Confissão #77

Capítulo 10 - Parte IV


Sobre os olhos rasos d'água


Desde a primeira vez em que nos falamos, vi em S. todos o meus sonhos que não tinham para onde ir. O que dizer de um homem que sabe de cor as suas poesias preferidas? Que liga antes da hora que você combinou de ligar para ele, só porque não aguentou de ansiedade? Alguns homens, perigosamente, têm a alma feminina, e S. é um destes. Não para agir como as mulheres, mas para entendê-las com tamanha propriedade que elas desejam se submeter, desejam que ele saiba mais e mais sobre elas e assim continuem a agradá-las. Querem estar presas por delicadezas, por palavras e atos inesperados, por amor.

Acho que sempre tive muita sorte com os homens que escolhi, ou que me escolheram. Mas com S. era diferente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se não tivéssemos escolha mesmo, tão bom era quando estávamos juntos. Eu tenho a impressão de que se parasse no meio de uma frase ele iria continuá-la, dizendo exatamente o que eu queria dizer. E apareceu em uma época em que eu estava para poucas palavras, não querendo me explicar, depois da separação. O amor por ele era confortável, seguro, sem mistérios, como uma roupa velha da qual gostamos muito e dentro da qual nos sentimos confortáveis. Era o que eu precisava para voltar a acreditar que teria uma nova chance de ser feliz.

Tanto quanto à alma, o amor de S. falou-me ao corpo. Não havia eufemismo entre o que falávamos, fazíamos e sentíamos, tudo era exatamente como tinha que ser. Ele entendia as minhas necessidades e falava delas pelo verbo, pelo verso, pelo avesso, pela ausência e pela presença, enchendo-me a alma e a cama. Ele me amava como se amasse desde a infância, de um amor menino e inconsequente, que não seguia regras nem horários, e muito menos tinha limites. Amava-me com sono, mal-humorada, feliz, com fome, com ironia, com preguiça e com saudade. O tempo todo se declarava e tinha urgências; amava-me paciente e sem paciência, me provocava, fazia guerra de travesseiro, me alimentava, esfriava a cabeça e me esquentava. Ele me espalhava, eu enchia a cama e depois voltava a caber miúda no travesseiro que era o peito dele.

Quando ia me encontrar com S., tinha vontades de flor no cabelo, banho de cheiro, bolo de chocolate, suco de fruta geladinho no calor do meio dia. Dei até para escrever, enchi cadernos e cadernos de poesia só para me exibir, para S. me ler, me descobrir. Era poesia para acordar, para abrir o apetite, para fazer a sesta, para terminar o dia. Era poesia para tudo o que, com S., rimava com novidade. Aprendi a torcer pelo time dele, preparar dry martini, dar nó em gravata, ler primeiro as previsões para o signo dele, dançar bolero, fazer strip.

S. viajava centenas de quilômetros para almoçar comigo dizendo que era tudo de que precisava. Escrevia poemas em guardanapos de restaurantes, ligava no meio da noite para esquecer um sonho ruim. Ficava horas velando meu sono para ver se me flagrava sonhando com ele. Dizia que os beijos dele ficavam mais felizes quando estavam comigo, pousados nos meus lábios, como se tivessem voltado para um lugar de onde nunca deveriam ter saído.

2 Comments:

Anonymous Lêda R. J. Chaves said...

Ana:

S. é o homem que toda mulher gostaria de encontrar...
Um beijo
Lêda

4/07/2006 06:38:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Ah, Lêda, espere a cenas dos próximos capítulos ;-)
Beijos,
Ana

4/07/2006 07:39:00 PM  

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