Confissão #63

Capítulo 9 - Parte II


Os segredos que me deram para guardar


Fiquei sem graça, pois ele percebeu que eu, enquanto preparava o café, tentava conferir a imagem mal refletida no vidro da tampa do fogão. Eu queria estar bonita para ele, mas sei que tinha os olhos inchados e vermelhos pela noite maldormida, e meu cabelo ficava imprestável de manhã. Mas ele disse de um jeito que até acreditei; assim como o gesto de carinho não foi nada forçado, o elogio talvez não tenha sido também. Eu me sentia à vontade com ele, como se não fosse novidade ou inusitado ele estar ali. Como se tomássemos café juntos todas as manhãs, antes de sairmos para o trabalho, na mesa da cozinha mesmo – enfeitada de margaridas -, e de pijamas. Repetindo a familiaridade da noite anterior, conversávamos feito velhos conhecidos, sobre coisas corriqueiras, e eu tinha a impressão de que a qualquer momento ele poderia perguntar “você se lembra daquele dia?”, como se naquele dia, muito antes de conhecê-lo, já o conhecesse mesmo.Eu ainda não sabia o motivo de ele estar ali, mas não achava normal perguntar.

Eu tinha ido a um bar com alguns amigos para comemorar a minha última noite no apartamento com as meninas. O ambiente era pequeno e por isso fomos cedo para conseguirmos algumas mesas; muita gente tinha prometido dar uma passadinha quando saísse do trabalho. Eu não gostava muito de falar em público, mas era mais constrangedor o coro de “Discurso! Discurso!”, e resolvi pelo menos agradecer os presentes que ganhei para a casa nova e fazer um brinde. Foi quando o vi.

R. estava encostado ao balcão, sozinho, lindo, alto, sorrindo e olhando para mim. Retribuí o sorriso e o brinde que ele também ergueu, enquanto na minha mesa era uma bagunça só, todos querendo brindar com todos, derrubando vinho e cerveja na toalha. Fiquei com vontade de convidá-lo para se sentar conosco, mas não tive coragem, achei que ele destoaria. Éramos uma turma de jovens bagunceiros e ele era um homem. Devia ter entre trinta e trinta e cinco anos, charmoso, muito bem vestido em um terno cinza, camisa num tom de amarelo bem clarinho, gravata estampada. Flertamos a noite inteira.

Mais tarde, depois que algumas pessoas tinham ido embora e a mesa ficou quase vazia, ele foi perguntar se era meu aniversário. Eu contei sobre a mudança e ele disse que também tinha se mudado havia pouco tempo, e então ficamos conversando sobre a imensidão de providências a tomar antes, todas as coisas a colocar nos lugares depois. Quando reparamos na hora, já era quase madrugada, o bar estava fechando e ainda queríamos conversar mais, sobre qualquer coisa. O tempo, o trânsito, futebol, política, trabalho, cinema, viagens, livros. Tínhamos gostos muito parecidos em algumas coisas e totalmente opostos em outras, mas com uma característica em comum: vontade de discutir e entender os diferentes pontos de vista. E ele era muito bom nisto. Mesmo nas coisas corriqueiras, como argumentar comigo porque não deveria ter deixado a água do café ferver antes de coar o pó.

- Está bem, você me convenceu – tive que concordar. – E está convidado para tomar um café, sem água fervida, no meu novo apartamento.

- Aceito! Sabe que eu fiz questão de acompanhá-las ontem à noite, porque queria ficar sabendo onde te procurar, caso você tivesse me dado o telefone errado?

- E veio agora conferir se o endereço também era certo?

Arrependi-me depois de dizer isto. Acho que estava acostumada a me manter na defensiva.

– Desculpa, eu não quis ser indelicada... – apressei-me em dizer.

- Do que você tem medo? R. perguntou, segurando as minhas mãos entre as dele, sem apertar.

Aquele contato me fez bem. Ele me passava uma tranquilidade e uma confiança que até então eu não tinha experimentado com mais ninguém. As mãos, eu poderia puxá-las se quisesse, mas não queria. Na verdade queria um abraço, se ele pudesse ser tão doce quanto aquele afago dos dedos. Ele continuou:

- Eu só queria ter a oportunidade de conversar muitas outras vezes com você.

- Eu também quero – eu disse, com toda sinceridade. - Desculpa de novo, tá?

- Desculpe-me também, eu não deveria ter vindo assim, te acordar. Mas gostei muito de você.

Eu não sabia o que dizer. Nós apenas tínhamos conversado, mas eu nunca senti uma vontade tão grande de ter alguém por perto, como acontecia com ele. Fiz um carinho em seu rosto e disse que eu também tinha gostado. E gostado mais ainda que ele tivesse vindo. Olhando para os meus pés, ele disse:

- E eu voltei para ajudar você e estas lindas pantufas de joaninha a se mudarem.

Contou-me que depois de nos escoltar até em casa, porque “quatro mocinhas indefesas não podiam andar sozinhas pela madrugada de São Paulo”, foi para casa, mas não conseguiu dormir. Tinha realmente ficado com vontade de conversar mais e disse que se deixasse para o dia seguinte, um sábado, eu não aceitaria, pois estaria fazendo a mudança. E depois, no domingo, estaria cansada. Então resolveu me ajudar. Como eu disse que ainda não tinha providenciado transporte, foi atrás de um caminhão que já devia estar chegando. E que, se eu quisesse, pediria à empregada dele que fosse lá para o meu apartamento novo, colocar tudo no lugar. Eu não estava acreditando naquilo tudo, e bem que as meninas diziam que ultimamente eu exalava mel, atraindo todos os homens que passassem ao redor. E ele ainda me olhava com aquela cara de preocupado, perguntando se tinha feito mal. E quando eu respondi que não, que tinha adorado a surpresa, que se dependesse de mim e da minha preguiça eu provavelmente adiaria em mais um dia meu sonho de morar sozinha, ele sorriu e disse que seria melhor assim, pois ainda não tinha me contado a pior parte.

- Tenho uma casinha na praia, a duas horas de viagem. Se você confiar em mim, e juro que sou de confiança, deixamos as coisas no seu novo apartamento e vamos pra lá. A minha empregada cuida de tudo e, quando a gente voltar, amanhã à tarde, estará tudo arrumadinho. O que você acha?

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