Confissão #74

Capítulo 10 - Parte I


Sobre os olhos rasos de água


- Por quanto tempo estiveram juntos, Zé?

Falávamos sobre Lorelei.

- Cinco meses – ele disse, e completou rápido, levando a mão ao peito marcado pela lembrança –, mas depois nunca mais me separei dela.

- O que mais você sabe sobre ela?

O Zé nunca entrava em detalhes. Ou melhor, nunca de uma maneira que me deixasse descobrir um pouco mais sobre Lorelei. Quem era, o que fazia, o que pensava... Devia ser uma pessoa muito especial, pelo sentimento que tinha conseguido despertar no Zé. Mas nem sempre o amor depende disto, pode existir só por causa do desconhecimento, iludido na figura que se faz do ser amado.

- Quase nada além do que já te contei.

Às vezes eu me perguntava se ela existia mesmo ou se era um amor inventado. Mas abandonava logo tal pensamento, porque seria quase como negar a sua existência também. Hoje, onde mais você existe a não ser dentro de mim? O que será que eu também invento sobre você?

- E que dizia ela cumprir a sina dos alcyons – e de braços erguidos, imitando o movimento de asas, ele respondeu à minha expressão de "quem?" –, das gaivotas.

- Não é comum aparecerem gaivotas por aqui, é? – perguntei.

- Não, raramente aparecem. Talvez os barcos daqui sejam pequenos para buscá-las em alto mar. Ou esta calmaria as desencoraje de gritar. Sabe por que soa tão triste o grito das gaivotas?

Eu não sabia e o Zé me disse que deviam ter alma portuguesa.

- Cantam fados, constroem seus sonhos à beira-mar, e do mar recebem a alegria e a tristeza, como os portugueses à época das navegações. Já ouviu falar na Ilha do Pessegueiro, em Portugal?

- Eu nem sabia que Portugal tinha ilhas...

- Algumas, bem pequenas. Esta fica quase em Porto Corvo, perto de Sines, a terra de Vasco da Gama.

- Onde fica Sines?

- Fica na região do Alentejo e na memória de quem conhece. Depois das apresentações em Portugal, o circo voltaria ao Brasil. Aliás, já estava voltando, de navio, e eu resolvi retribuir o presente que Lorelei me deu na Alemanha, o passeio pelo Reno. Sei que era uma desculpa, pois eu nem conhecia a região. Era para estar mais perto e a sós com ela. Eu não conseguia tirar os olhos de Lorelei; os dela estavam postos no mar, acompanhando os últimos instantes de sol. Tínhamos parado para jantar em uma praia linda chamada São Torpes. E na verdade éramos três, eu, ela e o mar, em um restaurante quase sobre as águas. Lá, o pôr-do-sol é quase tão lindo quanto aqui. Mas eu tinha a impressão de que era mais lindo ainda, e esta sensação vinha da presença de Lorelei ao meu lado. E então ela disse: Eu tenho a sina das gaivotas, e este é um dos momentos concedidos por Zeus.

O Zé alongou os braços, imitando novamente o vôo das gaivotas, e continuou:

- Eu não sabia do que ela falava e então me contou a lenda dos alcyons: Há muito tempo, Alcyoné, que era filha do vento, se casou com o filho do sol da manhã, e eram tão felizes que despertaram a inveja dos deuses. Foram transformados em gaivotas, mas, mesmo assim, continuaram juntos, e viviam de amor e do que pescavam no mar. Mas os ninhos que construíam à beira do mar eram constantemente destruídos pelas ondas, e daí a origem do grito melancólico dos alcyons. Zeus então se apiedou deles, acalmando o mar duas vezes por ano, antes e depois do solstício de inverno, por sete dias. Era quando então podiam chocar seus ovos. Entendi o que ela queria dizer quando olhou para mim e aqueles olhos tristes estavam sorrindo, mesmo fora do picadeiro. Os olhos dela, da Lorelei, que até então tinha tido apenas poucos e breves momentos de paz e felicidade por ano, como os alcyons. Ao nosso lado, no restaurante, uma senhora também prestava atenção à história que Lorelei contava e disse estar vindo de Porto Corvo, uma região um pouco mais adiante, a uns dois quilômetros da Ilha do Pessegueiro, e que naquela época do ano a ilha estav cheia de gaivotas, que iam chocar seus ovos. Estávamos bem perto de lá, e resolvemos seguir de manhã, sob as benções do filho do sol. Lorelei me contou que aqueles pássaros carregam em sua natureza o céu e os oceanos, o ar e as águas, e são considerados símbolos de fecundidade espiritual e material, ameaçados pelo ciúme dos deuses que jogaram sobre eles a revolta destes seus próprios elementos. Um grande amor, quando os dois se bastam, é uma benção que pode ser sua própria desgraça. A felicidade só é possível se consentida pelo deus que controla as tempestades, completou Lorelei.

Fascinada com aquela história, eu deixava o Zé falar, sem interrompê-lo:

- Na noite anterior, tínhamos ficado até tarde no restaurante, conversando com a senhora que nos contou a história da Ilha do Pessegueiro, ou do Pixiguero. O nome acompanha a ilha desde a época dos romanos, e não é inspirado nos frutos da árvore homônima, como, aliás, é mais romântico e até cantado em canções e descrito em poesias. Ela foi um importante centro comercial, de salga e produção de preparados de peixe. Já foi também refúgio de piratas e ainda hoje é habitada por muitas lendas. Vivia ali um ermitão que defendia a todo custo uma pequena capela da qual era o único guardião. Ele foi atacado e morto por piratas que saquearam a capela, atearam fogo em tudo e fugiram. Depois que o fogo se apagou, os habitantes de Porto Covo foram até lá ver o tamanho do estrago e encontraram intacta apenas a imagem de uma Virgem, que passou a ser conhecida como Nossa Senhora da Queimada. Portugal é um país cheio de lendas e histórias, e inclusive ouvimos uma que dava outra versão sobre a origem do nome da ilha, que teria sido por causa da árvore, o pessegueiro, que um vizir plantou lá, antes de se matar por amor. Estávamos ansiosos para conhecer a ilha e, se desse, irmos até ela. Diziam que ainda conservava os destroços de um velho forte destruído durante um terremoto, e que mais tarde ganhou uma construção idêntica no continente. Saindo de São Torpes, seguimos por uma estrada ladeada por dunas e falésias, que despencavam sobre praias de areia muito clara e fina. A costa daquela região é bastante recortada, principalmente um pouco mais abaixo, onde formava inúmeras restingas e baías, separadas da terra por grandiosas elevações rochosas.

Enquanto falava, os olhos do Zé brilhavam, como se estivessem se maravilhando também com a lembrança.

- Passamos por Porto Covo e paramos rapidamente em um largo com antigas casas de pescadores e outras mais novas, geminadas, que se abriam para a rua com apenas uma porta e uma janela, emolduradas em azul. Algumas tinham sido transformadas em restaurantes, bares, lojas de artesanato e cafés. Tudo muito simples e acolhedor. Resolvemos deixar o carro ali e seguimos andando pela praia, uns dois quilômetros até estarmos frente a frente com a plana e pequena faixa de terra da Ilha do Pessegueiro. Sentamo-nos na areia e ficamos longas horas em silêncio, olhando a ilha e as gaivotas em um de seus momentos de paz, com o consentimento da fúria do mar. Àquela hora, já deviam ter se alimentado e, aos pares, alternavam-se sobre os ninhos, chocando os ovos, à espera dos filhotes. Em determinado momento, uma delas levantava vôo e num mergulho certeiro voltava com um peixe no bico. Ao invés de se alimentar dele, levava para a que tinha ficado em terra. Sabia que quando fosse sua vez teria o mesmo tratamento. Você sabia que as ilhas surgiram quando os Gigantes se revoltaram contra Zeus? Lorelei foi a primeira a quebrar o silêncio. Eles lançavam enormes rochedos rumo ao céu, tentando atingi-llo. As que caíam de volta na terra, formaram as montanhas. As que caíam no mar, hoje são ilhas. Você gosta de ilhas, não gosta?, perguntei a Lorelei. Ela disse que sim; e então prometi que, de volta ao Brasil, eu iria trazê-la aqui, na minha ilha preferida.

Eu estava longe, em Portugal, viajando pela história do Zé, e custei a perceber que ele já falava comigo, e não apenas com as próprias lembranças.

- Então ela chegou a vir até aqui com você? – perguntei, curiosa.

- Não, mas ela ainda vem... – disse. E acrescentou:

– É para o que peço a permissão dos deuses.

- Sabe, achei interessante esta história de uma grande felicidade despertar o ciúme dos deuses. Se for mesmo assim, já sabemos porque às vezes um amor que tinha tudo para dar certo, não dá; não é mesmo?

- Ou dá, mas por uma sucessão de momentos, e não de um modo contínuo. Apenas antes e depois do solstício.

- Eu já tive amores assim, desses que os deuses tentam reservar apenas para eles.

Ultimamente, eu pensava bastante sobre a minha história com S., que batia direitinho com aquela que o Zé acabava de me contar. Um ninho sendo construído e destruído, como acontecia com as gaivotas. Tanto, que elas aprenderam a construí-los na segurança das falésias. Onde será que se constrói um amor e ele se mantém inatingível para os perigos que vêm de fora da gente? Com S., acho que até hoje eu não consegui entender direito o que aconteceu, tinha tudo para dar certo. Já faz algum tempo tenho vontade de reler o que escrevi sobre ele. Acho que já tenho condições de não me machucar tanto mais. Acho.

- E sobre as flores, que Lorelei não gostava. Ela me disse, naquele dia, que era porque nunca tinha recebido. Era assim também com o amor, disse que não podia saber se gostava de algo que nunca tinha experimentado.

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