Confissão #42

Capítulo VI - Parte II


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


C. tinha olhos muito claros, azuis, lindos. Quer dizer, tem. Por que será que a gente fala das pessoas do nosso passado como se elas não existissem mais? Eu tomo muito cuidado com isso, porque não quero me desfazer do meu passado, não quero renegá-lo. É dele as pequenas peças de que sou feita hoje. De muitas coisas me orgulho, de outras me envergonho, mas não as renego. E preciso que você me aceite assim, feita de erros e acertos. Minha mãe um dia me falou de um tipo de amor que é apesar. Há que se amar apesar. Apesar dos defeitos, apesar das discordâncias. O tipo de amor que se baseia nos porquês não sobrevive a um apesar. Entende? Eu não vou amar você porque é inteligente, bonito, carinhoso ou apaixonado. É claro que tudo isso, num primeiro momento, poderá até fazer com que nos aproximemos. Mas amar mesmo, eu vou amá-lo apesar do que não gostar em você.

A princípio, eu não gostava muito do jeito superior com que C. me olhava. Havia a diferença de quatorze anos entre nós, e que parecia ser ainda maior para ele do que para mim. Quatorze e vinte e oito, o dobro ou a metade, dependendo do ponto de vista. Números pares. Por muito tempo brinquei com estes dois números, buscando todas as combinações possíveis, achando-os cada vez mais favoráveis. Eu e todas as meninas da escola. C. era o professor de matemática, matéria que eu apenas suportava. Exata demais para quem está acostumada aos diversos significados das palavras. Mas para impressioná-lo acabei me tornando uma aluna aplicada, o que foi um bom desafio. E também comecei a escrever alguns poemas nas provas, quase sempre alusivos a amores que superavam grandes diferenças. Ele correspondia ao meu interesse, eu tinha certeza. Ele e seus olhos azuis, furtivamente me procurando pela sala de aula e pelo mesmo clube que freqüentávamos.

Acompanhada de alguns professores, entre eles C., minha classe fez uma viagem de quatro dias às cidades históricas de Minas Gerais. E lá, entre o casario colonial, as ladeiras de pedras e memórias ancestrais, as noites impregnadas de histórias e serestas, banhos de cachoeiras e caminhadas por trilhas entre montanhas, eu consegui convencê-lo de que tinha muito mais do que quatorze anos. Na viagem de volta, que durou uma noite inteira, contando com a cumplicidade de algumas amigas, trocamos nosso primeiro beijo. Mas de volta às aulas ele ainda era meu professor, ainda era quatorze anos mais velho, ainda tínhamos que manter tudo em segredo. Acredito que isto até foi um fator que ajudou para que nos tornássemos namorados. Correr riscos, namorar escondido, marcar encontro em locais onde não pudéssemos ser vistos. E assim foi até o final do ano, quando fui fazer o colegial em uma cidade vizinha, pensando na melhor preparação para o vestibular.

Eu era fascinada por C., ele representava para mim tudo o que pode querer uma adolescente. Um homem inteligente, maduro, experiente, lindo, educado, cavalheiro, romântico e, melhor de tudo, apaixonado. Ele disse que até havia tentado, mas que não conseguiu resistir ao que via em mim, uma menina muito mais mulher do que algumas da idade dele, embora negasse isto na aparência. Chamava-me de Borboleta, dizia que eu quase tinha asas, mas não se sentia falta destas por causa da beleza, da leveza e da alegria com que eu gravitava pela vida.

C. foi meu primeiro namorado oficial, depois de ter ido em casa conversar com meu pai e tudo, como manda o protocolo. Meu pai achava estranho o que um homem daquela idade, meu ex-professor, poderia querer com a filha dele, que tinha se tornado uma mocinha mas que nunca deixaria de ser sua menina. E quis dizer a ele que esta menina tinha sonhos próprios, que continuaria estudando, cursaria a faculdade, cuidaria primeiro da vida, e só então pensaria em casamento. Mas estávamos apaixonados e nada disto tinha a mínima importância, fazíamos planos para quando nos casássemos. Tínhamos a plena certeza de que ficaríamos juntos para sempre. Mas sabe quando o sempre chega mais tarde para quem tem quinze anos? E é quase urgente para quem é quatorze anos mais velho?

No início, quando C. falou em casar logo, antes que eu fosse para a capital cursar a faculdade, concordei. Seria maravilhoso ter aquele homem sempre por perto, sempre meu. E comemoramos isto no nosso aniversário de um ano de namoro, a nossa primeira noite juntos. C. duvidou que eu ainda fosse virgem, mesmo depois da prova irrefutável. Eu não sei explicar, mas foi como se eu já soubesse exatamente o que fazer, onde tocar, quando falar e quando calar, o que mostrar e o que esconder. Nada doeu, não tive medo, e da minha primeira noite tenho até hoje umas das mais prazerosas recordações. Também já tinha conversado com minha mãe sobre isso, e embora ela achasse cedo, concordava que eu deveria saber o que estava fazendo. Havia muito eu vinha me preparando, mas queria que fosse um momento especial, uma data que marcasse a passagem das brincadeiras que já fazíamos havia tempo, para a entrega de verdade.

Desde que tive a certeza de que seria com muito amor, comecei a tomar pílula, pois poderia acontecer a qualquer momento. E gravidez seria a última coisa com que eu queria me preocupar, embora fizesse planos de ter muitos filhos. Mas eu então só queria sentir e dar prazer, desfrutar do momento maravilhada com a possibilidade de me olhar no espelho logo depois e ver a transformação: mulher. Nenhuma mudança, nada que dava para se notar, mas C. me fez sentir muito especial. A mais especial de todas as mulheres do mundo.

Quando completamos dois anos de namoro, C. queria ficar noivo; mas eu ainda achava cedo. Ele disse então que me daria um presente maior do que um noivado, e como eu já era emancipada desde os quatorze anos – eu precisei, para poder ser registrada na escola onde ensinava inglês para crianças –, abriu em meu nome, e em segredo, uma loja. Eu relutei muito em dizer que havia adorado a surpresa, mas que não saberia como cuidar dela. E depois também, dentro de pouco mais de um ano estaria de mudança, para cursar a faculdade. Brigamos pela primeira vez, com C. tentando me convencer a pensar melhor se uma faculdade seria realmente necessária, se eu não tinha vontade de me casar logo e ficar com ele.

Se há o tal momento em que acontece o desencanto, quando se vê o ser amado diferente de tudo o que ele aparentava ser, aquele foi um deles. C. queria trair os nossos planos. E eu sabia o que poderia acontecer se ele tentasse podar as minhas asas. Eu perderia o viço, as cores... Eu perderia C., pois não seria mais sua Borboleta. Seriam as asas que me fariam sempre estar por perto; sem elas eu iria para um lugar longe demais, perdida até de mim. Ele não entendia que seria assim, mas eu sabia. Seria um preço alto demais a pagar para ver, e muitas vezes terminei aquele namoro. E tantas quantas voltava, mas sempre impulsionada por sentimentos que não são dignos de alguém a quem se quer por companhia. Carinho, culpa, pena. Depois do sequestro, seria por medo. E a ele não me submeti.


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69

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