Confissão #64

Capítulo 9 - Parte III


Os segredos que me deram para guardar


Hoje abri a porta-balcão e tudo o que era natureza saltou quarto adentro. Eu nunca tive animais de estimação, mas penso que deve ser assim. Abre-se a porta e eles saltam para dentro, com saudades do dono. Mas há uma diferença que ainda me faz preferir a natureza: é uma saudade mais gratuita. Voltei para a cama e fiquei no mais completo abandono. Não era vontade de não viver, mas sim de compartilhar a vida. Pretensão da minha parte, eu sei, afinal a natureza tinha muito mais a oferecer. Só por um momento, já conseguiu sentir o mesmo que as plantas depois da chuva? Elas ficam assim, abandonadas, escorrendo em gotas de tempo. Gotas de tempo puro – acho que isso faz parte da letra de uma música; é bonito, não é? Dá vontade de ficar repetindo e imaginando o tempo pingar dentro de uma ampulheta.

Alguns dias a gente deveria viver como se fossem o último. Eu disse alguns dias, para dar esta sensação de continuidade e intensidade, não de morte. Gosto da palavra “último”, muito mais do que da palavra “primeiro”. Mas, por outro lado, gosto mais de “começo” do que de “final”. Se eu pudesse estaria sempre começando as últimas coisas que quero fazer na vida. O último gole de vinho é sempre mais gostoso; o que fica na boca é o gosto do último beijo; o que ecoa é a última palavra. Tenho a mania, mais uma, de guardar as melhores coisas para o final. Sabe aquelas caixas de bombons sortidos? Como primeiro os que eu não gosto muito, e vou guardando os melhores, até que restem apenas eles, que como com prazer redobrado, um prêmio pela minha paciência. E aos poucos, para que durem mais. Mas acho que isto não serve para todas as coisas, principalmente para as mais urgentes ou importantes, aquelas das quais depende a felicidade da gente. Se as adiamos demais, elas podem extrapolar o prazo de validade. Quem dera que a vida fosse uma caixinha de bombons sortidos, não acha? A vida e o amor.

Você já viu alguém amando pela primeira vez? Mas é ver mesmo, porque sentir não vale; quando somos nós que estamos amando, estamos sempre fora do nosso ponto de observação, perto demais para ajustar o foco. Além disso, não admitimos que essas coisas também acontecem conosco, que estes novos traços que trazemos nos olhos, quais persianas semi-veladas, são traços de loucura. Não acha que o amor é loucura? Pois então me diga quem, em sã consciência e sabendo dos riscos, vai dar o coração às flechadas? Nem os incautos; eles apenas se deixam iludir mais facilmente. Mas sempre nós estamos pedindo aos céus a nossa dose diária de loucura, de amor, para que o mundo, pelo menos o interior, torne-se governável no caos. Aqui estou eu, e achando a coisa mais normal do mundo. É por isso que sinto muita compaixão pelas pessoas que estão amando pela primeira vez. Há que se ter sorte, porque neste primeiro contato fica decidida a inclinação para se viver ou se morrer de amor.

É por isso que peço que você me ame na medida certa, meu amor, do tamanho que eu posso suportar e compatível com a minha loucura. Que você me traga um amor contaminado de amores do passado, dos quais às vezes até sente saudade, para logo em seguida dar graças pelo que sente por mim. Dar graças por o sentimento ser maior do que a saudade. Dê graças por você, porque é capaz de tal felicidade, e não por mim. Cuide de mim como se eu fosse a sua última chance de ser feliz. A última, aquela que te será concedida dia após dia, e não de uma vez por todas; pois se fosse assim, você também teria que me amar tudo de uma vez por todas. E um amor assim, definitivo, em estado puro, ninguém aguenta por muito tempo. Ele se acaba é na sua infinitude.

Eu não te amo com um amor-extrato, um amor-matriz. Você não aguentaria as egoístas mordaças que um amor assim poderia tentar colocar. Os homens que vieram antes de você trataram de me abrandar. Não souberam que faziam isso, mas fizeram. E não por você, mas por mim. E por isso, principalmente por isso, porque lhes sou grata, você vai ter que aprender a conviver com o que ficou deles em mim. Como também conviverei com o que você me traz das suas mulheres. Vou gostar de saber que você foi vulnerável ao amor delas. Preciso ter a humildade de reconhecer que, pelo menos em alguma coisa, todas elas foram melhores do que eu sou; e deixar que continuem sendo.

3 Comments:

Anonymous Sonia said...

Nem sempre tenho tempo de passar por este confessionário. Mas quando venho sempre encontro algo de bom, como este texto de hoje.

3/28/2006 01:00:00 AM  
Blogger Surra de Pensamentos said...

Ana,

É impressionante a sua capacidade de se expressar. Suas verdades "batem" no meu rosto, eu reluto, tento não concordar, até pq acho que estou "amando" pela primeira e gostaria que tudo fosse cor de rosa como é hoje, mas percebo que não é.

Parabéns pelo blog.

3/28/2006 11:15:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Sonia, as suas visitas são um grande prazer. Meu.

, quando a gente ama, parece sempre que é pela primeira vez. E vai ver que é mesmo, é tudo tão novo, tão diferente... Enfim, acho que cor de rosa, sempre-sempre, não é. É de toda cor, e cada uma tem seu encanto ;-)

beijos,
Ana

3/28/2006 07:43:00 PM  

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