Confissão #49

Capítulo 7 – Parte III

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Será que falo demais sobre mim? Ou sobre o Zé? Mas sobre o que mais eu poderia falar? Acontece que certos tipos de assuntos não se dão a monólogos. E também quando você chegar eu não sei se vou querer conversar muito. Pelo menos não nos primeiros dias. É que parece que eu já sei tanto de você... Deve haver um elo, uma ponte, uma onda como a que liga as rádios aos aparelhos receptores e que nos permite trocar informações. Ou melhor, sensações. Eu te conheço muito melhor através das sensações que provoca em mim. São elas que me fazem te entender e responder. Eu sei que respondo com palavras, que vou falando, falando, falando, contando de mim, da minha vida, das minhas impressões. Mas é para que estas palavras se transformem em uma outra coisa qualquer. É para que quando eu falar beijo, você o sinta. Quando eu disser abraço, você se deixe envolver. Quando eu comentar da saudade, você a receba e a mande de volta para mim.

O Zé hoje me contou mais uma parte da história dele com a Mercedes. Aliás, Lorelei, o nome artístico que arranjaram para ela. E o nome do Zé... Zéfiro. Estranho, não é? Sempre pensei em José, mas Zéfiro é muito mais apropriado. Principalmente quanto ao “firo”. Bem, lá vou eu de novo embarcando numa montanha-russa e dando voltas e mais voltas, antes de aterrisar novamente nos assuntos sobre os quais começo a conversar. Ele me falou dela com tanto carinho, com tanta saudade, que senti ciúmes. Não do Zé, mas do sentimento dele por ela. Às vezes fico pensando se ele é mais feliz do que eu ou se é melhor viver assim, antes de te conhecer. Além do sentimento, como é o meu caso, ele tem a lembrança. Você acha que um amor tem que ter passado? Não sei, talvez o passado deva ser inerente aos amantes, não ao amor. Aliás, como já te disse, acredito que o amor não deve ter nem futuro. Deve ser um presente. E pronto.

Lembra-se daquela minha teoria sobre amar ser como se atirar de um trapézio e confiar que o outro vai estar lá, para segurar a sua mão? Foi depois que assisti a um filme chamado “Asas do Desejo”, onde um anjo de verdade se apaixona por uma trapezista, abdicando da sua condição de anjo para poder sentir de verdade o que é o amor entre iguais. Este filme me marcou muito, pois foi o primeiro a que assisti assim que me mudei para São Paulo. Hoje estava conversando sobre isso com o Zé, porque o filme se passa em Berlim, onde ele conheceu Lorelei. Pelas datas, se não me engano, primeiro ele a conheceu, e só alguns anos depois o filme foi lançado. O Zé me disse que se apaixonou logo por ela, que poucos dias depois de começarem a trabalhar juntos já não pensava mais em arrumar outro mágico. Não porque tivesse passado a gostar mais; muito pelo contrário, era cansativo conciliar os ensaios e as apresentações com a administração do circo. Mas para mantê-la por perto ele se percebeu capaz de fazer qualquer coisa. Até deixar de ser anjo também, como no filme. Ficamos conversando então sobre as coisas que as pessoas fazem por amor, as voltas que a gente faz o mundo dar só para não sair do lugar e estar sempre junto do ser amado. Eu já te disse que por você eu saltaria, assim que te visse, e o Zé disse que eu já fiz isso, que saltei quando larguei tudo e vim pra cá, te esperar. Eu não cortei – eu nunca cortaria, nem mesmo por você, e saiba que isto não é uma forma de desamor -, apenas podei minhas asas para ficar quieta aqui, esperando seu salto alcançar o meu.

Outro dia te conto o que eu acho que vi no jardim. Hoje ando às voltas com os seres especiais, e isso é bom. Os anjos de Berlim, a sereia do Reno. Eu já tinha lido um poema sobre esta história, a da sereia Lorelei, mas foi outro poema ouvir o Zé contar o que viu. O circo ainda ficou alguns dias pela Alemanha e ele disse que já estava fascinado “por aquela mulher introspectiva, de grandes olhos e longos cabelos negros, com corpo de serpente, triste, mas que parecia outra quando entrava no picadeiro, sempre sorrindo”. Por que será que a gente sempre se lembra do sorriso do ser amado? Já percebeu isso? Será que é para acreditarmos na nossa capacidade de fazer alguém feliz? Bem, deixa para lá. Como eu ia dizendo, Lorelei conhecia bastante a Alemanha, já estava ali havia quase quatro anos. Então o Zé pediu que ela o levasse ao lugar do qual tinha gostado mais. Todo o pessoal já havia embarcado para o próximo país onde o circo se apresentaria, e eles foram sozinhos a um passeio pelo Reno.

O Zé me disse que morria de desejo, mas que nunca a tocou, e nem faria isso enquanto pagasse um salário a ela. Bonito ato, não é? Precisava ver a cara dele quando me falou das pernas dela, “as coxas grossas que fariam fortuna enrolando charuto em Cuba ou em qualquer outro lugar do mundo”. Mesmo não tendo sido contratada para os serviços que ela estava acostumada a prestar, desde que a relação dos dois envolvesse dinheiro, ele a respeitaria.

Leva-me ao Reno qualquer dia, meu amor? Ele me descreveu as paisagens e eu gostei muito do que imaginei ver. O rio serpenteando por entre encostas verdes, as vilas tranqüilas seguindo as margens, os castelos centenários do alto das montanhas, assistindo aos passeios dos barcos. Eles pararam em algumas vilas e visitaram os castelos. Muitos eram apenas ruínas, mas outros eram verdadeiros túneis do tempo, de volta à Idade Média e aos costumes de então. Mas o Zé disse que ficou mais encantado ainda quando chegaram ao Rochedo de Lorelei e Mercedes contou a ele todas as lendas que existiam sobre a sereia do Reno. Recitou todos os poemas, cantarolou as músicas. O Zé disse que foi como se o fantasma de sereia do Reno tivesse de novo emergido das águas e roubado sua alma, seu corpo, sua mente, seu coração. E então já não havia outro nome possível para ela a não ser Lorelei, a mais bela e poética ajudante de mágico de todo o mundo.

Eu também queria te en-cantar. Aqui perto do mar eu posso tentar ser Janaína, Iemanjá. Gosta de jANAína? Eu gosto de brincar com as palavras. Quando era criança, brincava de Dicionário com meus pais. Um de nós abria o dicionário em uma página qualquer, escolhia a palavra que achava ser a mais difícil e os outros tinham que adivinhar o que ela significava. No início parece complicado, mas depois esta brincadeira fica sendo que nem as palavras cruzadas, a gente já sabe mais ou menos como são feitas. Para mim foi uma grande descoberta aprender que a maioria das palavras têm lógica própria, que são formadas por vários pedacinhos com significados que sempre se mantêm. E a gente pode ir juntando-os para formar novas palavras, que têm sentidos diferentes. Já me livrei deste vício, mas por causa do jogo eu também tinha o hábito de pontuar as palavras, separando prefixos e sufixos.

Quando este jogo começou a ficar fácil demais, inventamos outro, o “Jogo do Desdicionário”. Falávamos então um sentido e os outros tinham que inventar uma palavra que transmitisse aquilo. Sabe que até fizemos um livrinho, o “Desdicionário Gonçalves?” Com as despalavras que inventávamos. É por isso que às vezes eu invento algumas quando falo com você. E acho que vou inventar muitas mais, porque não quero que seja chamado só de “amor” o que sinto, e este sentimento também há de constar dos desdicionários.

Contando estas histórias, acho que já sei o que você vai dizer. Que mesmo querendo ser Janaína para te encantar, eu tenho mais é talento para Sherazade, não é mesmo?! Além do mais, nem sei cantar mesmo. Sei contar. E perguntar. E por falar nisso, deu vontade de te perguntar uma coisa. Nada importante, nada que vá mudar a ordem do que sinto por você, que para mim é assim: amor – tesão – confiança – carinho – respeito – admiração – saudade – espanto - cuidado. Mas você sabe de cor a ordem dos planetas a partir do sol?

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