Confissão #71

Capítulo 9 - Parte VIII

Os segredos que me deram para guardar


Preciso falar para que você não se decepcione: quem te ama, em mim, é a parte fraca. A forte não sucumbe quase nunca, não se dá, acha que se basta. Para ela você é totalmente dispensável, pois tratou de aprender a se cuidar sozinha. Tem um nome dado pelo pai, uma profissão, desde os treze anos ganha o próprio dinheiro, sabe dirigir, tem amigos fiéis, entende até de elétrica. Outro dia ela comprou uma furadeira para não depender nem de quem lhe pendure os quadros no apartamento próprio. Esta não te ama, não ama nem a si mesma. Cobriu com lençóis todos os espelhos da casa só para não se ver chorar. Morre de solidão e de vontade de alguém que cuide dela, mas não admite. Zomba da outra, da que te ama.

Esta que te ama treme toda só de pensar em ouvir seu nome, e há de ficar horas ao lado do telefone se você disser que liga qualquer dias desses. Arruma-se para sair à rua, pois pode te encontrar ao virar uma esquina. Suspira e chora sozinha porque não aguenta mais o vazio da cama. Acha que o dia é mais bonito porque você existe. Tem medo de esquecer a declaração de amor que ensaia há anos e a leva na carteira, para qualquer emergência. Pensa que todos os poemas de amor falam de vocês dois. E vou te contar um segredo: é desta que eu gosto mais, por muitos motivos, como se não bastasse ser ela a que te ama. E talvez seja por isso que a outra se faz de forte: para não precisar nem de mim.

Acho que nós deveríamos estar nervosas com a sua chegada, mas não estamos. Quer dizer, não estamos muito, se formos pensar na importância que você vai ter nas nossas vidas. Mas você já nos deixa à vontade. É tão boa a sensação, tão boa, que podemos compará-la à de quando entramos no apartamento onde íamos morar sozinhas. Estava tudo arrumado, tudo no lugar, tudo que já conhecíamos.

É confuso quando falo assim, no plural, não é? Também acho. Mas para além dos estados de espírito, há que se aprender a conviver com os múltiplos, porque somos vários. Tanto sem querer, quanto por querer. Sei que às vezes vou poder ser barco, enquanto você é mar. Em outras, vou ser mãe e segurar na sua mão até você dormir. E eu gosto desta inversão de papéis, não nos sobrecarrega e não nos envergonha quanto à oscilação. Sabe qual é a única coisa da qual eu tenho vergonha? Mas isto é uma coisa muito minha, vergonha de algo que não sei fazer. Ninguém percebe. Mas eu te conto porque vou ter que pedir que você me ajude.

Eu já te disse que sempre choveu nos dias mais importantes da minha vida, não disse? A natureza faz por mim um papel que ainda não aprendi; ou desaprendi, não sei. A minha avó diz que a chuva traz boa sorte, lava as mágoas do mundo. Mas eu gosto de um tipo que ainda não vi por aqui, na ilha: a que lança raios e trovões. Queria ser assim: uma descarga elétrica e pronto. Acabou. Passou. Mas eu não consigo explodir. Você me ajuda? Eu vou me acumulando, acumulando, represando, represando, até implodir. Isso em relação às coisas que me incomodam, que eu precisava falar mas não consigo. Eu sou boa de monólogos, como agora. E sou boa de argumentos e contra-argumentos, mas não sou boa no que diz respeito apenas a mim. Engulo as mágoas, e sem falar nada vou me recompondo; mas nunca é a mesma coisa. Você já quebrou uma louça em vários pedaços e depois tentou colar? É assim: os pedaços maiores você até consegue, e só de muito perto, só olhando de dentro de você mesmo, e avisado, percebe-se a marca da cola. Mas os pedaços pequenos não, alguns até viram pó. E no lugar sobram descascados, arestas, frestas e pó. Pó que vai tomando conta dos cantinhos e quando você percebe já ocupou um espaço muito grande de você. Ah, se eu chovesse... Se não for pedir muito, faça-me chover, principalmente quando eu digo que está tudo bem, mas você tem certeza de que não.

Talvez esta minha contenção seja manifestada também de uma outra maneira, mais visível. Eu coleciono lembranças na forma de guardanapos, rolos de filmes, flores secas, páginas de revista, canudinhos de refrigerante, receitas de lata de leite condensado. Rolhas de vinho, cartelas de cigarro, frascos vazios de perfume. E mesmo sem perceber eu jogo lá no meio olhares atravessados, palavras ditas na hora errada, gestos interrompidos. Silêncios incômodos, falta de tempo, brincadeiras de mau gosto. Eu não aprendi a separar o que ainda vou usar do que precisa ser descartado. E então vou escondendo as coisas pelos cantos, nos fundos das gavetas, em caixas no maleiro, debaixo do tapete.

Você sabe o que é memória do papel? Eu aprendi na marra, desenvolvendo embalagens. É quando você dobra um papel de uma determinada maneira, principalmente destes mais grossos, e depois não quer mais, quer de outra. Mas o vinco já criou o vício e ele volta a se dobrar como antes, mesmo sozinho. Isto é a memória do papel. O mesmo acontece com estas folhas de papel de presente, compradas em rolos. Não é difícil lidar com elas? Mesmo sendo um papel mais fino, você tem que enrolar ao contrário e esperar um certo tempo, para a folha ficar reta. Pois bem, eu sou assim, feito papel grosso. Tento desfazer o vício destas minhas coleções mas já tenho um vinco. Meu amor, ajude-me a apagá-lo da memória...

6 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Ah! Os segredos que nos dão para guardar...
E saudades também, muitas, assim que der, me escreve.
Beijos, :).
P.S.: :“O meu amor maior será assim, encantado, vindo de muitas eras, e eu o reconhecerei de pronto, e recomeçarei com ele toda a arte do encontro, da descoberta, e me sentirei de novo fazendo parte do sagrado, do elo festejado dos deuses com os homens, do cosmos, unindo magicamente o presente, o futuro e o passado. Ana"
Ai, ai, como mudam as coisas, vai ver, coração envelhece também...

4/01/2006 07:34:00 PM  
Blogger sub rosa said...

Ana,como é bonito esse texto.
Embora não entenda, sinto.
E veio-me à mente um pedacinho do poema de Borges:
"Que trama é esta
do será, do é e do foi?"

Muito, muto belo.
Meg
(imodéstia à parte)

4/03/2006 12:07:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda,, eu sabia que você ia se lembrar ;-) Envelhece não, apenas "oxida", como diz o Zé. Nada que não se resolva ;-)

Meg, muito obrigada por dizer e por ensinar sempre: eu não conhecia o poema poema do Borges, e é claro que vou procurar.

Beijos,
Ana

4/03/2006 01:41:00 AM  
Anonymous Leonardo Cohen said...

Gravatá tem razão, vc é uma ótima escritora. Parabéns e belo texto.

4/03/2006 10:43:00 PM  
Anonymous Alessandra said...

Gostei de como escreve, e posso te dizer com toda certeza, te entendo. Guardo pra mim, a ponto de passar mal, de me fechar, sem nem pensar. Divido em mim, duas metades, que andam na mesma estrada mais em linhas opostas. Bjs

4/04/2006 09:17:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Leonardo.

É onde a gente guarda os segredos, Alessandra.

beijos,
Ana

4/04/2006 02:52:00 PM  

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