Confissão #43

Capítulo VI - Parte III


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


Respeito. É isto que, acima de tudo, os pescadores daqui dizem sentir pelo mar. E essa noite acho que o mar corresponde. Com a lua brincando de fingir que é dia, dá para ver o quanto ele está calmo. Quase dá para distinguir a linha do horizonte. Será que alguém sabe o quanto do mar nos é permitido ver até que ele se perca na curvatura da terra? Pergunta mais sem propósito, não é? Outro dos meus porquês sem porquê. Quantos acumulados até agora? Se os tivesse escrito todos, com certeza poderiam percorrer em linha reta a distância da dúvida. Talvez até cobrir também o caminho de volta.

Não acho que você vá chegar à noite, mas eu queria que fosse hoje; agora. Só queria dormir e que, quando acordasse, fosse nos seus braços. Que fosse ainda no meio da noite, a janela do quarto aberta e você acompanhando os passos da lua sobre meu corpo. Sem fazer mais nada, apenas acompanhando com os olhos, detendo-se mornamente nas reentrâncias, nas curvaturas, nos montes, nos lados ocultos. E então o meu olhar divergiria do seu, você querendo parar o tempo para se deter naquele instante e eu querendo que o instante durasse para sempre. Acho que estou ficando confusa, um gole de vinho, um trago de lua... Ah, essa lua... Parece a mesma coisa, isso que eu disse sobre os instantes? Como eles sempre foram diferentes para homens e mulheres? Mas não é. Olha só: eu queria que o tempo fluísse, que aquele momento tivesse a duração que corresponde ao para sempre. E você provavelmente estará buscando o tempo estático, querendo que tudo pare ao redor, para que você viva apenas aquele instante. Ou não, será que com você isso também será diferente?

Mas eu sei que, numa noite como esta, você vai me ver como nunca viu mulher alguma. Posso dizer que me sinto bonita? Particularmente bonita. Primeiro, porque se não me sentisse, não me habitaria um sentimento destes, o amor. E quando me sinto bonita assim, tenho urgência de que você me veja. Talvez eu dance para você, não sei... Não, eu danço para mim, esqueço que você está por perto e danço para mim. E porque o amor me habita eu danço mais, e mais, e mais, e canto, até que você me peça pra parar. Porque também começou a sentir urgência de mim.

Sabe que eu acho que o amor é para os narcisistas? Sabe que é só para eles? Eu falo do amor correspondido, porque do outro tanto faz. Mas também não é daquele narcisismo doente, desmedido. Há que se gostar do que se vê refletido no lago para se expor às necessidades do amor do outro. E hoje eu me sinto bonita assim. Lembra da descrição daquele beijo? Sobre o corpo ir existindo somente nas partes que vão sendo tocadas? Hoje me sinto antecipando o beijo, e já existo antes de ele ser dado. É como se eu tivesse captado tudo o que há de belo, todo o amor que vaga sem correspondente pelo mundo, à procura de um corpo para se abrigar. E mesmo que façam de mim morada provisória, não importa, é aqui que estão. Ora agraciando um gesto, ora um manear de ombros, a curva amortecida dos lábios, o contorno da cintura, um jogo de sombras no umbigo. Quase ninguém se detém no umbigo, já reparou? Eu gosto dessa taça cava. Mas sabe onde o sinto mais, onde eu mais tenho necessidade que você beije? Ali um beijo seria capaz de ficar guardado durante milênios. É nesse espaço na base no pescoço, na verdade nesses dois; parecem feitas para guardar seus beijos essas cavidades formadas pela saliência dos ossos do peito. Quantos caberão lá? Um após o outro, eu queria tantos, tanto.

Ah, meu amor, se você viesse agora... Chegaria a tempo de ver meu corpo verbalizar o amor; suspirar, arder, espasmar, ofegar e se abandonar...


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69

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