Confissão #73

Capítulo 9 - Parte X


Os segredos que me deram para guardar


A chave girou seca do outro lado da porta.

Tléc!

Por longos instantes achei que ele não teria coragem de dar a segunda volta.

Tléc!

Ouvi o barulho das chaves sendo colocadas no bolso e os passos se afastando pelo corredor. Pelo buraco da fechadura, cinco anos me espreitavam, e assim, durante a noite inteira permaneceram encostados e pesados contra a porta, mais fortes do que eu. Que continuava a ouvir os passos, lentamente, e o tempo todo seguindo o corredor até o FIM.

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O amor morreu.

Gosto das falas com reticências, mas algumas não aceitam nada além de um ponto final. Aliás, exigem. Como esta que acabei de dizer. E fica a frase-parágrafo pedindo um minuto de silêncio.

É difícil falar sobre R., e por isso falo pouco. Basta saber que a relação se cumpriu. Início. Meio. Fim. E durante algum tempo depois do fim, essas três fases permaneceram confusas, sobrepondo-se umas às outras, querendo ir e vir. Mas isso aconteceu só porque não passamos do ponto, porque soubemos abandonar o barco quando ainda tínhamos escolha. Não deixamos que um fosse a vítima e o outro o culpado. Ambos saímos feridos, mas dignos. E sobre ele vou te contar apenas o que me diz respeito, o que é só meu. Eu não cometeria indiscrições, não com ele, assim como nunca cometerei com você. Fica tudo entre os segredos que me deram para guardar.

Eu me esqueci o nome desse fenômeno, mas horas e horas olhando o mar, já vi acontecer muitas vezes. É como se as águas se tingissem de repente com vários tons, indo do negro ao azul cristalino, não necessariamente obedecendo a uma graduação crescente ou decrescente. É até mais frequente não ser assim, de um tom forte vai-se para um fraco, depois um médio, e muda de cor, e apresenta todas as tonalidades desta outra cor também. Era como se não tivessem a mesma composição química, a mesma origem. Mas continuam fluindo de uma maneira harmoniosa, seguindo na mesma direção. Deu para entender? O que eu quero dizer é que duas pessoas convivem muito bem, têm os mesmos objetivos, mas não se misturam. Não são feitas da mesma essência, o que só se percebe quando estão juntas. Talvez seja isso. É difícil explicar, você teria que ter sentido para saber o que digo.

Quando ele partiu, a casa ficou igual a como está esta aqui antes de você chegar. Não que ele tenha levado algo, mas todas as coisas precisavam aprender uma nova função. Tudo esperando uma ordem minha para ocupar o novo lugar que lhes cabia. E quando é assim, elas simplesmente deixam de existir. O sofá não serve mais para preguiçosas tardes de domingo a dois. A cafeteira precisa esquecer o preparo automático de dois cafés. A porta do banheiro vai esconder intimidades de quem para com quem? Quando o telefone tocar, não vai ouvir mais um “deixa que eu atendo”. O quadro sempre vai achar que está no lugar mais apropriado, pois ninguém mais vai dizer que ele deveria ser pendurado em outro. Há que se aprender a ter tato até com as coisas. Elas pedirão nossos cuidados, mesmo quando estivermos precisando que todos eles sejam para nós.

Sabe o que dávamos de melhor um para o outro? Liberdade. Nunca houve casamento civil ou religioso, casamos em comunhão total de liberdade e sentimentos, porque sempre confiamos muito um no outro. E sabe quando é que se sente mais falta dela, da liberdade? Quando não tem ninguém para concedê-la, e você fica preso aos seus próprios conceitos e julgamentos. E dadas as nossas diferenças, ou talvez por causa elas, nos sentíamo protegidos. Pelo menos comigo era assim: eu fugia sempre para dentro de mim mesma com muito mais constância porque sabia que ele estaria sempre me esperando do lado de fora. Talvez devesse tê-lo levado junto, ou ido junto com ele, quando ele também entrava à procura de seus próprios caminhos. Mas estávamos sempre esperando do lado de fora, e quando percebemos não sabíamos mais o caminho para dentro do outro.

Hoje eu li uma poesia que parecia feita pra você. Ou melhor, pra você dizer pra mim, porque era tudo o que eu gostaria de escutar. E assim que você chegar faço questão de lê-la pra você. Acho que este é um dos maiores problemas dos relacionamentos: a gente pensar que o outro conhece as palavras que a gente quer ouvir. Eu vou gostar que você me conte tudo, e que me peça para repetir mil vezes para ter certeza de que eu entendi. Até eu acertar. Porque eu não quero incorrer nos mesmos erros; não com você.

Sabe o que é um silêncio que deveria ser preenchido com as palavras certas? Uma vela em torno da qual se cria um vácuo. A chama agoniza por alguns segundos, depois encolhe e se apaga. E leva junto o amor. Mas há pessoas que a gente não deixa de amar. Mesmo se deixa.

4 Comments:

Blogger Cunegundes said...

Gravatá merece um beijo pela recomendação.

4/04/2006 05:05:00 PM  
Blogger Matilda Penna said...

" Mas há pessoas que a gente não deixa de amar. Mesmo se deixa."
Já falei que sou sua fâ, já?
Pois sou.
Você escreve, ponto final.
É isso.
Beijos, :).

4/04/2006 05:15:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Patrícia, mande outro beijo por mim ;-)

Matilda, ponto final não: reticências... hehehehe

Beijos,
Ana

4/05/2006 01:20:00 AM  
Anonymous Ednilce said...

Como vai? Quero adquirir o livro A margem e a beira do que sentes ..... Como fazer? Não encontro em livrarias.

10/18/2006 10:19:00 AM  

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