Confissão #61

Capítulo 9 - Parte I


Os segredos que me deram para guardar


Adormeci sabendo que provavelmente ainda estaria chovendo quando acordasse, dentro de poucas horas. Mas já tinha encaixotado todas as minhas coisas encaixotadas e faria a mudança de qualquer jeito. Os móveis que eu tinha comprado para o apartamento novo também estavam ali, empilhados num canto da sala. Eu precisava levantar e ir atrás de algum caminhão; vários deles sempre faziam ponto em uma praça a uns dez quarteirões de onde eu morava. A uma distância bem maior estava a minha coragem, o olho mal abria com o sono atrasado, e além do tempo chuvoso ainda estava fazendo frio. Deu vontade de ficar mais um tempo na cama, ou mais um dia com as meninas, e eu já ajeitava o cobertor e me preparava para virar para o lado quando o interfone tocou.
- Dona Ana, o senhor R. está aqui para falar com a senhora. Posso deixar subir? – era o porteiro novo, e deu vontade de esbravejar quando imaginei que ele tinha se enganado de Ana.
- Raimundo, não é para a Ana do oitavo andar não?
- Não senhora. Ele falou que era uma moça morena e novinha. A dona do oitocentos e dois a senhora conhece, né?
Realmente éramos bem diferentes, tanto na idade quanto na aparência. Mas eu não me lembrava de nenhum R., pelo menos não àquela hora da manhã. Sempre precisava de um tempo para acordar direito.
- Deixa eu falar com ele, por favor, Raimundo.
Morri de vergonha quando ele se identificou como o rapaz do bar.
- Costuma esquecer as pessoas tão rápido assim?
- Não – tentei consertar -, é que eu estava dormindo.
Acho que a resposta não foi das mais simpáticas, mas era a mais honesta.
– Quer subir?
- Posso?
- Se não se importar em ser recebido de pijama...
- Olha que eu ainda não dormi. É um belo convite.
- Não foi bem isso que eu quis dizer.
Gostei do senso de humor dele. Aliás, foi uma das coisas que mais me chamou a atenção. Não que eu acorde mal humorada, mas não é fácil me arrancar um sorriso de manhã. Ainda mais numa manhã chuvosa e fria de um dia de mudança.
- Sobe, vai. Senão daqui a pouco vou ficar mal falada no prédio, justo no meu último dia aqui...
Deu tempo de correr até o banheiro para tentar ajeitar um pouco o cabelo e fazer um bochecho com água e pasta de dente. Eu devia estar com uma aparência horrível, mas pelo menos vestia um pijama novo. Era uma das coisas que eu tinha comprado para estrear na casa nova, e que as meninas já chamavam de enxoval. Diziam que nem noiva levava tanta coisa. E talvez pudesse ser chamado de enxoval mesmo, um casamento às avessas, comigo mesma.
Ele já deveria ter chegado. Interfonei para a portaria.
- Raimundo, o moço já subiu? – perguntei.
- Já sim, dona Ana, naquele minutinho.
Por que será que ainda não tinha chegado? Eu toda nervosa e vai ver era engano. Mas seria muita coincidência, R., o mesmo nome do rapaz do bar.
- Dá uma olhada aí em que andar o elevador parou, Raimundo. Não está no oitavo andar não?
O porteiro confirmou que ele tinha subido para o meu andar mesmo, e eu comecei a ficar desconfiada. E se não fosse ele? E se fosse algum ladrão que, por acaso, tinha me visto conversando com ele e gravado nossos nomes? Eu ainda não era capaz de reconhecê-lo pela a voz, principalmente pelo interfone. Mas, mesmo se fosse ele, era muita irresponsabilidade minha ter deixado subir. Eu mal o conhecia, ou melhor, eu não o conhecia. Tínhamos passado a noite conversando, mas tudo o que ele me disse podia bem ser mentira. Eu não tinha certeza de quem era, o que fazia, onde trabalhava, onde morava. Era um homem lindo, inteligente, bem humorado, bem vestido, educado. Mas quem disse que um ladrão, ou coisa pior, um estuprador, não poderia ser assim? Eu podia ter me enganado com ele. Não me enganei com C., que julgava conhecer tão bem?
C.! - era ele! Gelei com o pensamento e a certeza. Ele me seguiu, me viu conversando com R., e ficou com ciúmes. A esta hora o sono já tinha ido embora, os neurônios já estavam todos a postos e o resto do corpo paralisado. Por que não perguntei ao porteiro como ele era? Agora já não dava mais, ele provavelmente só estava esperando que eu abrisse a porta para atirar em mim. Eu já não conseguia pensar em mais nada, a não ser na hora em que ele se cansasse de esperar do lado de fora e arrombasse a porta. Resolvi acordar as meninas para decidir o que faríamos, e foi um tempo enorme até que eu conseguisse explicar tudo.
- Você tem certeza?
- Tenho, Fê, só pode ser ele. O que a gente faz?
Já estávamos as quatro trancadas em um dos quartos, elas não acreditando, tentando me acalmar, dizendo que se fosse ele e tivesse vindo mesmo para me matar, já teria entrado. Ou melhor, teria me pego na rua, sem deixar que ninguém o visse. Mas eu achava que alguém que também planeja se matar, como ele disse que faria, não se importaria em ser visto ou não. Até pelo contrário, um último ato de coragem.
- Mas você tem certeza mesmo? A gente tem que ligar para a polícia então.
- Tenho, Fê, pode ligar. É ele.
- Você viu pelo olho-mágico? – perguntou ela, ainda não acreditando.
- Não, mas eu sinto que é ele.
Fernanda resolveu olhar antes que ligássemos para a polícia. E quando voltou para o quarto, não sei se estava mais brava ou mais aliviada.
- Eu não conheço o C., mas ele deve ser a cara daquele moço de ontem, do bar.
E o moço do bar estava lá do outro lado da porta, aquele tempo todo. Quando abrimos, as quatro, porque estavam todas curiosas para conhecer o “perigoso assassino”, ele estava armado com um lindo buquê de margaridas, que me entregou:
- Bem, trouxe flores só para uma, mas se você não se importar em dividir...
Ele não entendeu porque não conseguíamos parar de rir. As meninas voltaram para a cama e eu preparei um café para nós dois.
- Um dia te conto a história toda. Mas por que não tocou a campainha?
- Achei que você precisava de um tempo para se arrumar.
Parou de falar e ficou me olhando, brincou de enrolar um dos cachos do meu cabelo ao redor do próprio dedo e continuou:
– E está muito mais bonita do que eu me lembrava.