Confissão #68

Capítulo 9 - Parte VI

Os segredos que me deram para guardar


Para a alegria de todos que estavam esperando, e principalmente da criançada, apontou lá adiante a banda, com os músicos trajando túnicas vermelhas e calças azuis e tocando instrumentos – violas, pandeiros, tambores e sanfonas – enfeitados com fitas das mesmas cores. Chegavam do povoado sede, Mar Grande, vindos pela praia, para encurtar caminho. Na frente da banda, vinha o padre balançando de um lado para o outro o incensário, seguido por dois coroinhas que traziam, em um andor todo enfeitado com flores e fitas, a imagem do Menino Jesus, que voltaria para os braços de Santo Antônio. No dia primeiro de junho ela tinha seguido, também em procissão, para a matriz, que era dedicada a Nossa Senhora dos Navegantes. Durante todos estes dias se rezava a trezena de Santo Antônio, tanto em uma localidade quanto na outra. E no último dia, vinham todos os fiéis para cá, terminar a trezena na casa do santo padroeiro da vila e participar da festa, que se prolongaria noite adentro. Rezavam e cantavam em um ritmo alegre e descontraído, como é a devoção a Santo Antônio.

Mais animados que todos e abrindo o cortejo, vinham os capoeiras. Negros enormes e de dorsos nus, com fitas azuis e vermelhas amarradas na testa ou nos braços; gingavam, piruetavam e ameaçavam os desavisados que não abriam espaço suficiente para suas evoluções. Principalmente os bêbados, desde cedo por ali embalados pelo roxo, uma mistura de café e cachaça. Era fascinante e assustadora a destreza com que os capoeiras lidavam com facas de pontas muito afiadas, saltando e girando no ar com elas presas entre os dedos dos pés. Geralmente aos pares, ora se esquivavam do golpe, ora atacavam. A dona Isabel me disse que prestavam sua homenagem a Oxossi, orixá cultuado no candomblé como Santo Antônio. Oxossi é considerado o rei das matas, grande caçador, tendo a faca como um de seus instrumentos de trabalho.

Ao chegar ao largo, o cortejo se dispersou; o Menino Jesus foi colocado de volta nos braços de Santo Antônio, sob o louvor de cânticos religiosos que se espalhavam por todo o povoado. E enquanto alguns poucos ctinham conseguido espaço dentro da pequena capela, para a reza do último dia da trezena, a festa começava do lado de fora. Devotos que não conseguiram lugar na igreja tentavam acompanhar dali mesmo, ao lado de novos ou velhos pares de namorados, moças e rapazes de olhares compridos, torcendo para serem atendidos ainda naquele mesmo dia pelo santo alcoviteiro, em meio a rojões, bombinhas, rasta-pés.

Enfim avistei a dona Isabel; ela tinha avisado que chegaria mais tarde, apenas para a reza. Andava apressada e com cara de brava, provavelmente por não ter conseguido lugar dentro da igreja. Chegou perto de mim e, mesmo antes de nos cumprimentarmos, cochichou no meu ouvido:

- Não dê trela! Não dê trela!

Logo atrás dela apareceu um moço vestindo calça e camisa de linho, com os cabelos um pouco grisalhos aparecendo debaixo do chapéu Panamá. A dona Isabel nos apresentou:

- Este é o seu J., dona Ana. Ele foi lá em casa querendo conhecer a senhora, e como eu disse que a senhora estava aqui, ele veio comigo.

J. me beijou a mão e dona Isabel se afastou em direção à porta da igreja, não sem antes dizer “vou ali e já volto”.

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