Confissão #72

Capítulo 9 - Parte IX


Os segredos que me deram para guardar


A dona Isabel resolveu ficar para dormir em casa. Voltamos da festa pela praia, acompanhadas de J., vizinho da terceira casa após a minha. É um homem extremamente agradável, talvez até um pouco demais. Eu gosto, mas o excesso de gentileza me incomoda um pouco, soa exagerado. Ela caminhava à frente, apertando o passo para chegar logo em casa, e de vez em quando parava e olhava pra trás, para ver se a acompanhávamos.

- Acho que a sua ajudante não gosta muito de passear pela praia – comentou J., um pouco contrariado.

Resolvi provocá-lo:

- Será que ela tem motivos para isso, ou é só hoje?

- No que depender de mim, motivo nenhum. É que está uma noite bonita, e eu queria aproveitar mais o passeio, a sua companhia.

- É, mas eu acho que ela não vai para casa sem mim.

- Ela dorme lá com você?

Achei melhor dizer que sim; afinal ela poderia ter razão quanto ao “não dê trela”. Mas estava mesmo uma noite agradável, o céu limpo de nuvens, estrelado, exibindo um fio de lua. J. se despediu de mim no portão, com um beijo na testa. Acho carinhosos beijos na testa. A dona Isabel olhava, parada na porta. Assim que entramos em casa percebi que ela estava aflita para me falar sobre ele.

- Dona Ana, sei que a senhora é maior de idade e vacinada. Mas vou falar para a senhora o que eu falaria para uma filha, depois a senhora vê. Mas esse aí não presta, quando aparece é para causar confusão.

- Por que, dona Isabel? – eu já estava mais do que curiosa.

- E tinha que aparecer aqui justo hoje!

Ela olhou ao redor, como para verificar se estávamos mesmo sozinhas, e continuou:

- A senhora é moça de cidade grande, não sei se acredita nestas coisas, pois lá não deve ter. Mas aqui tem. Já ouviu falar em boto?

- Boto, o peixe?

A dona Isabel fez que sim com a cabeça. Logo imaginei onde queria chegar. J., todo vestido de branco, de chapéu, noite de festa, lua cheia... Mas resolvi deixá-la contar tudo.

- É. Dizem por aí que esse moço é um deles. Não presta, dona Ana, não presta. Enfeitiça as moças daqui, embarriga elas e depois larga. Já fez isso com muitas. E a senhora viu como ele é? Todo cheio de mesura, todo fino, e nem tirou aquele chapéu. No sol tudo bem, mas com essa lua? E depois, o pai é rico, ele paga para as moças tirarem o filho, ou, para as que não querem tirar, ele dá um dinheirinho para elas, e fica tudo por isso mesmo. Ninguém bole com ele.

Ela falou tudo isso de um só fôlego, e complementou:

- Fazia um tempão que ele não aparecia por aqui, e tinha que aparecer justo hoje. A senhora sabe que boto adora atacar em noite de Santo Antônio?

Eu conhecia a lenda do boto, que seduzia as moças bonitas, e gostava de fazê-lo principalmente na noite de Santo Antônio. E tomando carona na fama do boto, as mães solteiras aproveitavam para dizer que tinham tido filho de boto. Assim eram chamados os filhos sem pai, filhos de boto.

- Tá bem, dona Isabel, eu vou tomar cuidado.

Precisava mesmo era tomar cuidado para, ao invés de J., não começar a chamá-lo de boto.

Quando as flores chegaram na manhã seguinte, ela me mostrou, visivelmente encantada com o buquê, mas não querendo admitir isto com as palavras:

- Olha só o que o tal do boto mandou para a senhora!

O Zé apareceu depois do almoço e resolvi comentar com ele:

- Zé, a implicância da dona Isabel não é só com você não, viu? Pode ficar tranquilo. Ela agora cismou com o J., que conheci ontem. O vizinho daquela casa amarela ali na frente, sabe quem é?

- Sei sim. Faz tempo que não aparece por aqui.

- Pois é, apareceu ontem, na noite preferida dos botos.

Contei para ele toda a história, e a melhor parte: que ela arrumou com todo o cuidado as flores num vaso na mesa da sala, que ficou lindo. Mas depois fui lá ver e não tinha água nenhuma. Ela me disse que tinha esquecido, mas eu não acredito, acho que foi boicote mesmo. Eu li para ela o cartão que veio junto, onde J. dizia que teve que viajar mas que voltaria em dois ou três dias; e perguntava se podia dar uma passadinha lá em casa, para ver como estavam as flores. Nem contei que ele me incluia entre elas, no P.S..

- Lorelei não gostava de flores.

- Não gostava? Coisa rara... Eu adoro receber flores. Quando fui morar sozinha e comecei a namorar meu ex-marido, minha casa estava sempre florida. Eu adorava o apartamento; sabe daqueles antigos, com os cômodos bem grandes, o pé direito alto? Tinha até piso de tábua corrida na sala, meu lugar preferido. Mas bom mesmo era que ele ficava em um ruazinha tranquila, que só tinha acesso pela Dr. Arnaldo. Nesta avenida, a Dr. Arnaldo, é onde tem a maior concentração de bancas de flores em São Paulo, lado a lado pelo menos umas trinta. O R. parava lá todos os dias que ia me ver.

- Quais as suas preferidas? – perguntou o Zé.

- Os girassóis. E as suas?

- Girassol também devia ser palavra feminina. Como rosa. Acho que gosto mais das rosas, da paixão que despertam as rosas vermelhas.

- E a palavra paixão?

O Zé pensou um pouco e respondeu:

- Para mim paixão é adjetivo.

É difícil começar a pensar em paixão como adjetivo, mas tenho que concordar com o Zé, que é mesmo. Estar apaixonado é muito mais estar de uma determinada maneira, muito mais do que ser, ou sentir.

- A paixão é paixão... Não soa como “a paixão é forte”? Só que mais bonito. – continuou o Zé – Mais leve. Você sabia que as gaivotas têm os ossos ocos para ficarem mais leves?

- Sabia. E as penas impermeáveis à água, e também impenetráveis para o ar, não é?

- Lembra o que te falei uma vez sobre condicionamento? Repetir, repetir, repetir, até passar a acreditar de verdade? É por isso que eu sei que ela virá, porque me tornei impermeável ao medo. E quando vejo as gaivotas, acho que elas querem me dizer alguma coisa.

- É... Você ficou de me contar sobre as gaivotas.

2 Comments:

Blogger sub rosa said...

muito bonito.

4/04/2006 11:00:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Muito obrigada, Meg. ;-)
beijos,
Ana

4/05/2006 01:18:00 AM  

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