Confissão #45

Capítulo VII - Parte I


Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


- Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão – repetimos juntos, achando engraçado que o outro também sabia. – Nossa! Você também sabe?!
- Nunca esqueci – respondeu o Zé –, e também sei contar até dez em mais de vinte línguas.
- Bem, eu não vou pedir para você contar, porque não vou saber se está certo. Mas muitas vezes, quando eu falava que me lembrava da ordem dos planetas, tinha que provar.
- Acho que eu sempre soube para me localizar – ilustrou a frase com um gesto abrangente, os braços erguidos e movimentados lentamente de um lado a outro, passeando por todo o céu e depois parando sobre a própria cabeça.
O Zé era quase sempre teatral. A maioria de suas histórias, e algumas frases, eram acompanhadas por gestos e expressões faciais que não negavam suas origens circenses, seu gosto pelo espetáculo.
- Eu também, é bom conhecer o próprio tamanho.
- Não tem fita métrica em casa não, mocinha?!
- Sabe que nunca reclamaram?! – sorri.
Lembrei-me das vezes em que me disseram que eu tinha um tamanho ideal. Acho as mulheres altas mais vistosas e chiques, e já quis muito ter pelo menos dez centímetros a mais. Mas talvez não me aninhasse tão bem em um abraço, ou em um dormir abraçado, que é mais gostoso ainda. O braço do homem formando um laço em volta da cintura fina que um dia, com quase toda certeza, já teria sido abraçado por um espartilho, por vestidos bem acinturados. Adoro filmes de época, para vestir minhas antigas lembranças com modelos originais.
- Zé, você já se sentiu pertencendo a outra época?
- Outra época?! Acho que não. À outra dimensão, sim. Falta de sintonia, sabe como é?!
- Sintonia com o quê? – perguntei.
Eu também me sinto assim, fora de sintonia. Não sei se é impressão minha, mas tenho a sensação de saber da existência de um lugar, ou de uma época, onde ainda me sentirei em casa. Sinto-me estranha em relação ao que me cerca, como se fosse apenas lugar de passagem. Com as pessoas também não me sinto à vontade. Será que é mesmo assim, que cada um tem um universo próprio que nunca se funde por completo com o universo do outro?
- Com as pessoas, com o mundo. Mas principalmente com as pessoas. É claro que você já notou que não sou bem visto por aqui.
- É, já notei sim.
- Sei que falam que sou louco, e até perigoso. Sabe o que já ouvi sobre mim?
- O quê?
- Que caí aqui vindo em algum disco voador – sorriu, imitando o jeito de andar de um extraterrestre; ou pelo menos a noção que tínhamos de como anda um extraterrestre.
- Você não tem amigos aqui? Nunca teve?
- Para falar a verdade, não faço muita questão. Pelo menos não com as pessoas que moram aqui. Posso perecer pedante falando isto, mas são de um nível diferente.
- É, eu sei. Mas eu gosto de conversar com elas, aprender sobre a ilha, os lugares, a história e as estórias; principalmente as estórias.
- Mas eu já moro aqui há mais de vinte anos, acho que sei tudo o que tinha que saber.
- Mas neste tempo todo viveu sozinho? Sem ninguém para conversar?!
O Zé ficou alguns minutos em silêncio, o que eu pensei ser um tempo de relembrar, e me respondeu com outra pergunta.
- Quanto tempo pretende ficar aqui?
Tive vontade de responder que era até o meu amor chegar. Quanto tempo seria isso?
- Acho que uns três meses, ainda não sei.
- Há uma lenda que diz que quem bebe da água da ilha por mais de três meses seguidos, ou se adapta a ela ou perde o sossego pra sempre; mas daqui não sai mais. Eu acho que perdi o sossego, não conseguiria viver em outro lugar.
Eu também sentia esta magia, a vontade de ficar para sempre. Era como se na ilha, naquele pedacinho de terra, eu estivesse protegida do resto do mundo. Como se problemas não soubessem nadar, as preocupações não soubessem voar e não fossem admitidas em nenhuma embarcação. De início foi um choque, a saída da maior cidade do país, caindo na ilha, onde o número de habitantes não dá para encher nem um bairro de São Paulo. Ou mesmo uma rua residencial com muitos prédios. Não precisava mais me preocupar em marcar compromissos para as horas em que o trânsito era um pouco melhor. Aliás, aqui nem se marca compromissos, fica-se à disposição da vida, da natureza, das marés, das chuvas...
- É, Zé, eu também já não sinto vontade de sair da ilha. Será que ele vai gostar? É tão fácil se acostumar com as coisas boas.
- Eu também já fiz muitos planos de morar aqui com Lorelei. Talvez fiquemos, não sei – desmanchou a expressão pensativa com um sorriso. - Acho que vou dar um jeito de fazê-la beber água todos os dias, durante três meses.
- Onde você mora? – eu não sabia onde era a casa do Zé.
- Pergunte à sua caseira. Ela sabe onde eu moro e também pode responder à sua pergunta sobre eu nunca ter tido amigos aqui.
- A dona Isabel?! – estranhei.
- Sim, acho que é melhor ela te contar.

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