Confissão #39

Capítulo 5 - Parte IV


Os anjos não cruzam pontes


Muitas vezes eu me imagino passeando pelas pontes que cortam Praga. Indo e vindo de um lado para outro, sem motivo algum, apenas para ir e vir. Embalada pela descrição do Zé, tenho vontade que você segure minha mão e passeie comigo pela rua das casas de boneca, pelo lusco-fusco das pontes, sob os olhares petrificados dos profetas esculpidos por Aleijadinho. Eu sei que não são, mas parecem. Dão àquelas pontes um ar de familiaridade, como se eu voltasse à infância, às minhas Minas Gerais das montanhas e dos vales, dos rios e das pontes. Minas só não parece uma cidade – aliás, um estado - de bonecas, como Praga. Mas profetiza.

Acho que de tanto ficar em cima das pontes, olhando os rios da minha infância, estou acostumada a me comportar como elas. E é por isso que preciso da sua mão, para que você caminhe junto comigo e eu não corra o risco de me sentir tentada, mais uma vez, a ser ponte. Há algo de muito injusto na classificação das pontes, que para alguns servem para unir, enquanto que para outros, separam. Já prestou atenção aos noticiários, quando falam das pontes? Se vão falar algo de bom, dizem “a ponte que une tal a tal lugar”; e se é algo de ruim, a “ponte que separa isto daquilo”. E no entanto elas apenas estão lá, edificadas ao acaso dos acontecimentos.

Tenho a sensação de que muitas vezes também fui usada, ao acaso. Faz-se a travessia, chega-se onde se quer, e eu fico abandonada. Nem à terra, nem à àgua, mas no meio do caminho, mera travessia. Talvez eu tenha sido ponte até há bem pouco tempo, quando percebi que meu lugar é sob elas, fluindo, correndo ao seu encontro, juntando minhas margens às suas margens. Sempre admirei o comportamento das águas, tomando todo o espaço que podem preencher, aderindo às formas que as contêm. Conter apenas no sentido de abrigar, porque quando não querem não se dão, jorram e se derramam sem serem jamais contidas.


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- O mais difícil era fazer desaparecer. Neste número eu sempre falhei, nem comigo eu consegui.

A voz do Zé me trouxe de volta à tona. Mergulhada nas minhas pontes, eu tinha parado de prestar atenção ao que ele dizia sobre as pontes em geral. Se é que chegou a dizer, não sei... Provavelmente sim, lembro-me de ter ouvido algo sobre a Carlos VI. E depois ele deve ter retornado às mágicas, e então passou à tentativa de suicídio. De certos assuntos eu me abstraio, como desse. Já tinha percebido as marcas; evitava mesmo olhar para elas, para que ele não se sentisse abrigado a comentar sobre o assunto, se não tivesse vontade. Deve ter percebido que naquele momento eu ia longe, e aproveitou para me inteirar do assunto. Impaciente, esfregava os pulsos um contra o outro, roçando as feias cicatrizes que acompanhavam de fora a fora a linha que separa mãos e braços. Olhava longe, e continuou falando:

– Por mais que tentasse, nunca consegui atravessar uma ponte para o além. E isto é uma das coisas que me faz pensar que ela ainda vem, que ainda está do lado de cá. Ela vem por ali.

Num gesto abrangente, o “por ali” mostrava todo o mar à nossa frente. Hoje revolto, de um azul cristalino, mas revolto. Sinal de que ainda teríamos alguns dias de tempo bom, mas em algum lugar, não muito longe, ele, o mar, já era castigado por uma tempestade.

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

E reler esse seu livro me traz de volta muita coisa, os livros que lemos também marcam épocas, já reparou?
Assim como filmes, canções, roupas...
Podia começar um texto assim:
Nessa época lembro que eu lia aos pedaços "Ao lado e à margem do que sentes por mim", lia não, sorvia junto com fim do verão e o começo do outono...
Beijos e lá estou eu falando muito de novo...

2/17/2006 06:46:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Pois é, para mim também existem livros que me trazem muitas recordações. Esse, principalmente as do tempo em quem foi escrito, uma parte olhando Salvador, de Itaparica, e outra parte olhando Itaparica, de Salvador ;-)E, no meio, aquelas nossos telefonemas ;-)
Beijos,
Ana

2/19/2006 04:44:00 PM  

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