Confissão #65

Capítulo 9 – Parte IV

Os segredos que me deram para guardar


- Zé, você não acha que mar deveria ser palavra feminina? “A” mar não fica muito mais bonito?

Eu gostava de conversar com o Zé porque entrávamos logo na mesma sintonia, por mais que jogássemos os pensamentos um para o outro, sem prévia explicação.
- Com esta imensidão toda? Ficava bem sim. A mar azul. A mar vazante. A mar tranquila. A mar é imenso. Ou melhor, imensa...
E ficamos um bom tempo buscando adjetivos e frases para a mar. O Zé se lembrou do quanto a língua portuguesa é rica, por se dar a este tipo de inversão. Se falássemos inglês, estaríamos presos a um só artigo, mesmo nos referindo a todas “as” mares da Terra.
- Acho que vou passar a chamá-lo assim: a mar. Posso roubar essa sua idéia? – perguntou o Zé.
- Só se me der aquela frase.
- Qual?
- Aquela... Mas agora pensando bem, “a mar oxida os sentimentos”?
O Zé pensou por alguns minutos e respondeu que não, que tinha perdido aquele sentido, mas que ganhava um outro mais bonito ainda.
- Qual? – eu quis saber.
- Do que você precisa para viver? – perguntou o Zé.
Não entendi o que isto tinha a ver com a frase, e disse:
- Não sei... Comer, beber, ser feliz, amar...
O Zé me interrompeu e falou para me prender ao básico. Ao básico dos básicos.
- Respirar?! – arrisquei.
Ele parecia cada vez mais ansioso. Mal me deixava dar as respostas, mordendo os lábios para não falar antes de mim, já fazia outra pergunta.
- Isto! E você respira o que?
- Ar... Oxigênio!
- Bingo! Agora, por que é que acontece a oxidação? – o Zé fazia um movimento girando simultaneamente as mãos no ar, que poderia ser traduzido como um “e então, continua...”
Entendi onde ele queria chegar. Dois processos que se davam pela presença do oxigênio. Sim, para alguns amar é como respirar. Para mim, pelo menos, é quase isso. E respirar é superior a qualquer outra necessidade do corpo, suporta-se dias sem satisfazê-las desde que se respire. Amando-se também é possível suspender vários outros sentimentos, enferrujá-los por falta de uso. O Zé me olhava como quem tinha feito uma grande descoberta. Os olhos brilhavam postos em um ponto distante no mar. Um navio cargueiro que apitava, como se, mesmo com aquele tamanho todo, precisasse anunciar sua chegada ao cais. O Zé o imitou e saiu correndo em direção à água, com os búzios presos à barba batendo com estardalhaço contra o peito.
O Zé parece fazer parte desta ilha; é tão natural sua presença aqui quanto a dos coqueiros, da areia, das pedras, do mar. Agora mesmo brinca na água feito criança, de roupa e tudo. Lança o chapéu no ar para que acompanhe o vôo de duas gaivotas perdidas pela costa. Como será que se descobre o sexo das gaivotas? Eu acho que aquelas formam um casal, desgarrado do bando para poder namorar em paz. Acontece o mesmo com os recém-apaixonados, não suportam a presença de intrusos que, por não compartilharem do que estão sentindo, fazem parte de uma raça inferior, ou tenham algum tipo de doença contagiosa que é melhor evitar, mesmo que o amor os torne imunes.
Eu me lembro de um dia dos namorados que passei sozinha e reparei nos casais que encontrava pela rua, com presentes debaixo do braço e de mãos dadas, fortes e parceiros na ostentação. Era impossível não me sentir mesmo inferior, ou pelo menos diferente. Quando sozinhos com seus presentes, os homens são mais discretos. Pelo menos comigo foram, mas talvez tenham comportamento diferente em relação aos outros homens. Mas as mulheres, principalmente as que carregavam flores, estas eram cúmplices ao se portarem como se levassem nos braços um passaporte para algo chamado “aceitação”. Quando passavam umas pelas outras, sorriam e se cumprimentavam como se fossem velhas amigas ou se fizessem parte de um clube restrito de onde estavam definitivamente excluídas as de mãos vazias. Eu quase parei na primeira floricultura e comprei um ramalhete para mim; e teria feito se soubesse que ao chegar ao trabalho seria ainda pior. Andavam pelos cantos com risos e confidências, e cartões e embrulhos, que tratavam de esconder assim que eu me aproximava. Como se eu não pudesse entender o que significavam.
As gaivotas, sempre juntas e na mais perfeita sincronia, afastam-se mar adentro, como se também negassem ao Zé a participação na brincadeira. Ele então vem se sentar novamente ao meu lado.
- Entendeu mesmo aquilo que eu quis dizer? – ele parecia precisar de uma confirmação sobre a maravilha do pensamento.
- Entendi sim, Zé, e é brilhante. Mas ainda é meu?
- Só se me der outra palavra inventada.
- Uma palavra inventada? – eu tinha tantas, mas não me lembrava de nenhuma. Arrisquei:
– Desnamorados!
O Zé quis saber o que significava. Então contei para ele a história do dia dos namorados. Os que não tinham nada nem ninguém a comemorar, eram os desnamorados. Ele gostou, fizemos a troca e estabelecemos o câmbio: duas despalavras por uma frase-pensamento. Aberto a negociações, caso tivessem um grande valor sentimental para qualquer das partes. As duas gaivotas voltaram ao balé sobre as águas.
- Sabe onde vi as gaivotas mais lindas do mundo? – perguntou o Zé, e já respondeu sem me dar tempo para arriscar:
– Em Portugal, com Lorelei.

3 Comments:

Anonymous Marilia Mota said...

Preciso voltar para ler tudo pela ordem. Que ritmo, que beleza de texto você tem.

3/30/2006 12:16:00 PM  
Anonymous Lêda R. J. Chaves said...

Ana:
Estou chegando no s/ blogue,pela primeira vez.Comecei com as s/ confissões,mas vou precisar de tempo para ler tudo!
Estou gostando muito do modo como
você escreve.Dá vontade de ir lendo,lendo,sem parar...
Quanto romantismo e que produtividade!
Um abraço
Lêda

3/30/2006 01:07:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Marília. Volte sim, e seja bem-vinda sempre. É um livro que já está pronto, então, fica fácil manter o ritmo ;-)

Lêda, com leitoras assim é que dá vontade de ir escrevendo, escrevendo, escrevendo, sem parar. Obrigada pela visita e seja bem-vinda.

Beijos,
Ana

3/30/2006 04:05:00 PM  

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