Confissão #57

Capítulo 8 - Parte IV


Sobre as águas


Chovia. Foi assim que o mundo me tocou: abafado e aquoso. O táxi, um velho Opala branco, deixou a Santa Casa chacoalhando sobre o chão de paralelepípedos. Apertada contra o peito de minha mãe e protegida da luz excessiva pela velada transparência dos vidros embaçados, eu finalmente voltava para casa.
Íamos devagar e em silêncio, o que aumentava ainda mais o ruído da luta quase invencível do limpador de pára-brisa contra aquele mundaréu de água. Um ou outro clarão rasgava o céu de alto a baixo, indo cair onde nossos olhos não alcançavam. Eu pedia para aquela chuva não parar nunca, para o caminho ser longo, para a vida ser sempre assim, confortável, quentinha e liquefeita. Desnecessária de palavras.

Por onde passávamos, via as casas debruçadas sobre as ruas estreitas. Fechadas e molhadamente coloridas, as janelas de se conversar da calçada. Portas que, quando parasse de chover, se abririam para a hospitalidade barrada por um único degrau. Corredores laterais delimitados por paredes cobertas de musgo, e garagens que abrigavam pássaros presos e tristes, ou cães respingando água e pulgas. Penduradas, samambaias choronas e avencas. Em vasos, protegendo as entradas, espada-de-São-Jorge e comigo-ninguém-pode. As ruas estavam quase vazias, uma ou outra pessoa sob inúteis guarda-chuvas desviavam das poças de água nas calçadas esburacadas, saltando os sulcos abertos nos cruzamentos das ruas de terra. Terra vermelha, dissolvida e pegajosa.

De dentro dos botecos, sem pressa, os homens esperavam a chuva parar. Mas nem se importariam se chovesse o dia inteiro, pois a vida passava devagar por ali. Entre um gole e outro de pinga e nacos de torresmo, destrinchavam conversas e fumo de rolo. Às vezes, algum deles, impacientemente bêbado, protegia e cabeça com o chapéu de palha e desafiava “quem é que tem medo daquela chuvinha besta?”. Ia lavar a bebedeira.

Nas casas, entre gritos de “passa para dentro, moleque!”, as mulheres acendiam velas e rezavam para Santa Clara. Afastavam móveis e trocavam as latas de óleo de nove litros transformadas em vasilhames aparadores de goteiras. Um sinal da cruz a cada trovão. No fogão, as panelas areadas esperavam o preparo do almoço.

Ao longe, o apito avisava da chegada de um trem, o som mais ou menos nítido por causa do serpentear entre as montanhas.

- Chegamos!

4 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Samambaia, avenca, espada-de-São-Jorge e comigo-ninguém-pode também foram as plantas da minha meninice, quase toda casa tinha.
Uma varanda com avencas até hoje guardo na memória, eram avencas lindas, borifadas de água, numa casa que ficava numa rua chamada Rio São Pedro, nome que acho lindo também.
Beijos, :).

3/17/2006 12:58:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Explique-me, cara Ana; como um blog fantástico destes permanece no anonimato?


Excelentes textos, gostosíssimos de ler. Meus parabéns.

Ganhaste um leitor assíduo.

=]

Brandão
http://spaces.msn.com/zerosize

3/17/2006 05:00:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda, essas plantinhas me dão tanta saudade.... Ou seria saudade da infância? Já que estão tão interligadas?! Aliás, que nome de rua maravilhoso!

Brandão, obrigada e seja bem-vindo!

Beijos,
Ana

3/20/2006 07:25:00 PM  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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5/04/2010 06:28:00 PM  

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