Confissão #47

8 de março - Dia Internacional da Mulher - Confesso que não gosto muito de datas desse tipo, que ficam mais com cara de "reparação" do que de qualquer homenagem. Mas se serve como mote para colocar duas poesias da madrinha, está valendo.


Todas as Vidas

Cora Coralina

Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira. - Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada... Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida - a vida mera das obscuras.!

*****


Mulher da Vida*

Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.

O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

Mulher da Vida, minha irmã.

No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.

E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrurível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.

Mulher da Vida, minha irmã.


*Poesia feita para o Ano Internacional da Mulher - 1975

10 Comments:

Anonymous Leila said...

Ana, mas o Dia Internacional da Mulher não foi criado como homenagem, mas sim como dia de luta. Claro que a gente celebra o prazer de ser mulher, mas sempre enfatizando o que ainda precisamos fazer para combater as desigualdades de gênero.

Bem, mas a poesia foi muito bem escolhida para comemorar a data. Beijão,

3/08/2006 08:38:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Você tem razão, Leila, é que me parece uma data que já está tão longe dos propósitos originais, como Natal, ou até mesmo Dia das Mães e Dia dos Pais, com tantas propagandas de "compre-isso, compre-aquilo para homenagear as mulheres da sua vida", que nem sei se faz efeito contrário ;-)
A mim, pelo menos, já parece uma data comercial. Mas tudo acaba sendo motivo para poesia, não é? ;-) Arma das mais afinadas...
Beijos,
Ana

3/08/2006 10:54:00 PM  
Anonymous Leila said...

A Denise Arcoverde fez um post sobre isso antes, mostrando o absurdo de propagandas em comerciais e novelas, para vender produtos como secadores de cabelo, máquinas de lavar e roupas para o Dia Internacional da Mulher. É uma forma de banalizar e tirar a força da data, transformando-se numa mera condescendência...

3/09/2006 07:20:00 PM  
Anonymous Leila said...

em vez de antes, eu quis dizer "ontem".

bjs

3/09/2006 07:20:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Os poemas de Cora estão bem mais próximos do que seria um Dia da mulher significativo, pois as mulheres que ela retrata são maioria neste mundo.

3/10/2006 01:14:00 AM  
Blogger Desiree said...

amei as suas confissões e me senti nela, já que estou tão pertinho do universo descrito

3/10/2006 03:16:00 AM  
Blogger Desiree said...

qto a data, as impressões são outras e concordo com vc... dia 08 de março virou qquer coisa que não era para ser

3/10/2006 03:17:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Leila, fui ler o post da Denise e infleizmente é isso mesmo. Eu não sei se aí nos EUA é diferente, mas aqui no Brasil a coisa está feia mesmo, e já faz alguns anos. A ironia das ironias são os anúncios de fogão, panela, eletrodomésticos etc... E não são apenas os homens, disso me lembro bem da época em que trabalhava com publicidade, e neste último domingo vi vários anúncios pró-consumo de uma grande rede de varejo fundada e conduzida por mulher. Enfim...

3/10/2006 01:20:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Pois é, Sônia, ela tinha aquele jeito assim de falar por ela e servir para todo mundo, não é?
Beijos,
Ana

3/10/2006 01:26:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Bem-vinda, Desiree, e obrigada.
Beijos,
Ana

3/10/2006 01:28:00 PM  

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