Confissão #41

Capítulo VI - Parte I


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


Estranha a afinidade que tenho com o Zé. Às vezes, acho que é algo maior e não apenas coincidências. Esta história do circo ligada à minha fixação por trapézios, por exemplo; e agora um codinome tcheco, sendo que um dos lugares que eu mais quero conhecer é Praga. Em algumas circunstâncias tenho medo dele sim, mas não por causa da loucura, sobre a qual todos falam. Tenho medo por causa da impressão de que ele lê meus pensamentos, de que ouve estas conversas que tenho com você. Senão, por que é que falaria da lua cheia de hoje, sendo que ontem te contei que esperava ansiosa pela nossa primeira noite de lua cheia aqui?

Talvez sejam apenas coincidências mesmo, e eu fico imaginando coisas, embalada por esse vinho, essa lua... Será que você também a vê, neste momento? Se já me ama tanto quanto te amo, eu posso afirmar que sim, que não há como fugir. Ela tem o poder de atrair os olhares dos amantes quando eles não sabem em que direção lançá-los. Olhares que buscam outros olhares. Talvez a lua até seja o maná dos guiados por Moisés. Para quem ama, ela tem o sabor dos lábios do amado, a textura da sua pele e o mesmo brilho dos olhos.

Lua abusada... Não parece ser de excitação que ela se treme inteirinha, ondeando no mar? Como um corpo molhado sendo percorrido pelo sugestivo quase-toque da mão amante. Muito de leve, à milimétrica distância do contato, uma brisa suave arrepiando a pele. De falta ou de ânsia pela pressão. E num intervalo entre uma onda e outra, a respiração suspensa, o ventre encolhido... A calmaria... E depois ela parte, toda cheia de si, cobrindo o mar com um manto de escamas prateadas. Nas noites que não têm lua, o mar simplesmente desaparece. Se não há o sobe-e-desce da luz de um barco solitário ou um farol que sirva de salva-vidas, o mundo se afoga nas trevas lá adiante, antes que céu e água se fundam.

Desculpe se divago; talvez seja a mistura de vinho e lua cheia. Será que você é capaz de imaginar o que a lua faz com as mulheres? Cheia assim, ela nos deixa tão grávidas quanto ela. A alimentar amores e a parir desejos. Mexe com nossos ciclos, confunde nossos hormônios. A lua quer transformar nossas mãos em instrumentos de navegação, indicando a direção, a força, o movimento... E eu resisto, porque quero esperar por você. E é aí que entra o vinho. Mais uma coisa sobre as pontes de Praga, a ponte Carlos: sabe que dizem que ela nunca cairá? Acrescentaram vinho à argamassa. Eu não sabia das propriedades edificantes do vinho, sei apenas deste torpor. Posso te contar um segredo bobo? Sempre que bebo vinho, além da segunda ou terceira taças, sinto vontade de passar batom. Isto não acontece com outra bebida, só o vinho me amortece os lábios, ao invés de edificá-los.

Ai, meu Deus, que alegria é essa mais sem motivos? Parece não vir de mim, mas de você. Tanto não é minha que tenho a sensação de tê-la roubado e de que a qualquer momento vai aparecer alguém pedindo-a de volta. E então esse alguém vai se colocar sob o holofote desta lua e fará sermões, e falará de punições severas, do destino reservado aos que roubam a alegria dos outros. Eu quase já posso ouvi-lo. E então vou precisar de outro alguém que me defenda, que me salve de ter alegrias sem ter motivos. Como é que vou explicar que posso ter pego a sua alegria porque a minha está com você, se nem te conheço?

Já me senti assim algumas vezes, quando eu ainda não sabia que felicidade, para que os outros a reconheçam, precisa ter identidade própria. Sabe aquilo de nome, endereço, fotografia e um número de ordem, na ordem dos motivos que fazem feliz? Agora não, já sei que precisa ser coisificada. Dê-me então um motivo, uma coisa qualquer. Eu ainda tenho comigo várias coisas que sei serem mais suas do que minhas. Clandestinidades, das quais estou apenas tomando conta. Talvez sejam estas que eu não sei prender em palavras. Por exemplo: desejo. Como dizer do desejo? Não há. Quando se fala em desejo o corpo apreende uma linguagem própria, que, mesmo não sendo do conhecimento de ambos os envolvidos por ele, um saberá exatamente o que o outro quer dizer. Não há espaço para mal entendidos entre um corpo que adere a outro corpo, o encaixe perfeito, yin&yang.


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69

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