Confissão #76

Capítulo 10 - Parte III


Sobre os olhos rasos d'água


Dormi ouvindo histórias, como antigamente. A diferença é que quando somos crianças elas nos divertem, e quando crescemos elas só nos distraem. Mas eu ainda tenho vontade de, um dia, me mudar de mala e consciência para dentro delas; e me preocupa pensar que pode ter sido isto o que fiz quando vim para cá, nada menos que distrair a verdade. Porque eu não suporto a idéia de não viver um grande amor. Sabe aquilo de “com quem você se mudaria para uma ilha deserta?” Eu me mudei com a minha esperança. E me identifico com ela, a ilha.

Outro dia, ouvi que inteligência e felicidade não combinam, e até me senti feliz pela burrice de não ter pensando nisso antes. São tantas ocasiões em que precisamos apelar para a ignorância, quando não para a burrice mesmo, e nos enganarmos com um pouquinho de felicidade... É por isso que falo sobre me parecer com uma ilha: cercada de impossibilidades de acesso a alguns tipos de felicidade. E isto que vou dizer é um elogio, não uma ameaça, porque a você eu quero. É que eu não consigo me fingir de burra quando penso na possibilidade de amar. Desculpem-me os burros e incultos, que podem até saber dar prazer, mas não consigo separar sexo de amor. Romantismo?

A minha carência, a que me faz diminuta quando engrandece, ainda faz exigências. Não sou capaz de aceitar carinho ou o que quer seja em troca de fingir que serve. É ruim falar disso, pode parecer convencimento, mas não é. Sei que sou especial, mesmo já tendo tentado me convencer do contrário, e não aceito do meu lado ninguém que não o seja também. Quando eu não sabia disso, e muitas vezes duvidei, era mais fácil. Mas hoje eu sei, e não vou ser hipócrita em negar. Eu não sou capaz de estar com um homem que não tenha assunto para preencher o espaço deixado entre um beijo e outro. Embora às vezes a solidão insista em querer que eu ceda. Mas eu te espero, e me guardo para você porque sei que assim ganho tempo. E não me culpo por frigidez intelectual. Não que eu precise que se gema erudições ao meu ouvido, mas que pelo menos saiba o que quero dizer quando confesso que costumo dizer onomatopéias em alto e bom som enquanto gozo.

Mas não era disto que eu queria falar, era de ignorância, do não saber. Eu gostaria de ter um detector das ignorâncias necessárias, para reconhecer quais são aquelas verdades que a gente não precisa ou não deseja saber. Certa vez, uma amiga me disse que se algum dia eu viesse a saber que o marido a traía, preferia que eu não contasse a ela. Eu não penso assim, mas respeito. E talvez ela até tenha razão, pois disse também que se não percebeu, se não desconfiou, é porque está bom para ela do jeito que está. Saber para que? Para não saber o que fazer com a revelação? Sim, porque certas decisões teriam que ser tomadas, mesmo que fosse a de ignorar e não fazer nada. Como é que se pensa a partir do ponto de vista dos outros? Minha ironia diz que é fechando os olhos.

Vamos fazer um pacto? Vai dizer que eu tenho mania de pactos, né? Nem sei se todos são cumpridos... Com o B. ele não foi cumprido... Mas eu gosto do comprometimento dos pactos, coloca quem os faz em pé de igualdade. Mas eu queria ser a primeira a saber se algum dia você pensar em me trair. Acho que a gente ainda vai ter que conversar sobre o que é trair; cada um trai à sua maneira. Mas à sua maneira de me trair, eu queria ser a primeira a saber, antes mesmo de quem pode despertar a sua vontade. Um favor que me faz e que retribuo. Talvez eu não faça nada para que mude de idéia, isto é com você. Tem todo o direito da escolha, e o que peço é que também o conceda a mim, só isso.

Sabe que eu acho que qualquer dia você poderá perceber que se enganou comigo, que eu não sou quem você procurava? Ou que mudamos de maneira diferente, e não combinamos mais? E quando isso acontecer, também quero que me diga, eu prefiro assim. Como eu também te direi. O dia em que eu achar que posso parar de conquistá-lo provavelmente é porque quero que você faça o mesmo comigo. Querer que não me ame é meu jeito de te amar menos também. Acho que estou sendo chata, não é? Por que é que eu sempre tenho que combinar tudo antes? Por que é que não consigo simplesmente esperar?

Às vezes acho que sufoco as pessoas com meus cuidados, querendo ajudar, saber como estão, ser útil, que saibam que sempre podem contar comigo. Há quem precise, mas também há quem não goste. Por isso te digo: eu vou até onde você deixar, mostre-me seu limite que eu não o ultrapasso. Mas seja claro, não o insinue apenas. Trace mesmo um risco no chão e diga que dali para lá é só seu, e por mais que eu ache que você precisa, não devo ir além. Hoje estou assim, sem saber se invado, se me seria permitido. É que a dona Isabel me contou todo o problema que tem com o Zé, e até onde eu sei, ela está errada. Mas quais são as verdades que a gente precisa ouvir, ou as mentiras das quais a gente precisa para continuar vivendo?

Já percebeu que quando não estamos bem, voltamos a ser pequenininhos? A dona Isabel sempre morou aqui na ilha e hoje me falou das suas lembranças das festas de São João. Disse que a avó costumava reunir todos os netos ao redor da fogueira e contar histórias. A avó dela nasceu em 24 de junho, e se fosse homem teria se chamado João, o nome do santo do dia. Mas foi batizada de Isabel, o mesmo nome da mãe de São João. E desde então as filhas mais velhas têm este nome, a mãe dela tinha, a filha dela tem. Quando Santa Isabel soube que teria um filho, combinou com Nossa Senhora, de quem era muito amiga, que no dia em que ele nascesse acenderia uma fogueira bem grande, para avisá-la do nascimento. É por isso que São João é festejado até hoje com mastro, fogueira, balões, rojões... Coisas relacionadas ao fogo. A dona Isabel me mostrou uma brasa que carrega na carteira, recolhida da fogueira do último São João, e disse que quem a guarda vive por mais um ano. Lembrou-se também da prova de fé no santo, onde as pessoas, descalças, tinham que atravessar o braseiro ou os restos da fogueira; e não se queimavam se a fé no santo fosse grande.

Minha mãe também conta da época das histórias à volta das fogueiras, não apenas nas festas de São João, mas também porque, em Ibiá, naquela época, televisão era artigo raro. Então as pessoas se reuniam nas ruas e nos quintais, para ouvir rádio, conversar e contar histórias. As últimas da noite sempre eram de assombrações, almas penadas, lobisomens, mulas-sem-cabeça e outras aparições. Na hora de irem embora para casa todos recolhiam uma brasa da fogueira, para se protegerem e atacarem o que quer que aparecesse pela frente.

Acho que vou guardar uma brasa da minha fogueira de São João...

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