Confissão #48

Capítulo 7 – Parte II

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Já gostei muito daquela avenida. Foi o primeiro lugar que quis visitar quando, por conta própria, coloquei os pés na cidade, um dia antes do vestibular. Já conhecia São Paulo em excursões com colegas de escola, ou de passagem rumo à praia. Sentia-me perdida, mas fascinada pela sua constante e caótica movimentação. E lá estava o centro propulsor de tudo aquilo, a Avenida Paulista, com seus prédios apontando para o alto, muito alto. Tão alto quanto os meus sonhos me permitiriam chegar.

Eu gostava de ver a Paulista durante as manifestações populares. A avenida sede das maiores empresas do país, das filiais das maiores do mundo, dos bancos mais ricos, das associações de classe, dos inúmeros conjuntos comerciais, dos grandiosos casarões remanescentes do tempo dos barões do café, das mais bonitas estações de metrô, toda ela invadida por milhares de pessoas. A Paulista ficava paralisada, tornava-se vulnerável. Era palco preferido para qualquer tipo de protesto, que acontecendo ali não teria como ser ignorado. Seus reflexos seriam sentidos em grande parte da cidade, porque a Paulista deixava de fluir. Era ali que todos se reuniam para anunciar greves, reivindicar melhorias, segurança, aumento de salário, decoro político. E também para pular carnaval, comemorar vitória em jogos de futebol, divertir-se em feriados nacionais. Uma multidão festiva e barulhenta, alheia à verdadeira vocação da avenida, contrastando com a sisudez de empresários e executivos, com a modernidade e altivez dos edifícios. Foi por ali que eu quis entrar em São Paulo, os pés percorrendo a calçada e os olhos subindo pelos arranha-céus.

Pouco tempo depois, já morava na Consolação, bem de frente à Avenida Paulista. Na verdade, na Ilha, um ponto bastante conhecido da cidade. Era um quarteirão atípico, normal no comprimento, mas muito estreito, apenas com espaço suficiente para as construções voltando-se para um lado da rua. Não existia rua de trás; a Ilha, o apinhado de prédios cercado de avenidas por todos os lados, era circundada por uma rotatória ovalada. O apartamento era grande, típico de prédios antigos, dois por andar e dispostos lado a lado. Então, da janela da sala eu via a Paulista; da janela dos quartos, a Dr. Arnaldo; do lado direito, vista da janela da área de serviço, a Consolação levava ao centro da cidade; do lado esquerdo, a Rebouças descia para os Jardins. E ainda começavam na rotatória a Alameda Santos e a Avenida Angélica. Para mim, a Ilha significava uma confluência de vários caminhos abertos para o alcance de todos os meus sonhos. E eram muitos. Eu ficava longas horas dividindo a cobertura do prédio com uma enorme antena de rádio, olhando a cidade e fazendo planos. Nenhum era impossível, muito pelo contrário, todos pareciam fáceis demais.

Tempos bons aqueles. De manhã ia para a faculdade e à tarde estagiava em uma grande agência de publicidade. À noite, dava algumas aulas de inglês ou ficava em casa, onde não faltava movimento. Morávamos em quatro meninas, todas amigas do tempo de colégio e fascinadas com a cidade grande, com a liberdade e com as possibilidades que se abriam, profissionais e afetivas. Durante um bom tempo, eu não participava ativamente do que chamávamos de “ir à caça”; ainda estava um pouco traumatizada por causa de C.. Embora nunca deixasse de participar das conversas e dar meus palpites nas conquistas alheias, e até pensasse em como seria bom se me aparecesse um príncipe, lindo, inteligente, sensível, romântico, cavalheiro, equilibrado, apaixonado e, se não fosse pedir muito, rico. Bem, o rico era para ele não se sentir desvalorizado quando eu também ficasse. Era como eu pensava, que ali enriqueceria. Mas nas noites em que as meninas saíam, e mesmo nos finais de semana em que viajavam, eu preferia ficar em casa. Era boa a agitação, o estado de ânimo em que me mantinham, as visitas sempre constantes que recebíamos, as festas que dávamos. Mesmo assim, com os últimos acontecimentos e contaminada pelo espírito da cidade, eu estava fechada para balanço. E aproveitava meu tempo sozinha para ler, escrever, estudar, trabalhar e, sobretudo, pensar.

Acho que sempre tive uma necessidade muito grande de vencer na vida, de ser a melhor em tudo, a profissional mais competente e mais promissora. Estava ali a minha grande oportunidade para começar a colocar em prática tudo isto. E então achei pequeno demais o espaço que me era destinado no apartamento; tinha a necessidade de mais tempo comigo mesma. Houve uma festa em que isso ficou muito claro, a minha solidão às avessas. Por mais que tentasse, e mesmo tendo fumado e bebido, eu não conseguia entrar em sintonia com ninguém ali presente. Pode ter sido efeito da maconha, mas me senti mais deslocada do que nunca, as pessoas todas parecendo personagens, figuras tiradas da minha imaginação. Pelo menos para mim, eu era real demais para estar ali, em meio a elas. A princípio achei que isto passaria junto com a larica, mas senti aumentando a cada dia a sensação muito real de não pertencer mais ao lugar, de ter que abandoná-lo antes que as outras pessoas percebessem isso, antes que as meninas notassem que não era verdade que eu me sentia à vontade, que eu gostava da casa cheia, que eu não me importava de dividir meu quarto e minhas coisas, que eu achava normal que só estudassem e se divertissem. No fundo, acho que eu invejava este descompromisso delas. Será que isto ainda se adquire a tempo suficiente para aproveitar enquanto se pode?

2 Comments:

Blogger Virginia Pereira said...

Olá Ana Maria, cheguei aqui através de uma antiga coluna do Gravatá que selecionei hoje (um montão de coisas velhas, sabe né...)e achei linda a foto e a sua história com o Idelber (cheguei lá no blog dele e está suspenso, por que??. E VIVA O AMOR!!!! Tomara que esteja tudo maravilhoso para voces, e adorei o blog dos dois com posts e links maravilhosos!!
Se puder me visite, vou adorar, e faço parte da torcida junto com o Gravatá, que acompanho semanalmente e pelo blog!!
Sabe, na blogosfera encontramos coisas não muito construtivas, que quando encontramos...nem queremos ir embora!! Um beijão, bom final de semana!

3/10/2006 01:03:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Olá, Virgínia, seja bem-vinda, ainda mais se vem pelas mãos do capitão Gravatá ;-)
Esse início de semestre está bem complicado para o Idelber, questão de tempo e prioridades. Mas é claro: Viva e amor! Sempre e para sempre!
Beijos e bom fimd e semana,
Ana

3/10/2006 02:47:00 PM  

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