Confissão #52

Capítulo 7 – Parte V

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Arrumar um moço bom e casar. Até parece prêmio pra bom comportamento, você não acha? Bem, nem sempre eu fui uma boa menina, mas acredito que é isto que também faz com que eu te mereça. Aquilo que já te falei sobre ter uma alma antiga e um coração que a acompanha.

Vamos primeiro à pior parte? Ou a melhor; acho que há sempre mais de um ponto de vista. Já tive três namorados ao mesmo tempo. C. era o oficial, mas já te contei como eu aprontava para ver se ele me deixava terminar o namoro, ou se terminava ele. Hoje eu não faria isso, sofre quem trai e quem é traído, mas eu não sabia como lidar com a situação.

Durante algum tempo, depois que me mudei de Ibiá, sempre voltava para passar as férias na casa dos meus avós. Meu avô Paulo comprou um carro enorme, um Veraneio - acho que era esse o nome -, e todo início de férias escolares colocava para rodar o que nós batizamos de “Caravana do Vovô”. Ele ia de cidade em cidade recolhendo todos os netos que tinham idade suficiente para ficarem sem as mães. Como neta mais velha, participei desde o início, faltando em algumas destas viagens apenas já na adolescência, quando queria viajar com as amigas. Mas quase sempre me arrependia, embora não admitisse, pois aquelas eram as melhores férias que alguém poderia ter. Rever as amizades, não ter hora para chegar em casa, ir para as fazendas da região, tomar banho de cachoeira, dar festas no porão da casa de meus avós. Eles adoravam a presença dos netos e faziam de tudo para nos agradar, além de, muito mais do que nossos pais, confiarem no nosso senso de responsabilidade. Férias sempre significavam território livre, nenhuma obrigação a cumprir, e já eram divertidas só por estarmos todos juntos, os primos.

Eu seria capaz de ficar horas te contando histórias daquela época, das coisas que aprontávamos, mas as melhores mesmo eram as histórias dos namoros. Éramos adolescentes e, muito mais do que primos, verdadeiros cúmplices. Se gostávamos da paquera uns dos outros fazíamos de tudo para ajudar. Se não gostávamos, tudo para atrapalhar. Sabe que aprendemos isto com nossos tios? Quando estavam todos juntos, solteiros e casados, para as comemorações de Natal e Ano Novo, nós os chamávamos de “A Gangue”. Unidos e invencíveis. Naquela época, fazíamos muitas serenatas para o restante da família, os amigos e os ou as pretendentes. Não se recusava uma indicação de casa sequer, valia a farra da família inteira pelas ruas, com violões, pandeiros e cavaquinhos debaixo dos braços. Mas o grau de afinação era sempre proporcional à afeição por quem estava sendo homenageado com a serenata.

Você já fez serenatas? Ou já recebeu alguma? Se eu pudesse, te faria uma. Uma não, várias. Mas não sei tocar instrumento algum, tenho um sério problema de coordenação motora. E sou desafinada. Aliás, acho que neste aspecto sou a ovelha negra da família. Meus dotes musicais foram regiamente distribuídos entre todos os outros. Ou puxei a meu pai. Sabe o que ele fazia na época do namoro com a minha mãe? Começaram a namorar em um velório. Cidade pequena, hábitos antigos, as moças não podiam sair de casa sem a companhia de alguém “responsável”, a não ser que fossem para velórios. Então havia na cidade, entre os jovens em idade de namorar, um eficiente sistema para descobrir velórios onde quer que acontecessem. Não importando se conheciam ou não o morto, iam todos passar a madrugada sob sua tutela. Se isto ainda acontecesse nos dias de hoje, eu ia achar bonito que minha morte servisse de cupido.

Minha mãe me contou que alguns velórios se transformavam em verdadeiras festas. A família enlutada às vezes lançava alguns olhares reprovadores, mas como com certeza alguém deles já tinha usado do mesmo artifício, havia uma grande tolerância, e fingiam não ver os copos de martini com guaraná, alguém chegando com uma galinha roubada que logo ia para a panela, as rodas de piadas de salão e mesmo de música que se espalhavam pelo escurinho do quintal. Foi assim que um dia meus pais começaram a namorar. Já se olhavam havia um bom tempo, mas nunca tinham tido a oportunidade de estarem a sós.

Na noite seguinte, meu pai foi falar com meu avô, falar das intenções, estas coisas. E quando ele estava indo embora, começou a chover. Mas estava tão feliz que mesmo a chuva deu motivos para comemorar. Ajudado por meu tio, que segurava o guarda-chuva, ele, de vitrola na mão, fazia a primeira serenata embaixo da janela da minha mãe. Desde então a música dos dois ficou sendo “Serenata na Chuva”. Já ouviu? Meu pai quase nunca perde a oportunidade de tocá-la novamente. Muitas e muitas vezes eu e meus irmãos já fomos acordados por esta música, em noites chuvosas. Quando não estávamos doentes e a noite era quente, apesar da chuva, nos juntávamos ao meu pai, sob a janela do quarto deles. Minha mãe, lá de dentro, nem se lembrava de pedir que tirássemos os sapatos enlameados antes de entrarmos em casa.

São tantas histórias que eu até me distraio e tenho vontade de emendar uma na outra. Mas eu ia te falar dos três namorados e acabei me lembrando das serenatas; é que para um deles nós fizemos. Quando eu comecei a namorar o C., apaixonada, falando em casar, mesmo que não tão breve, minha avó ficou indignada. Dizia que eu precisava era namorar, muito, com muitos, aproveitar a vida para só então mais tarde saber escolher. Para ela, casar com o primeiro que aparece, em raríssimos casos não é escolha, é condenação. Ela tinha um casamento feliz, deu sorte. Mas tantas eram as histórias de casamentos arranjados, ou nos quais os noivos só se conheciam no dia ou bem próximo ao dia da cerimônia, e viviam infelizes, que eu entendo o medo dela.
Eu não concordo plenamente com isto. Eu queria muito já ter te encontrado e tê-lo como meu único amor. Pouparíamos anos de busca, de enganos, de desacertos. Será que não? Eu acho que sim, que com você eu já teria sido mais feliz. Mas como isso é algo que a gente nunca vai saber, é melhor nem ficar pensando muito. Talvez ainda não estivéssemos prontos um para o outro.

Quando comentei com minha avó que meu namoro com C. não estava bem, ela foi a primeira a me incentivar a terminar logo. Talvez ela já soubesse que não era ele, que eu deveria continuar me prepararando para você. Mas nada de ficar sozinha também, melhor emendar um amor no outro enquanto o coração é jovem, ama e desama e cicatriza fácil. Eu não conseguia me decidir entre W. e J., que conheci em Ibiá, numa destas férias, e minha avó disse que só experimentando. C. nunca podia ir, pois tinha que trabalhar, mas ligava todos os dias, duas ou três vezes por dia. E pode parecer o cúmulo das coincidências, mas um dia aconteceu. W. me esperava na cozinha enquanto eu falava com C. pelo telefone da sala. No portão, minha avó conversava com J. e dizia que eu tinha ido visitar uma amiga. Não, ela não sabia qual. Não, ele não deveria esperar, pois provavelmente eu não voltaria tão cedo; por que não telefonava mais tarde?

2 Comments:

Blogger Jr Punketone said...

E, claro, J. ligou!

3/13/2006 04:30:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Talvez, Lucien, talvez ;-)
Beijos,
Ana

3/14/2006 01:04:00 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home