Confissão #67

Capítulo 9 – Parte V

Os segredos que me deram para guardar


Sobre os tabuleiros armados no descampado em frente à praça central, estavam bolos de milho verde, de tapioca e de fubá, pamonha, curau, cuscuz, pé-de-moleque. Além de duas iguarias típicas do santo, bem-casado e bolo de Santo Antônio. Havia também barraquinhas de tiro-ao-alvo, de ler a sorte e de fazer promessas. Estas vendiam pequenas imagens de Santo Antônio e muitas fitas brancas e vermelhas, sob o letreiro: “Tudo Virge. Até a Dona.” A dona eu conhecia, era a Salustiana, prima da dona Isabel, uma senhora brincalhona e toda sorrisos do alto de seus sessenta anos, ou mais. Eu sempre gostei desta familiaridade com que Santo Antônio é tratado, quase maldade mesmo. Ao lado da barraca da dona Salustiana já estavam vários deles, amarrados de cabeça para baixo, presos pelos braços sob os quais passavam uma fita de cada cor. Era a chamada corda das encalhadas.

- Dona Ana! A Isabel mandou eu guardar um especial aqui para senhora, olha! – era dona Salustiana, acenando os braços de dentro da barraca, quase gritando, chamando a atenção de todos que estavam por perto. – Pedi para o padre caprichar na benzedura!

Ainda bem que àquela hora ainda não tinha muita gente por ali. Era um povoado pequeno chamado Redes de Santo Antônio, a três praias de onde eu morava. A festa estava acontecendo no largo da capela, uma construção simples de parede caiada e linhas retas, tendo no alto o nicho de onde o santo tinha sido tirado. Trouxeram-no para a rua, perto do povo, para que todos pudessem ficar olho a olho com o santo quando fizessem os pedidos. Eu não sabia que os pescadores também eram seus devotos, mas como santo das coisas difíceis, a Santo Antônio tudo era possível, até encher as redes de peixes. Até arrumar marido para mim.

- Mas a dona Isabel cismou que eu preciso de um marido. A senhora acha que eu preciso da ajuda do santo, dona Salustiana? – eu gostava muito dela, às vezes ia até lá em casa visitar dona Isabel; sempre sorrindo.

- Precisar, acho que não precisa. Mas é sempre um ajudatório, né? – respondeu-me ela, já passando para minhas mãos o pequeno santo talhado em madeira.

Era um trabalho muito bonito. A dona Salustiana explicou-me sobre as fitas, a branca e a vermelha, que eu deveria amarrar uma em cada braço, pedindo que o santo me trouxesse o moço que eu quero, nem que fosse no laço. E depois que o pendurasse na corda, de cabeça para baixo, rezando meia Ave-Maria e meio Padre-Nosso.

- Quando o santo trouxer o moço, a senhora reza a outra metade.

Achei divertida esta idéia de pagar em prestações, quitando só depois de receber o bem. Será que o santo não poderia achar que era desconfiança não?

- Que nada, minha filha. Esse santo é muito ocupado, o que tem de gente encalhada fazendo promessa... Se pagar antes, já viu, né?! Ele vai deixando para depois, para depois...

Não custava nada pedir uma ajuda a Santo Antônio. Se ele também ajuda a encontrar coisas perdidas, haveria de ser útil em ajudar-me a encontrar o que eu tinha vindo procurar ali. Amarrei a imagem na corda e a dona Salustiana disse que eu poderia deixar bilhetinhos também, dizendo que tipo de moço eu queria encontrar.

- Hum... não sei! Posso ler alguns que estão lá?

Alguns deles eram quase impossíveis de se ler, a letra tremida, muitos erros. Mas um deles chamou a minha atenção, principalmente porque a moça tinha o mesmo nome que eu. Resolvi assinar embaixo.

- Pode, dona Salustiana? Aproveitar o mesmo bilhete?

- Com Santo Antônio tudo pode.

Li o bilhete:“O meu amor maior será assim, encantado, vindo de muitas eras, e eu o reconhecerei de pronto, e recomeçarei com ele toda a arte do encontro, da descoberta, e me sentirei de novo fazendo parte do sagrado, do elo festejado dos deuses com os homens, do cosmos, unindo magicamente o presente, o futuro e o passado. Ana" E então escrevi “e Ana”, bem a seguir ao nome da moça. Ana e Ana; o santo com certeza haveria de compreender o meu abuso e a dupla intenção do pedido.

Eu tinha ido mais cedo para ver a chegada dos capoeiras, a uma hora em que ainda fazia um calor enorme. O chão era de terra batida, que já tinha sido molhada várias vezes, embora nem isso o refrescasse; mesmo estando todo sombreado por folhas de coqueiro e de bambus, que serviam de sustentação para tiras e mais tiras de bandeirinhas de papel colorido. No centro do terreno, um mastro envergava uma bandeira com a figura do santo, e logo em frente a ele, a imagem tirada do nicho. Uma linda imagem de madeira com Santo Antônio de braços vazios, sem o Menino Jesus, emoldurada com flores de papel crepom, daquelas que ficam bem cheias e crespinhas. À sua frente, velas protegidas do vento por envoltórios feitos de garrafas plásticas recortadas. Um pouco mais adiante, uma enorme fogueira, já adiantando o que seria a festa de São João.

Fiquei conversando com a dona Salustiana, enquanto a praça ia sendo tomada por uma multidão de fiéis, a maioria trazendo as suas próprias imagens de Santo Antônios. Havia santos pendurados nos pescoços das mulheres, nas algibeiras das calças dos homens, pendendo de fitas amarradas nas cinturas de crianças. Enquanto atendia moças e rapazes à procura de pretendentes, a dona Salustiana me dizia que era tanta a procura pela corda que muitos já achavam por ali mesmo os seus pares. Contava-me também as histórias dos milagres, as tradições, as simpatias e as graças alcançadas pela fé em Santo Antônio. Na falta de riacho ali por perto, naquela madrugada, à meia-noite, o santo tinha sido lavado no mar mesmo, para “despregnar” e pegar melhor os pedidos deste ano.

- E a senhora sabe por que é que tem tanto moço chamado Antônio aqui na vila? As mães colocam esse nome porque eles podem feriar o dia de hoje; e têm a preferência das moças nas danças de mais tarde.

Havia uma movimentação vinda do lado da praia. Imaginei que fossem a banda e os capoeiras a chegarem. Despedi-me da dona Salustiana e fui arrumar um bom lugar para vê-los melhor.

- Até mais, filha. Boa sorte! – ela se despediu, piscando como se também estivesse me desejando boa sorte, para então acrescentar:

– E não esquece de pegar seu pãozinho de Santo Antônio depois da missa, dá fartura. Mas não é de homem não, é do de-comer mesmo – e riu a se fartar.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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2/20/2007 08:53:00 AM  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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5/04/2010 06:29:00 PM  

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