Confissão #56

Capítulo 8 - Parte III


Sobre as águas


És vários. Tem um aqui ao meu lado e já contei pelo menos dez passeando pela praia. É por isso que eu ando vazia, para que todos os seus “você” caibam em mim. Acho que a palavra certa não é bem “vazia”, talvez “espaçosa” seja melhor. Sabe quando vamos receber visitas e então arrumamos os armários, apertando as próprias roupas em um canto e esvaziando algumas gavetas? E nesta arrumação muitas vezes até aproveitamos para jogar fora algumas coisas que não usamos mais? E também podemos encontrar outras que tínhamos dado como perdidas? É assim que me sinto: arrumando a casa da alma para te receber. Deixando-a mais espaçosa.

Ainda estranho esta vontade de dividir meus espaços com você. Antes de saber que você vinha, eu diria que não, que preciso de cada canto da casa e de todas as gavetas dos armários; que durmo metade da noite no lado direito e a outra metade no lado esquerdo da cama. E agora anseio que você venha, que roube meu travesseiro, que, nas noites bem frias, enrole-se sozinho no meu cobertor inteiro; e quando eu reclamar, ao invés de devolver a parte que me cabe, que você me puxe de encontro ao peito e me abrace tão forte que eu me agasalhe no seu corpo. Talvez eu nem fique brava se você trocar as capas dos meus Cds, mas vou querer cem beijos por cada orelha que fizer nas páginas dos meus livros. E de pirraça e propósito é assim que você separa todos os trechos interessantes, com a desculpa de ler para mim mais tarde. E nunca lê até o fim porque está sempre pagando dívidas que não quer acumular para o dia seguinte. E nisto concordamos, não sabemos se o amor vai nascer de novo com o sol de amanhã. Por aqui o tempo anda instável; ainda há pouco tinha sol, agora chove, e espero daqui da varanda o arco-íris que vai preceder o sol, que não tarda a aparecer novamente.

A não ser pela história das serenatas, nunca te falei da minha família. E não é por não me dar bem com ela, muito pelo contrário. A gente nunca fala muito do que vai bem, não é mesmo? Será que é um tipo de superstição? Mas hoje estou com saudade, tanta quanto tenho de você. E por causa dela, da saudade, assim como o tempo, eu tenho vontade de chover também. Não é apenas chorar, é chover. Mesmo chorando por tudo o que der vontade, quase sempre fica um motivo oculto, incomodando, formando novas nuvens escuras. Quando chovemos, não, aí limpamos tudo de uma vez, e então vem o sol.

Já te disse que sou chorona? Em algumas épocas muito mais, sou capaz de chorar assistindo novela, ouvindo música, olhando o mar, devorando um prato de brigadeiro. Sou capaz de chorar até pelo que me faria sorrir em outras ocasiões. Não se assuste com isso, está bem? Meu choro é mais sentido quando estou feliz; sou capaz de chorar horas e horas até conseguir assimilar este avesso de tristeza.

A felicidade não foi dos sentimentos mais constantes na minha vida ultimamente, e preciso me acostumar a viver com ela novamente. Quando a percebo, não sei o que me dá, não consigo explicar o que sinto. Mas tente imaginar como você reagiria nesta situação: você dá um abraço em alguém porque está com vontade, porque te faz bem, e nem espera que esta pessoa te dê outro em troca. E então uma cortina qualquer se abre e esta pessoa está lá do outro lado, te esperando. Antes mesmo de saber que ganharia seu abraço, tinha preparado um jantar com seu prato preferido, escolhido o melhor vinho da adega e contratado uma orquestra de violinos. Depois do jantar ela te convida para dançar e, quando você se cansa, deita sua cabeça no colo e te cobre de beijos e cafuné. E ainda te belisca para você saber que não está sonhando. Entende?! É assim que hoje eu vejo as pequenas coisas que me fazem feliz; e por isso me dou o direito de chorar.

Mas agora eu choro é de solidão. Ela parece cada vez maior quanto mais perto fico do dia em que você vai chegar. Talvez seja aquilo de apurar o sentido dos contrastes. De me esvaziar, limpar o caminho ao redor, não deixar que nada nem ninguém se aproxime, exceto você. Para que então eu te sinta como um sol das doze horas de um dia de verão, da mesma maneira que o sente alguém que esteve meses e meses sem ver a luz.
Ainda não te falei do sentido dos contrastes. É que há algum tempo já estive mais triste do que pude suportar. E nestes casos, para nos proteger, é como se aquele anjo que nos amortece a queda acudisse com uma película de insensibilidade. E depois ficasse apenas olhando lá do alto, atento, dizendo que precisamos aprender a nos virar sozinhos. É uma briga estranha, injusta, porque a vontade é de permanecer lá dentro da tristeza, envolvida, sem ouvir, sem falar, sem tocar, sem comer, sem ver, sem correr riscos. Até abrir a janela é um risco enorme. Estar viva era um susto mais aterrorizante a cada respiração. E eu precisava me dar sustos maiores ainda, para ir me acostumando. É isso que chamo de sentido dos contrastes. Coisas banais, como fechar toda a casa e ligar o som no volume máximo, esperar alguns segundos e desligar. Era só assim que eu percebia o silêncio, que deixava de ouvir todas aquelas vozes berrando sem parar inacreditáveis impropérios dentro de mim. Ou então abrir a água quente do chuveiro até o limite do suportável e fechar de repente, passando para a água gelada.

Mas não quero mais falar disto agora, já passou. É que um pouco depois desta época eu pretendia escrever um livro. Achava-me tão vitoriosa por ter saído dela que queria indicar o caminho das pedras. Desisti no meio, passou o estado de euforia e percebi que não fiz nada mais do que poderia esperar de mim. Há quase sempre um estado de euforia após a depressão, e eu nunca experimentei, mas dizem que é como estar sob o efeito de cocaína, por exemplo. Sentindo-se o máximo, aquele que tudo pode, que tudo faz, e foi por isso que eu imaginei que a minha vida dava um livro. Não dá. Nenhuma vida dá um livro, a não ser as que são interrompidas ou estão próximas da morte. Caso contrário, onde se colocaria o ponto final?

Lembrei-me disto agora porque chove. A chuva sempre esteve presente nos acontecimentos mais importantes da minha vida. Aqui eu já começo a distinguir os dias em que vai chover, pelo vento, pela maré, pelos pássaros que surgem voando expulsos de algum lugar. Há inclusive uma espécie, não consigo me lembrar do nome, que anda sempre aos pares e anuncia tempestades. São pássaros enormes que, quando abrem as asas, devem alcançar mais de dois metros de uma ponta à outra. São robustos, e se vêm para terra firme é porque a chuva já castiga forte algum ponto do mar. Sabe por que me interesso por isso? Porque sei que vai chover no dia em que você chegar. Antes, durante, depois, não importa. Mas vai chover. E a seguir vai ter arco-íris, e vai ter sol de novo.

Aquele livro que comecei a escrever, tenho-o aqui comigo. De vez em quando, leio para matar as saudades. Eu, que queria falar da vida toda, mal cheguei ao meio da infância. E queria ler um trecho dela para você; posso? Deita a cabeça aqui no meu peito e faz de conta que conto histórias para te fazer dormir. Até a chuva passar.

3 Comments:

Anonymous Leila said...

Lindo!

3/20/2006 08:48:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Leila.
Beijos,
Ana

3/21/2006 06:56:00 PM  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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5/04/2010 06:28:00 PM  

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