colocou a cabeça no meu colo. Gosto de dar colo, de dar carinho, muito mais do que de receber. Até tínhamos muita coisa em comum; gostava do jeito decidido e persistente dele, mas achava que nada se pode fazer contra as vontades de um coração. Estávamos conversando sobre isso, J. achava que pode se aprender a amar alguém; eu dizia que não. E pelo menos comigo, isso nunca tinha acontecido.

- Bem, eu acho que pode. Você não gosta mais de mim hoje do que quando me conheceu? – ele tentava me convencer.

- Gostar, gosto. Mas nós estamos falando de amor.

- Mas é a mesma coisa.

- Lógico que não é. Amor é muito diferente. E eu acho que pelo menos um resquício dele tem que surgir num primeiro olhar, num primeiro encontro. Uma atração, pelo menos. Ele não aparece do nada, não se transforma a partir de um outro sentimento.

J. continuava a insistir que, se eu quisesse, poderia vir a me interessar por ele não apenas como amigo. Que se eu deixasse, ele me conquistaria. E às vezes eu achava que sim, que poderia estar errada quanto ao que dizia sobre a imutabilidade.

- Se você me der uma chance, eu te provo o contrário.

- J., se eu não estivesse apaixonada, até poderia dar. Mas eu estou, e também já me acostumei tanto a ter você como amigo que não consigo fazer diferente. Em algumas coisas eu não consigo voltar atrás.

- Mas não seria melhor um amor nascido assim, da amizade? Você já me conhece, já confia em mim, já gosta de mim... Eu te faria muito feliz.

Enquanto ele falava, eu pensava que talvez tivesse razão. Que talvez confiando, conhecendo melhor, fosse mais fácil se deixar levar pelo amor. Que talvez se eu o tivesse conhecido antes de ter me apaixonado pelo amor que tanto espero, poderia dar certo. Fiquei com medo de estar fugindo de algo que podia ser real, que eu podia ter agora, se quisesse.

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