Confissão #60

Capítulo 8 - Parte VI


Sobre as águas

Não sei se me arrependo de verdade. Talvez em relação a alguns sim, mas sempre avisei para não me levarem a sério. Eu tinha decidido que, dentro de quatro meses, para coincidir com o fim do semestre na faculdade, estaria de mudança para um apartamento só meu. Eu adorava as meninas, mas começava a me incomodar eu não conseguir participar do dia-a-dia de uma verdadeira república de estudantes, e antes que isto começasse a incomodá-las também, antes que eu virasse a chata, seria melhor ter um canto só meu. Eu era mal acostumada, sempre tive um quarto só para mim, e este espaço era bastante respeitado. Mesmo não tendo chave, se a porta estivesse fechada meus pais e irmãos entendiam que eu não queria ser incomodada. Um tipo de liberdade que não era possível ali, onde dividia o quarto com uma das amigas. O espaço era tão meu quanto dela, isso eu sabia bem.

Resolvi então que nestes quatro meses eu tentaria levar uma vida própria de alguém com dezoito anos. O estágio que eu fazia não era remunerado, mas mesmo assim resolvi abandonar as aulas de inglês e português que dava à noite e ter este tempo livre para aproveitar. Além do mais eu tinha algumas economias e meus pais faziam questão de pagar a faculdade e o aluguel. Os planos, os sonhos e a carreira profissional poderiam esperar um pouquinho, enquanto que a vida nem sempre fazia o mesmo. Eu sabia que parte daquela minha dedicação era para não ter muito tempo de pensar em namoros. Eu tinha receios quanto à minha capacidade de julgamento, já que, no início, C. parecia o homem perfeito, uma pessoa normal e, no entanto, queria comprar meu amor pelo preço de uma bala.

Você é capaz de imaginar o estrago que isto faz na cabeça de uma pessoa de dezessete anos? E ainda mais de uma que se julgava esperta, madura, segura? Lembro-me de uma vez em que estava aprendendo a saltar do trampolim e caí de barriga na piscina. Assim que parei de chorar, meu pai disse que a dor também pararia imediatamente se eu subisse até uma plataforma mais alta do que aquela na qual tinha me machucado, e saltasse novamente. Foi o que fiz. A dor não passou, mas também não me machuquei outra vez e perdi o medo de plataformas altas. Naqueles quatro meses, posso não ter aprendido a me relacionar, mas aprendi muito sobre homens e sobre como esconder o medo. Até perdê-lo por completo.

Eu não queria um namorado, não queria nada sério. Sabe, os homens ficam perdidos quando se vêem roubados do seu papel de predadores. Eu nada tinha a perder e nem esperava ganhar; então, quando saía com as meninas, escolhia o mais bonito, o mais paquerado, o mais charmoso ou com fama de mais difícil. E acabava provando que eram muito mais fáceis do que imaginavam. Ninguém entendeu esta minha mudança; e eu até tinha vontade de conhecer alguém legal, mas não tinha paciência de esperar que me provassem ser assim. Sei que esta é uma atitude desesperada de quem não sabe o que quer, ou de quem tem medo do que vai descobrir. Mas era a única possível. Não me pergunte pois não me lembro dos nomes, do que faziam, do que pensavam. Talvez eu ainda me lembre do gosto de um beijo ou outro, mas é só, porque para a cama eu também não fui com nenhum deles. O que estava em jogo era mesmo a sedução, a conquista.

Acha que fui desleal? Mas todos sabiam, eu já avisava que provavelmente não passaríamos daquele primeiro e único encontro. A maioria não acreditava, achava que era charme, que eu estava me fazendo de difícil. Pediam telefone, procuravam saber os lugares que eu frequentava, ficavam amigos das minhas amigas. Eu não imaginava, mas foi bom também para eu aprender a dizer não.

Sabe o que penso agora? E me desculpa, se isto aconteceu? Pode ser... Pode ser sim que você estivesse no meio deles. Será que saberíamos? Será que não tivemos tempo para perceber? Vai ser muito difícil eu me perdoar se isto tiver acontecido. Talvez já fosse isto o que eu procurava também: uma pista sobre você. Um traço seu que me acalmasse, que me fizesse voltar a confiar, que me trouxesse a certeza de poder interromper a busca.

2 Comments:

Blogger sub rosa said...

Ana, acho que deixei uma msg aqui, mas tomada pelo sono, e pelas confissões, não reparei.
Queria pedir licença para retirar o Nelson Archer s/ critica literária.
Poderias me dizer alguma coisa?
Obrigada
M.

3/24/2006 02:33:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Oi, Meg, é claro que pode retirá-lo.

Há uma mensagem sua no post abaixo... Será essa? ;-)
Beijos,
Ana

3/24/2006 04:21:00 PM  

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