Confissão #51

Capítulo 7 – Parte IV

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Estou curiosa para saber direito esta história do Zé com a dona Isabel; mas todas as vezes em que toco no nome dele, ela desconversa, referindo-se a ele de uma maneira sempre hostil. Está mais do que claro que ela não gosta nem um pouco que eu converse com ele, e algumas vezes já chegou a dizer isso. Não claramente, mas disse. E sempre repete para eu tomar cuidado. Por aqui todos se conhecem, sabem da vida uns dos outros, e em relação a algumas pessoas, a dona Isabel me deu motivos convincentes para eu não me aproximar. Sempre ouvi, porque tenho o cuidado de conhecer muito bem os lugares para onde me mudo, ou onde começo a trabalhar. Existem algumas regras que só podem ser aceitas ou não depois de bem conhecidas, e a estranha aqui sou eu. Mas em relação ao Zé ela nunca me diz o verdadeiro motivo. Será que os dois já tiveram um caso? Do amor ao ódio é tão perto...

A sala está cheia de papéis coloridos que vamos recortando no formato de bandeirinhas, tiras, flores. Até parece que a festa será aqui dentro. Para facilitar a colagem dos enfeites de papel nas linhas de nylon, elas estão esticadas por todo o ambiente. Adoro este tipo de trabalho. Muito pequena ainda, aprendi a fazer crochê com minha avó, e mais tarde fiz aulas de pintura, tricô e bordado. Quando ainda nem alcançava direito o pedal da máquina, aprendi a costurar com minha mãe, o que tornou minhas bonecas as mais bem vestidas de toda a vizinhança. E também gosto de papier maché, colagens, marcheteria. Não sei se aprendi tudo isso porque realmente gostava, ou se queria mesmo era me exibir. Sempre preferi fazer quase todos os objetos de decoração dos lugares onde morei. Cortinas, luminárias, panos de prato, toalhinhas, quadros, flores de seda, porta-velas, caixas. Raramente comprava algo, para não correr o risco de alguém ter igual. Roubava uma idéia daqui, outra dali, misturava as técnicas e tinha sempre minhas criações exclusivas.

A dona Isabel não tinha muito jeito para trabalhos manuais, mas ajudava riscando e recortando sobre os moldes, passando cola, estas coisas mais simples. Na verdade, às vezes mais atrapalhava do que ajudava, mas eu queria que ela ficasse ali, precisava arrumar um jeito de falar sobre o Zé. Aliás, eu o convidei e ele disse que não vem.
- Dona Isabel, será que se eu convidar o Zé, ele vem?

Fingi indiferença, as mãos ocupadas em montar as fogueirinhas de palitos de fósforo que enfeitariam todas as mesas. Aquele enfeite estava ficando muito bonito, e no centro dele, em meio a algumas tiras de papel de seda amarelas, alaranjadas e vermelhas, fazendo as honras do fogo, ainda colocaria um minúsculo ventilador para manter a chama tremulante. Ou talvez nem precisasse, porque aqui o vento é uma constante. Olhei com o canto dos olhos e a dona Isabel também não tinha parado de recortar o papel de seda.

- Acho que não. Mas se eu fosse a senhora nem corria o risco de convidar.

- Por que não? – fingi não entender.

- Porque vai que ele aceita!

- Mas se eu estou convidando é porque quero mesmo que ele aceite.

A dona Isabel se impacientou, largou os óculos dentro da caixa onde ia colocando as tiras que papel que recortava e se levantou.

- Vou tomar um copo de água, a senhora aceita?! Nem parece inverno, esse calor – abanava-se e passava a mão sobre a testa. – Também podem ser os calores, já estou na idade.

Qual seria a idade da dona Isabel? Eu nunca perguntei, mas calculava em torno de cinqüenta e cinco anos, por aí. Talvez até mais; os negros sempre aparentam menos idade. Ela ainda era bonita, quase nenhuma ruga no rosto, os cabelos provavelmente pintados para esconder os fios brancos que já deviam ter aparecido. Eu gostava do porte dela; alta, bem mais alta do que eu, a coluna sempre ereta, o rosto erguido. Não sei muita coisa sobre sua vida, pois, se não pergunta da minha, também não me sinto à vontade para perguntar da dela. Sei que tem duas filhas, que moram no continente; “no continente”, como ela sempre diz, com muito orgulho. “Porque aqui moça não arranja futuro!”

- Dona Isabel, quantos anos a senhora tem?

- A senhora tem a idade da minha filha mais velha. Ela nasceu quando eu tinha dezesseis anos.

- Quarenta e oito?! – espantei-me.

Pela lógica, esperava mais. Minha mãe era mais velha do que ela e parecia bem mais nova.

- Pareço ter bem mais, não é?! A vida vai roubando os anos da gente...

- Não... – eu não sabia o que dizer. – É que a senhora se casou cedo, né?!

- Aqui, minha filha, quem não tem estudo não tem muita opção. Por isso que fiz questão que as minhas filhas fossem para o continente, para estudar. Marido não garante futuro de ninguém...

Ela nunca me falou do marido. Nunca falou sequer onde mora. Quando acordo, ela já tem feita a maior parte do serviço, em silêncio; nunca fui acordada por barulho algum. E do mesmo jeito que chega vai embora, um pouco antes de anoitecer. Acho que morava aqui na casa e, quando eu cheguei, ela se mudou. Foi uma das coisas que eu pedi ao proprietário, porque queria ficar sozinha.

- O que o marido da senhora faz?

- Tomava conta de uma casa lá do outro lado da ilha – fez o sinal da cruz e continuou. – Que Deus o tenha! Já se foi há tempo...

Percebi que se comoveu.

- A senhora quer alguma coisa da cozinha? – perguntou.

- Não quero nada, não. Obrigada.

Acho que vi os olhos dela se encherem de água, antes de sair apressada para a cozinha, de onde logo em seguida veio o barulho de louça se quebrando. Ela nunca tinha quebrado um copo sequer antes. Nem praguejado.

- Ô, Diacho!!! – descarregou uma grande raiva, como um desabafo.

Voltou minutos depois, trazendo os cacos em uma pá, para me mostrar.

- Foi louça ordinária, dona Ana, do dia a dia. A senhora me desculpe, e se quiser pode descontar do meu salário.

- Não vou descontar nada não, dona Isabel. Aliás, esta louça nem é minha – ela sabia disso, era louça da casa. – Além do mais a senhora nunca quebrou nada; acontece. Desculpa ter tocado naquele assunto, tá? Eu não sabia...

- Do finado?! Já me acostumei, faz muito tempo. E eu nem sei porque ainda falo que Deus o tenha.

A expressão do rosto dela contrariava as palavras. Achei melhor mudar de assunto.

- Dona Isabel, por que a senhora não joga isso no lixo e vem me ajudar a fazer a lista de convidados?

Eu estava morrendo de medo de ter todo aquele trabalho e ninguém vir.

- As pessoas que a gente não encontrar neste fim de semana, será que podemos deixar o convite com os caseiros?

A dona Isabel é nativa, conhece todo mundo pelo nome e pelo sobrenome. Aliás, esta é uma coisa a que não consigo me acostumar aqui. As pessoas se referem aos outros, e até a si mesmas, quando se apresentam, usando nomes e sobrenomes. Assim mesmo, no plural, porque quase nunca é menos de dois nomes e dois sobrenomes. Não gosto muito disso, da forma como o fazem, do tom que imprimem à voz. Até parece que foram eles próprios que fizeram estes sobrenomes que ostentam com tanta pompa e circunstância. Mas o que pode ter feito um adolescente de quinze, dezesseis anos, para honrar o sobrenome? Nada! Provavelmente apenas se gaba dos feitos de pais, avós, bisavós, tataravós e de outras gerações das quais não têm a mínima idéia de quem terão sido. Mas juro que vou tentar ser menos implicante, pois quero que esta festa dê certo, com todos os nomes e sobrenomes a que ela tem direito.

- É cada nome que não acaba mais... – comentei.

- É, aqui cada nome dá um livro. Só a gente aqui da ilha mesmo é que não tem. O da senhora também é curtinho, não é?!

- É sim, dona Isabel. Acho que estou mais pra gente aqui da ilha.

Rimos juntas, melhorando um pouco o clima pesado que tinha ficado depois de eu tocar no assunto do marido dela.

- Mas tem gente boa também entre os veranistas. Quem sabe a senhora não arranja até um namorado? Vou fazer a trezena de Santo Antônio nessa intenção.

- Faz não, dona Isabel, estou muito bem sem namorado.

Fiquei imaginando o que ela pensaria se soubesse da minha espera. Será que Santo Antônio também apressa pessoas que demoram a chegar? Quem sabe ele não te traz para a festa?

- Mas a senhora é nova, bonita, tem mais é que namorar muito.

- Ih... Até parece a minha avó falando. Mas já fui muito namoradeira, viu?

- A senhora vai ver, vai conhecer um moço bom na festa. Quem sabe até não casa e fica por aqui mesmo?

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