Confissão #70

Capítulo 9 - Parte VII

Os segredos que me deram para guardar


- Eu também morria de inveja...

Como eu, R. se sentia um esquecido por Deus, por nunca ter quebrado um braço, quando era criança. Perna não, porque atrapalhava brincar. Mas braço eu achava um charme, todo mundo querendo assinar o gesso, e o engessado lá, queixando-se de que coçava, incomodava. Algumas vezes eu pegava um pedaço de tecido branco da minha mãe e enrolava no braço, só para saber qual era a sensação.

– E colocava tipóia de gaze!

- E dentista, então? – R. perguntou.

- Você também não tinha medo de dentista?

- Nem um pouco. Adorava!

Nós nos alegrávamos mesmo com as coincidências mais bobas.

- Eu também. Às vezes, até ia dormir sem escovar os dentes, só para ver se aparecia alguma cárie.

- E eu colocava azeitonas dentro da boca para fingir que estava inchada.

Minhas cáries nunca vieram e as visitas ao dentista eram na qualidade de acompanhante, quando eu sempre aproveitava para “dar uma voltinha” na cadeira. Nestas e em outras histórias, eu e R. éramos muito parecidos, apesar da diferença de idade, onze anos. Mas não parecia; ele era um moleque, divertidíssimo, além de aparentar muito menos. Um homem bonito, inteligente, charmoso; cada vez mais.

A casa era em Ilhabela, um dos meus lugares preferidos. Uma amiga da faculdade tinha casa lá; passávamos nela muitos finais de semana. Durante o dia, saíamos para mergulhar em um dos paraísos formados pelos muitos navios naufragados nas redondezas. Enormes cardumes e alguns tipos raros de peixes eram atraídos pela diversidade do ambiente e pelas formações de corais. Aliás, tinha sido ali o meu encontro com uma arraia de pelo menos uns três metros de envergadura. Até hoje, dizem que é papo de pescador, mas eu vi. À noite, passeávamos pelo centro da cidade, pelas ruas calçadas de pedras, com seus casarões coloniais transformados em bares, restaurantes, cafés, teatros. Os mesmos programas que ele costumava fazer.

- Como é que a gente nunca se encontrou? – R. perguntou. – Acho que andamos sempre pelos mesmos lugares.

Lugares que não daria para visitarmos juntos naquele final de semana, pois continuava chovendo. Aliás, naquela parte do litoral costuma chover ainda mais do que em São Paulo. Ficamos em casa conversando, ouvindo música, cozinhando, vendo filmes na TV, e eu não me senti nem um pouco culpada por ter deixado para trás todo o trabalho da mudança. E nem fiquei preocupada por estar ali, sem que ninguém soubesse do meu paradeiro, com um homem que eu mal conhecia. Foi confiança instantânea, que ele provou merecer.

A casa ficava no alto do morro, perto da Pedra do Sino, construída sobre pilares em um terreno bastante acidentado e rochoso, com uma linda vista para o mar aberto e para quase todas as praias daquele lado da ilha. Da sala, com sua parede principal inteiramente envidraçada, ele me mostrou uma escada escavada nas pedras morro abaixo, que ia dar em uma minúscula praia quase particular e acessível apenas com a maré baixa. A sala tinha poucos móveis, apenas os essenciais, mas de muito bom gosto. O espaço mais gostoso era demarcado por um enorme tapete macio e várias almofadas coloridas, bem em frente à lareira, que tratamos de acender à noite. No mesmo ambiente, uma cozinha separada apenas por um balcão, e no mezanino, um quarto e um banheiro. De qualquer se via a casa inteira e a parede de vidro, com suas enormes janelas que deixavam entrar a brisa do verão e barravam o vento gelado de dias frios, como aquele. Tudo parecia um sonho, e eu não estava acreditando merecer vivê-lo.

Em animadas conversas em frente à lareira, jogamos baralho, tomamos vinho, comemos fondue. Quando fomos para a cama, R. disse que queria muito fazer amor comigo, mas só quando eu tomasse a iniciativa. Acho que queria que ele tentasse, tudo era propício: o clima, o vinho, o fogo da lareira, nós dois juntos na única cama da casa. E eu provavelmente diria não, que esperasse mais um pouco, que mal nos conhecíamos. Ou talvez, se ele insistisse, eu até acabaria cedendo; havia muito tempo que eu não fazia amor e seria bom que fosse com alguém igual a ele. Mas foi isso que provavelmente fez com que eu me apaixonasse, esse respeito dele pelos meus quereres. Deitado ao meu lado, ele acariciava meu rosto, brincava com meu cabelo e me olhava do jeito mais terno com que eu já tinha sido olhada.

- O que você viu em mim, hein?

- O seu umbigo – ele respondeu.

- O meu umbigo? – estranhei.

- É, quando você se levantou para fazer o brinde, lá no bar, com aquela blusa curta, vi o umbigo mais perfeitinho do mundo.

Era verdade, eu estava com a minha blusa da sorte. De lã, preta, mangas cumpridas, justinha ao corpo e na altura do umbigo.

- Então eu pensei que para dar um beijo naquele umbiguinho eu teria que conquistar a dona dele. Acertei?

- Acertou! – respondi sem hesitar – E vai ganhar um beijo por ser tão esperto. Não do umbigo ainda, mas da dona já serve?

Foi o nosso primeiro beijo. Longo, muito longo e suave. As mãos fazendo carinho nos rostos, passeando por entre os cabelos, acompanhando a curvatura dos cílios, a angulação do ,e depois descendo pelo pescoço. Sentindo a maciez da pele e tentando guardar sob o toque a forma do rosto do outro, para que nos lembrássemos quando abríssemos os olhos e não estivéssemos mais ao alcance deles. E durante o resto da noite e boa parte do domingo ficamos ali, na cama, abraçados. Ora de olhos fechados, apenas sentindo a respiração do outro e entrando em sincronia com ela. Ora de olhos abertos para ter certeza de que o outro estava mesmo ali, para perceber caso mencionasse um movimento de fuga e abraçá-lo mais apertado, para que quisesse ficar.
Mas nenhum dos dois queria fugir, a vontade era de permanecer para sempre sob o edredon, e que também chovesse para sempre lá fora. Aquele barulhinho gostoso embalando mais conversas, mais risos, mais descobertas. E sob as cobertas, já estávamos quase nus, porque havia uma necessidade gostosa e urgente do contato da pele com pele. Com muito carinho e calma, sem querer dar ou receber prazer, mas apenas estar perto, o mais perto que pudéssemos. E por todo o tempo que tivéssemos.

Na balsa de volta para São Sebastião, nem saímos do carro; ele me puxou de encontro ao peito e acho que dormimos um pouco. Tínhamos passado a noite toda em claro, e também não nos levantamos nem para tomar o café da manhã. Na chegada a São Paulo, passamos por um restaurante e depois ele me deixou em casa. Na nova casa. Não quis subir, estava cansado e com sono e trabalharia cedo na manhã seguinte. Eu também queria estar sozinha. E foi assim, como a mais feliz das mulheres sozinhas, que entrei pela primeira vez no meu novo apartamento.

No dia seguinte, preparei um jantar especial para ele, que aprovou meu novo lar. Tanto, que ficou para dormir. E depois de fazermos amor, já não dava mais para não querer toda hora, todo dia, para sempre.

- Quer casar comigo? - ele perguntou.

E me pareceu ser esta a pergunta mais apropriada para aquele momento. Seu corpo já tinha perguntado isto ao meu, que tinha aceitado. E eu também aceitei, mil vezes ele perguntasse, mil vezes eu aceitaria. E deve ter sido mais ou menos esta a quantidade de vezes que ele perguntou, todos os dias, às vezes mais de uma vez ao dia, para ter certeza de que eu não tinha mudado de idéia. E eu nunca mudei, até nos casarmos, quase três anos depois, assim que terminei a faculdade. E durante os anos seguintes, meu umbigo deve ter sido o umbigo mais beijado do mundo.

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