Confissão #75

Capítulo 10 - Parte II


Sobre os olhos rasos d'água


Amor de roda gigante: foi isso que vivi com ele. Eu tinha um medo antecipado de que ele fugisse, e por isso eu apertava tanto sua mão. Até que o medo dele doesse também em mim e fizesse minha mão adormecer para que a vida me doesse menos. E a roda girando, e nós dois vivendo intensamente cada volta, porque nunca sabíamos se a pessoa que controla o brinquedo ia fazê-lo parar justo daquela vez. Subíamos de mãos dadas, cheios de expectativas e promessas. Lá em cima, trocávamos o mais permissivo dos beijos. E a outra metade era em queda livre. Do céu ao inferno em questão de segundos.

Eu achei que poderia ensiná-lo a me amar, com aquela empáfia que só os apaixonados podem sentir. Que sentimento seria aquele que fazia com que eu pensasse que poderia brincar de Deus e refazer um homem? Só podia ser amor. E eu o amava a ponto de querer me apossar das dores dele, dos medos dele, das ignorâncias dele. Sim, porque eu achava que ele não sabia amar; pois não poderia admitir que sabia e, mesmo assim, não me amar. Ou até amava, mas do jeito dele, que não servia para mim. Era um amor metade corajoso e metade covarde. Metade cuidadoso e metade displicente. Metade inteiro e metade pela metade. Morri de amor mais vezes do que morre uma ninhada de gatos.

Nos dias em que me amava, ele se ajoelhava aos meus pés e me adorava. Com altar e tudo, onde eu era a santa, o véu, a vela, a reza e a flor. Mas sobretudo o pecado que diante de mim ele confessava: eu te amo. Fazia-me de anjo e demônio, e eu me sentia a mais digna das mulheres, porque ele me amava. E então era atingida em cheio pela magia das primaveras: florescia. Tão forte que resistiria aos invernos, mesmo se nevasse, mesmo se um pé descuidado me tombasse por terra. Ah, quando ele me amava... Eu tinha vontade de me transformar em uma outra pessoa qualquer, só para sentir inveja de mim.

Nos dias em que ele não me amava, eu doía. Doía inteira na dor do nada. Na que não tem cura porque não tem causa. A dor que doía inteirinha no que podia não acontecer. Dor de mão amputada que não viu as rugas, de olho cego de nascença que nunca soube se teria catarata. Dor de coração transplantado, de tanto que não parecia ser minha aquela dor. Eu não sabia se ela viria se ele deixasse amadurecer o amor.

E entre os dias de amar e não amar, ele tinha medos. E me fazia viver entre dois amores: o meu por mim e o meu por ele. Pedia que eu o ajudasse, que segurasse forte a sua mão porque ele tinha medo. De amar, de não amar, de se perder, de se achar, de culpar, de ser culpado. Tinha até medo de mim, porque falou o que não queria, abriu-se mais do que sempre se permitiu. Tinha medo de ter aberto uma fresta por onde eu pudesse ver o que ele tinha lá dentro. Como nem ele sabia direito, podia ser bonito ou feio. E eu então rasgava o peito e me abria mais, para que ele não tivesse medo, visse o que havia de feio e bonito em mim. E lá dentro o que ele via era apenas um coração que sangrava sem saber se batia junto ou separado. Nada mais. Porque ele já ocupava todo o meu espaço de viver. Já tinha plantado fundo suas raízes nos sulcos das minhas dores e esperanças. E eu secava, semente sem saber no que ia dar.

Quando ele duvidava que me amava, eu duvidava de mim. Perdia os sonhos, os planos, o rumo, o equilíbrio, perdia o gosto. Tudo à espera de que ele partisse ou ficasse de vez. Deixava-me no meio do caminho quando eu queria saber se do outro lado do túnel teria mesmo tudo que ele me fez acreditar ser possível.

3 Comments:

Anonymous Márcia said...

Suas palavras é que são doces, menina. E belas, como as de mais ninguém. Parabéns.

4/06/2006 07:05:00 PM  
Anonymous eduardo said...

Seu blog é muito interessante, você escreve muito bem. Voltarei mais para ler o livro.

o blog do meu pretenso livro: http://dudve.blogspot.com/

4/06/2006 08:57:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Márcia. Doce visita.

Obrigada, Eduardo, vou ver se livro.

Beijos,
Ana

4/07/2006 02:42:00 PM  

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