Confissão #59

Capítulo 8 - Parte V

Sobre as águas


- Pela graça de Deus, chegamos!

Mal entramos em casa, dona Isabel foi correndo cumprir a promessa: uma vela para Iemanjá e outra para Nossa Senhora da Conceição. Bem podia ser uma só, mas ela prometeu duas, para garantir. Iemanjá é a rainha dos mares e dos oceanos, segundo o Candomblé, associada na religião católica a Nossa Senhora da Conceição.

Tínhamos ido a Salvador fazer as compras do mês, aproveitando para trazer de lá também os ingredientes para as comidas da festa de São João. Mal o ferry-boat deixou o atracadouro, começou a cair uma chuva forte, o suficiente para atrapalhar os nossos planos de tirar os sapatos e esticar as pernas cansadas, fazendo a travessia dentro do carro mesmo. Quando chove, o mar fica mexido e a balsa joga muito, de um lado para o outro, ao sabor das marolas.

- Acho melhor subir e sentar lá em cima. A senhora não está acostumada, pode enjoar. Aqui embaixo balança mais – sugeriu a dona Isabel.

Mas logo percebemos que era mesmo necessário; o serviço de som solicitava que ninguém permanecesse dentro dos carros e que todos prestassem atenção ao filme de procedimentos em caso de emergência.

Eu já estava começando a ficar com medo, mas dona Isabel dizia que não haveria de ser nada, que era só por precaução. Já tinha feito a travessia com chuvas bem piores, e de saveiro, que era muito mais perigoso. Mas ao chegarmos ao salão, àquela altura já bastante cheio, corremos os olhos à procura de duas cadeiras vazias para nos sentarmos; e ela precisou segurar com força no meu braço para não cair.

- Valha-me, Deus!!!

- O que foi, dona Isabel? – assustei-me. - A senhora está passando mal?

Ela estava lívida, apertando meu braço com mais força ainda.

– A senhora quer falar com o padre? - perguntei, ao perceber que ela olhava na direção de onde estavam sentados um padre e duas freiras.

- Um padre e duas freiras! Virgem Santíssima! Odoyá, minha mãe Iemenjá!!

- O que foi? A senhora quer falar com eles? - insisti.

Ela parecia rezar, e, sempre agarrada ao meu braço, beijava a medalhinha de Nossa Senhora que trazia ao pescoço. Fez o sinal da cruz e então me contou sobre uma antiga surperstição.

- Não, minha filha, é mau agrouro. Se eu soubesse, não tinha entrado aqui de jeito nenhum.

A dona Isabel não parava de falar, atropelava as palavras e eu quase não conseguia entender mais nada mesmo.

– Nem sei como isto aqui está tão cheio. O povo desce quando vê que vai viajar junto com padre ou freira. Vai ver eles estavam dentro do carro também, escondidinhos, e só subiram agora, depois que não tinha mais jeito de ninguém descer.

- Dona Isabel, eu não estou entendo nada.

Ela tinha voltado a rezar. O mesmo faziam os três religiosos, as cabeças baixas, as mãos correndo os rosários, os olhos ignorando centenas de rostos apavorados voltados na direção deles.

A chuva parecia piorar e eu quase já não aguentava mais me equilibrar em pé, o chão ora pendendo para a direita, ora para a esquerda. Já estava quase entrando em pânico também, muitas crianças chorando, as pessoas de pé se apoiando como desse, desviando-se dos pacotes que, no chão, iam de um lado para outro, derrubando quem encontrassem pelo caminho. Por sorte, ainda não tinha ninguém passando mal e vomitando. Vai ver o medo era maior... Cadeiras vazias apenas perto dos religiosos, que as pessoas pareciam evitar. Consegui arrastar a dona Isabel para lá; ela se sentou contrariada e só depois de algum tempo conseguiu voltar a falar, baixinho, no meu ouvido:

- Dá azar, minha filha, muito azar. Atravessar o mar desse jeito, com padre e freira, é quase certeza de afundar. A gente só se salva se tiver muito santo de plantão – e logo retirou um terço da bolsa e começou a rezar.

Acho que esta história me acalmou um pouco, nem sei se era de nervoso a enorme vontade de rir. Fiquei tentando imaginar a origem daquela profecia. Será que era porque iam rezando assim a viagem inteira, constrangidos com os olhares acusadores? Vai ver todo mundo pensava que rezavam porque, como estavam mais próximos de Deus, deviam saber de algo que nós, os simples mortais, ignorávamos. Só podia ser. Mas o mar também parecia acreditar nisso e, quanto mais avançávamos, lentos e pesados, mais ele se enfurecia e ficava indeciso entre ir para um lado ou para outro. Quando a balsa estava no máximo de inclinação, ao invés de vermos o horizonte através das janelas, víamos apenas a agitação frenética da espuma em que a água tinha se transformado.

A bravura do mar parecia ser inversamente proporcional à calma das pessoas, pois já se formavam rodinhas de onde se podia ouvir alguns risos. Contavam piadas e histórias de naufrágios acontecidos por ali, uma região bastante propícia a tragédias, pela enorme quantidade de arrecifes e corais. Quase sempre acontecia do mesmo modo: o mar atirava os barcos para cima e saía de baixo. Eles então voltavam com toda a força e cravavam os cascos nas pedras; os tripulantes não tinham nem tempo de dizer amém, antes de serem engolidos por uma enorme onda. Já inventavam várias versões para as histórias, e sempre havia pelo menos um padre ou uma freira entre mortos e desaparecidos. Até que alguém comentou:

- Gente, vocês se lembram do naufrágio do Dois de Julho?

Quase todos se lembravam. Era um ferry-boat pequeno, que tinha afundado bem na metade do caminho, e poucos se salvaram. Foi num dia de chuva como este, há uns vinte anos.

- Exatamente vinte anos! – continuou o homem que tinha se lembrado do naufrágio do Dois de Julho.

Fez uma pausa para aumentar o suspense e seguiu com a revelação, acentuando cada palavra:

– Foi no dia onze de junho de mil novecentos e oitenta e dois!

Instalou-se novamente o pânico, muitos voltaram a rezar, enquanto outros contavam mais histórias. Todos ali conheciam alguém ou tinham parentes mortos no Dois de Julho, e também todos se lembravam de que os sobreviventes contaram que havia um padre e duas freiras a bordo. E assim seguia a viagem, cada qual se lembrando de um detalhe que parecia anunciar que a tragédia se repetiria. Falavam também dos invernos antigos, quando se formavam ondas tão grandes, que passavam por cima dos carros, lá embaixo. Só então me lembrei do meu carro, mas eu nada podia fazer, já estava até esperando encontrá-lo todo amassado, do choque com os outros.

Pelo menos as histórias me distraíram um pouco. Diziam que aquele inverno, o de oitenta e dois, foi um dos piores que já tinham acontecido por aqui. Depois do naufrágio do Dois de Julho, e também porque a chuva não dava tréguas, nenhum outro barco ousou ir até a ilha. Quando começou a faltar comida, espalhou-se a notícia de que era mesmo o fim do mundo, que Deus ia acabar com todo mundo pela água e pela fome. E que a ilha não tardaria a afundar; fato confirmado pela maré que não se contentava mais em ir até os muros. A água já tinha entrado dentro das casas à beira-mar.

Pelo menos, se saíssemos vivos daquela travessia, eu tinha o porta-malas cheio de comida, as compras do mês e mais o extra para a festa. Comecei a achar que aquilo era até pecado; pensar no tanto de comida que tinha, só para mim, enquanto o restante da população poderia passar fome. Será que a gente fica egoísta na hora da morte? Comecei a me lembrar também dos outros pecados pelos quais tinha que me arrepender, e tive muito tempo para isso. A viagem depois foi se acalmando, mas o percurso que normalmente é feito em quarenta, quarenta e cinco minutos, daquela vez precisou de quase duas horas e meia.

2 Comments:

Blogger sub rosa said...

Oi, Ana... nem sei mais o que dizer;-)
recebeu meu email?
O meu é subrosa@meguimaraes.com
bj
M.
P.S O locaweb tem me deixado na mão com o webmail.

3/24/2006 02:18:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Meg,Os e-maisl que eu recebi e respondi foram dois, pelo meg@meguimaraes.com. Se houve mais algum, não recebi não. Você pode mandar de novo?
Beijos,
Ana

3/24/2006 04:25:00 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home