Confissão #54

Capítulo 8 - Parte I


Sobre as águas

Sempre tive medo de ciganas. Hoje fico pensando se não é, na verdade, medo do futuro. Eu trabalhava em uma agência de publicidade no centro antigo de São Paulo, perto de uma praça por onde se espalhavam dezenas de ciganas. Você já notou como andam em grupos? Nunca menos do três para fazerem uma abordagem, duas de cada lado e a outra já se colocando no seu caminho com uma frase para causar impacto, ou pelo menos para te fazer diminuir o passo. Quando não faz isto com o próprio corpo, enquanto, olhando nos seus olhos, diz que aquele é seu dia de sorte, que a cigana foi colocada no seu caminho para te fazer uma grande revelação, um segredo que vai mudar sua vida e que está escrito na sua mão, mas que só ela sabe interpretar.

Da primeira vez que me abordaram foi assim, e parecia que as três, juntas, tinham pelo menos dez mãos. Duas delas querendo pegar a minha mão esquerda, enquanto outras tantas buscavam a mão direita, que segurava forte a alça da bolsa. E ainda mais algumas mãos que quase arrancaram meus brincos, dizendo “que ricos, a cigana gostou, dá para a cigana este regalo que a cigana revela o futuro”. E ainda outras mãos, que me puxavam pelo braço enquanto eu tentava fugir. Eu apertava o passo e elas atrás, falando sem parar, elogiando meus brincos, meus anéis, meu relógio, meu colar, dizendo que seriam até de pequeno valor para pagar pelo futuro. Quando perceberam que eu não ia mesmo parar, partiram para a próxima abordagem. Mas vi que a que me pareceu ser a mais insistente delas se abaixou para falar com outra bem idosa, que estava sentada sob a marquise de uma loja fechada. Lembro-me até hoje das feições da velha, dos cabelos já quase totalmente brancos, presos numa trança rala, que ela jogava por sobre os ombros, para a frente do corpo, indo até quase a cintura. O rosto tinha tantas rugas quantas podia comportar, salvando-se apenas a região dos olhos e do nariz. Duas argolas enormes pendiam das orelhas murchas e esticadas. As mãos manchadas e com unhas muito grandes e sujas, que ela colocou em concha no ouvido da jovem cigana, que depois veio falar comigo:

- Minha avó disse que a moça tem uma sina de amor muito triste. Mas que pode mudar se
for do seu conhecimento.

Por que sina de amor triste? Por que é que ela não dizia que eu tinha escolhido a profissão errada, que o prédio onde um morava ia desabar, que alguém de quem eu gostava muito estava precisando da minha ajuda? Porque, com certeza, não impressionaria tanto. As coisas de amor acabam prevalecendo sobre todas as outras, não é mesmo? Apesar de já terem me avisado que eram grandes charlatãs, que da tradição das grandes ciganas ledoras de sorte não tinham nem conhecimento, que num descuido elas arrancariam tudo o que já tinham elogiado e ainda todo o dinheiro que eu tivesse na carteira, apesar de tudo, fiquei curiosa.

Que triste sina seria aquela que o destino me reservava, mas que a velha poderia mudar? Perguntei à jovem cigana se ela poderia me dizer se meu namorado me traía, e ela disse que sim, que a revelação tinha a ver com isso. Perguntei se ela sabia se ele era um moço moreno ou loiro e ela falou que a imagem estava confusa, que se eu parasse de andar, poderia ver melhor. Eu, que nem namorado tinha, apressei o passo e ela continuou ao meu lado, arriscando cinquenta por cento da chance que teria para acertar com um “é moreno, não é”? Não respondi, as duas mãos procurando o apoio da alça da bolsa, os olhos fixos no chão. Então vi os pés da ciganinha. Descalços, imundos, as unhas crescidas como garras, nas quais se viam resquícios de esmalte cor de rosa. Senti o corpo bambear, um nojo enorme, uma vertigem que me levou para longe daquela voz irritante que me parecia adquirir um tom diabólico. O desmaio foi um alívio, e acordei sentada na cadeira de medir pressão de uma farmácia, as duas mãos ainda fechadas ao redor da alça da bolsa.

Que me desculpem as sérias e verdadeiras, as que têm o dom, mas, desde então, além da desconfiança, tenho muito medo de ciganas, de quem nunca olho os pés. Entre as minhas supertições, esta é uma das mais fortes. Quando as vejo em determinado local pelo qual preciso passar, fico à espera de que todas estejam ocupadas para então seguir meu caminho, sempre olhando para o alto, o mais possível. Medo de quem mente tão descaradamente e inventa verdades que podem se tornar o ponto de apoio, manco, mas o ponto de apoio de corações desavisados.

Mas foi depois destas ciganas que passei a observar pés, e tenho uma enorme curiosidade de colocar meus olhos nos seus pés. Eu mesma não tenho pés bonitos, gosto do tamanho deles, são pequenos, mas não têm um formato bonito. E nem é isso o que espero, beleza, quando, logo depois de olhar nos olhos de quem acabo de conhecer, dou um jeito de olhar os pés. Calçados ou não, eles me dizem muito sobre seus donos. Os tímidos quase sempre usam sapatos fechados, e o inverso também é verdadeiro. O mesmo serve para os falsos. Os vaidosos trazem as unhas bem cuidadas, e as mulheres ainda realçam a personalidade através das cores. Eu gosto das minhas unhas pintadas de vermelho; o que você acha que isto quer dizer?

2 Comments:

Blogger Cris Bomfim said...

Gostei muito das suas confissões. E para falar a verdade também tenho medo de ciganas, além de odiar a mania que elas tem de ficar pegando na gente!

3/14/2006 01:10:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Cris, e essas ciganas de rua são sim de botar medo. Faço de tudo para que não me vejam.
Beijos,
Ana

3/14/2006 02:39:00 PM  

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