Confissão #55

Capítulo 8 - Parte II


Sobre as águas


- Mas já pensou se eu topasse?

Eu tinha acabado de, pela terceira ou quarta vez, convidar o Zé para a festa de São João. Já tínhamos começado a ensaiar a quadrilha, mas, se ele quisesse, poderia ser o noivo.

- Queria só ver a cara de todo mundo...

- Então, não seria uma ótima oportunidade para você debutar?! Nada de valsa, um debut – caprichei na pronúncia – com muito forró e com direito ao papel principal, o de noivo.

- E quem está ocupando tão nobre lugar, ó, madamoiselle? – perguntou o Zé; e depois disse que esta nossa brincadeira era bem adequada, pois as quadrilhas brasileiras eram adaptações das danças de salão da corte francesa.

- Monsier Tonhô, o dono daquele saveiro azul ali – apontei. - Sabe quem é?

- Sei.

Senti que o Zé estava com vontade de aceitar, e continuei falando do quanto nos divertíamos nos ensaios, dos preparativos, do jeito que eu queria enfeitar o jardim. Algumas mulheres se ofereceram para fazer, em tecidos floridos, pequenos balões que penduraríamos entre os coqueiros, intercalando com as bandeirinhas.

- O seu Wilson, aquele que é eletricista lá na pousada, vem aqui amanhã pra ver se dá para a gente colocar iluminação nos balõezinhos também.

- E o tecido não vai pegar fogo?

- Acho que não. Pelo menos ele já está fazendo um teste. Tem um balãozinho aceso lá na casa dele desde ontem de manhã. Acho que não aconteceu nada de errado.

- E a fogueira?

- Um primo do Zé Borges, o caseiro aí do lado, está secando lá na olaria alguns troncos que o pessoal achou por aí, depois de trazidos pela maré. Amanhecem muitos na praia, todos os dias, e eu não queria que cortassem nenhuma árvore.

- É, pelo jeito vai ser um festão mesmo...

- Vai, Zé. Você tem que ir.

- E por que é que você convidou o Tonho para ser o noivo?

- Porque fiquei com medo de que você me abandonasse ao pé do altar.

O Zé soltou uma sonora gargalhada. Nunca o tinha visto sorrindo daquele jeito, com o corpo todo. Eu também ri, tentando disfarçar para que ele não soubesse o verdadeiro motivo. No mínimo, era inusitado o chacoalhar dos búzios que ele trazia na barba, batendo contra o peito que subia e descia com a gargalhada.

- Está vendo?! E ainda ri antecipadamente da minha desgraça!...

Na verdade, eu convidei o Tonho porque ele é viúvo e foi o único homem que apareceu para ensaiar sem trazer uma parceira. Não quero criar problemas com ninguém, sei que as mulheres daqui são um tanto valentes, bem capazes de puxar a peixeira quando se sentem ameaçadas. Claro que eu nunca paqueraria os maridos, os noivos ou os namorados delas, mas sei que não posso garantir o mesmo em relação a eles. Em festa que tem bebida, e sei que eles gostam de uma cachaça, é melhor não facilitar. Além do mais eu já conhecia o Tonho, já tinha ido muitas vezes até a praia, quando o via chegar de madrugada, para comprar peixe fresquinho, recém tirado do mar.

- Mas o Tonho não queria ser o noivo, disse que nesta altura da vida está mais é com vocação para padre.

Percebi que Zé ia dizer que sim, e acrescentei:

– Se você topar, tenho certeza de que ele não vai se importar nem um pouquinho.

- E quem é que está fazendo o papel de padre agora?

- Não é bem um padre. Como não tinha mais homem sobrando, quem faz o casamento é a mãe da noiva, a dona Isabel.

Só depois que pronunciei o nome de dona Isabel percebi que havia perdido todos os
argumentos anteriores.

- Não vem mais, né?! - perguntei, mesmo já sabendo a resposta.

O Zé apenas balançou a cabeça, confirmando que não. E também já seria demais pedir que dona Isabel não viesse à festa por causa dele.

- Zé, eu tentei perguntar para ela sobre aquilo que você me falou, e ela desconversou.

- Acho que vou ver sua festa de longe – foi só o que ele disse, evasivo.

De longe também ficaria o seu Niquinho, que disse não saber estar no meio de muita gente. Pensando bem, até que eu já estava bastante adaptada à ilha, e adorando conhecer algumas figuras bem pitorescas. Seu Niquinho era uma delas, um treinador de galos de briga. Todos os sábados pela manhã, a praça da vila virava uma grande arena para a disputa de ferrenhas rinhas de galo, embora fossem proibidas. Mas ninguém se importava, e esta parecia ser mais uma das tradições que o pessoal daqui faz questão de manter. Sob a sombra de enormes amendoeiras, monta-se um rinque ao redor do qual são colocados bancos e cadeiras, que a torcida e os apostadores levam de casa. Alguns ainda se espalham por dois ou três bares nas proximidades e ficam tomando cerveja, enquanto ouvem a narração da briga, que tem locutor oficial, pódio e até entrega de troféus. Algumas brigas, as mais importantes, são até transmitidas por uma estação de rádio local.

Fui assistir apenas uma vez, por curiosidade, pois me dava verdadeira aflição ver os pobres animais se baterem até a morte. Ou quase até a morte, quando o dono se compadece e resolve parar a luta, mesmo que isto atente contra a moral do galo. Um galo que foge da briga fica desmoralizado, o que não atrai apostas e torna a luta desinteressante para o dono do oponente. Muitas vezes, ao escapar de morrer pelos golpes do adversário, o perdedor que fica muito machucado é sacrificado pelo próprio dono, com uma torção no pescoço.

Os galos são tratados como verdadeiros artistas, a começar pela aparência, sempre muito bem cuidada; são submetidos a banhos e treinamentos diários para que fiquem vistosos e atléticos. Durante o banho também aproveitam para esfregá-los com escova e sabão de coco, o que deixa a pele mais resistente às bicadas do adversário.

Tudo isto aprendi com seu Niquinho, em uma manhã que acordei mais cedo saí para dar uma volta na praia, quando o vi cuidando de Valente, seu galo preferido. Ele o levava para caminhar amarrado por uma cordinha no pescoço, e andavam em círculos pela areia. Depois eu soube que isto serve para fortalecer a musculatura das coxas. Mas quando passei por eles achei a cena engraçada, pensei que fosse um louco imaginando levar o cachorro para passear. Na volta da caminhada não me contive e parei para conversar, como quem não quer nada, mas morrendo de curiosidade para saber do que se tratava. Ele me disse que, todas as manhãs, antes de o sol esquentar muito, levava Valente para se exercitar na praia; e me convidou para ir ver o restante do treinamento na casa dele.

No quintal devia ter mais uns vinte animais, de idades e tamanhos variados, presos em gaiolas individuais para que não gastassem energia brigando entre si. Todos tinham o pescoço, as coxas e boa parte das asas com as penas aparadas, para dificultar a pegada do oponente e para que ficassem mais leves e ágeis, o que facilitava quando precisavam se esquivar dos ataques. Para que se machucassem menos, seu Niquinho me mostrou que lhes cortava as barbelas - as peles que ficam embaixo dos olhos - e as pálpebras.

Ajudei-o com alguns exercícios simples, morrendo de dó dos animais, mas querendo saber como eles se comportavam. Alguns já deviam estar tão acostumados que eu tive a impressão de que já sabiam de cor toda a seqüência de exercícios. Para enrijecer a musculatura das coxas, primeiro, segura-se o galo pelo rabo e pelo pescoço e joga-o para o alto, deixando que caia. Depois, um velho toca-discos de vinil faz as vezes de esteira. Seu Niquinho regulava a rotação e lá ia o galo correndo contra o disco. Se não fosse uma crueldade muito grande com o animal, que fazia um esforço enorme para se equilibrar sobre aquela engenhoca, seria uma cena engraçada.

No sábado seguinte, fui até a praça ver o Valente ser campeão, como tinha plena certeza o seu Niquinho. Mas não consegui assistir nem a cinco minutos da briga, programada para durar uma hora ou até que um dos oponentes se desse por vencido. Mas consegui perceber como tudo é realmente bem organizado. Escolhe-se os oponentes pelo tamanho e pelo peso, procurando um equilíbrio, e então começam as apostas. Primeiro o “topo”, que é como eles chamam a quantia que o dono do galo perdedor vai pagar ao dono do vencedor. E só depois que eles chegam a um acordo é que as outras pessoas podem fazer suas apostas, sem que tenha ninguém para anotar. É tudo apalavrado; seu Niquinho disse que nunca deixam de cumprir, sob pena de nunca mais poderem participar. É disso que seu Niquinho vive, dos “topos”, principalmente dos que ganha com Valente, que é famoso em toda a redondeza por atrair muita gente de longe para desafiá-lo.

- Já veio gente até de São Paulo. E voltou só o dono; o galo, o Valente fez ficar por aqui.

O seu Niquinho ria, alisando com carinho a nuca pelada do galo. Aquele era o seu mundo, vivia em função dele, o dia inteiro treinando e preparando os galos para as rinhas.

– E a senhora que me desculpe, é muita bondade convidar, mas não sei ir a festa não. Só sei mesmo é lidar com meus galos.

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

E olha aí as rinhas de galo!
E como as coisas mudaram, não?
E continuo lendo, rapidinho ainda, mas lendo, viu?
Beijos, :).

3/15/2006 02:29:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Pois é, Matilda, o Duda quem o diga ;-)
Que bom te ler por aqui, e por lá, no Nanbiquara. Estava com saudades.
Beijos,
Ana

3/15/2006 02:45:00 PM  

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