Confissão #38

Capítulo 5 - Parte III


Os anjos não cruzam pontes


Sim, talvez anjo seja melhor, mais acostumado às asas. Para mim elas vão estar sempre ligadas ao sagrado, o mesmo conceito que tenho de liberdade. Queria que você chegasse usando asas, as suas asas, já gastas. Queria que nunca as guardasse, que as cultivasse como um viajante cuida do passaporte em um país estrangeiro. Para mim, o amor é assim, poder ir embora a qualquer momento; mas querer ficar. Por isso eu não me caso, negando toda a minha criação católica. Não seria capaz de jurar que o amor, que mesmo o nosso amor, é até que a morte nos separe. A morte nunca separa nada, seria pequeno demais imaginar que é um corpo que ama o outro corpo. É a vida, esta sim, que afasta as pessoas, que sabota o amor, que envelhece os sentimentos.

Sim, eu quero que você tenha longas asas, e vou te ajudar a cuidar delas. Que te levem cada dia mais longe, mais alto, a lugares e situações que eu só vou conhecer através dos seus olhos. E eu farei o mesmo por você. E quando então te ver voltando, saberei que é porque você ainda me ama, que por mais um dia ainda me ama. Há muito mais verdade e intensidade nestes amores que duram um dia só. E depois mais um. E outro. E mais outro. Eu vou querer dormir e esquecer que te amo, mesmo que meu mundo pulse inteiro no batimento do peito onde deitarei a cabeça. E no dia seguinte, que seja esta cardíaca necessidade a me lembrar, antes mesmo de abrir os olhos, que é mais um dia de festa, que é o aniversário do que sinto por você.

Às vezes tenho a impressão de sentir você me olhando e ouvindo todas essas coisas que te digo. É, você, com um certo ar de “sim, eu já sei disso, também penso assim”. E fico imaginando porquê continuo dizendo. É porque, embora eu pareça segura do seu amor, de que nos reconheceremos, tenho meus medos. E é saudável que os tenha, para que esteja sempre querendo te conquistar, sempre querendo fazer com que me admire, com que me ache digna de você. Preciso que me aceite, que saiba que posso te compreender e acompanhar. Há mais fraqueza nisso do que eu gostaria de admitir, mas sei que não tenho como escondê-la de você. Sou vulnerável ao seu amor, assim como você também deve e pode ser vulnerável ao meu. E talvez você já saiba disso também, mas preciso dizer que nunca usaria essa vulnerabilidade contra você. Mesmo que seja por egoísmo; entende que seria destruir a minha chance de ser feliz?


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- Você será a mais linda trapezista do meu circo.

O Zé estava de bom humor. Junto com o elogio, fez-me uma mesura com um movimento de cabeça.

- São seus olhos – agradeci, segurando as pontas de uma saia imaginária, inclinando o tronco para a frente, dobrando os joelhos e levando a perna para trás, primeiro uma e depois a outra, à maneira das bailarinas.

Eu queria ser um misto de trapezista e bailarina. A coragem e a precisão de uma, com a leveza e a agilidade da outra. O Zé me confessou que sonhava com um dia ter seu circo novamente, e dar a volta ao mundo. Mas não podia partir antes que ela chegasse.

- Você também se apresentava? – perguntei.

Ele, vagarosamente, passou as mão pela camisa, ajeitou as também imaginárias mangas compridas e ajustou os botões, como se ajeitasse sobre o corpo com uma roupa de gala. Tirou o chapéu, segurou-o junto ao peito com uma das mãos e ergueu a outra, girando o corpo sobre os calcanhares para saudar a platéia. E empostou a voz para anunciar o que parecia ser sua maior atração:

- Especialmente para vocês, conchas, peixes e outros habitantes deste vasto Oceano Atlântico! Para vocês, pássaros sortudos deste céu azul!E principalmente para você, Miss Trapézio, orgulhosamente apresento, ele, o maior, o inigualável, o magnífico mágico... Franz Hanus!!!! Diretamente da República Tcheca para esta maravilhosa platéia do Grande Circo Torre de Babel!!!

Era como se ele tivesse voltado a ser criança, os olhos brilhando diante do brinquedo preferido. Ou diante do interesse recobrado por um brinquedo antigo. Trazia no sangue a herança de quatro gerações apaixonadas pelo circo.

- Zé, por quê o nome “Torre de Babel”?

- O nome surgiu meio por acaso. Meu bisavô tinha um circo na Itália; as coisas não iam bem, então ele resolveu ir para São Paulo. Só dois ou três artistas foram com ele, além da minha bisavó e de dois filhos. Meu avô, o caçula, já nasceu aqui. Eles faziam apresentações nas ruas, nas praças e na Casa do Imigrante, onde ficaram hospedados por um tempo. Foi lá que conheceram outros artistas, de vários países, que se juntaram a eles. Então, com muita gente de nacionalidades diferentes, cada um falando uma língua, a trupe ficava parecendo uma representração dos que trabalhavam na Torre de Babel.

O Zé fez uma pausa para ver se eu ainda estava prestando atenção e depois continuou:

- No início se chamava Companhia de Espetáculos Brasil, e foi o povo que começou a chamar de Torre de Babel. Então, meu bisavô deixou ficar.

- E o seu nome, como é que era mesmo? Franz ...?

- Hanus. Franz Hanus. Sabe que este nome me deu sorte? Quer dizer, pelo menos por um certo tempo – parou de falar, pensativo. - Ou a sorte vinha dela, não sei. Comecei a usá-lo no espetáculo anterior àquele no qual a conheci.

Foi aí que o Zé me contou que sempre tinha vivido no circo, e que o Torre de Babel fazia muito sucesso levando suas atrações internacionais por todo o país e até mesmo para alguns países vizinhos, como a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, o Chile. O avô dele comprou e reformou três grandes vagões antigos, desses de trem, e os engatava nos comboios que percorriam o Brasil. No primeiro vagão moravam os artistas, instalados em confortáveis cabines. Tinham até cozinha, banheiros e uma sala que usavam para as refeições e para as conversas, a ouvir rádio. No segundo vagão transportavam a lona, as madeiras das arquibancadas, os mastros de sustentação e todos os apetrechos usados nos espetáculos. O terceiro vagão, adaptado com janelas maiores e sem divisórias, apenas com jaulas, era destinado aos animais. Naquela época, a maior parte do transporte de carga, e até mesmo de passageiros, era ferroviário. Quase não existiam estradas, nem veículos. Quando chegavam a alguma cidade maior, desengatavam os vagões, faziam alguns espetáculos e depois seguiam viagem. O Zé me contou que muitas vezes a chegada do trem com o circo a algumas estações era um espetáculo até mais grandioso do que o circo em si. De alguma maneira que no início desconheciam, mas que depois descobriram ser através dos próprios telégrafos da companhia ferroviária, a notícia de que o circo estava a caminho chegava por antecipação, e eles eram esperados por uma multidão de gente, vinda das zonas rurais e dos vilarejos vizinhos, que faziam do passeio até a cidade um grande acontecimento. E muitas vezes eram recebidos também por prefeitos, políticos e figurões importantes, repórteres de estações de rádio e de jornais, e bandas de música. Então, algum deles, algum dos artistas, fazia uma apresentação em agradecimento. Sabiam que muitas daquelas pessoas que estavam ali, com suas roupas de domingo e caras de tirar retrato, não teriam dinheiro para o ingresso.

As estações geralmente tinham só um escritório e uma plataforma de embarque e desembarque. Mas nos dias da chegada do circo, duplicavam e às vezes até triplicavam de tamanho, com muitas barracas vendendo frutas, verduras, pipoca, doces, salgados, brinquedos e roupas; e tendas de ciganas tiradoras de sorte, barbeiros, engraxates, retratistas... O avô, de coração brasileiro e expansivos modos italianos, generoso por natureza, distribuía dinheiro entre os netos e mesmo entre os funcionários, para que gastassem por ali a féria que retornaria nos espetáculos. Só assim muitos dos presentes poderiam ir ao circo.

- Zé, sabe o que minha mãe conta dos circos que chegavam a Ibiá? Que também iam esperá-los à entrada da cidade, a criançada toda atrás do palhaço, fascinada com os animais... Será que vocês não passaram por lá?

- Pode até ser, fomos a tantos lugares...

- MNinha mãe diz que por lá também apareciam muitos circos pobres, que não conseguiam dinheiro nem para ir embora. Algumas vezes um circo permanecia meses na cidade, até conseguir a quantia de que precisava para seguir viagem.

- Graças a Deus nunca passamos por situações assim; mas sabíamos de vários circos em dificuldade. Muitas vezes, meu avô também alugava alguns números deles, para apresentar no Torre de Babel. Mais por bondade mesmo, porque eram muito ruins. E isso rendia a eles um bom dinheiro, já que ficavam com uma porcentagem da bilheteria, o que significava até mais do que recebiam com vários espetáculos inteiros, só deles.

- Seu avô deve ter sido uma pessoa maravilhosa – comentei.

O Zé ficou em silêncio, e notei que seus olhos se encheram de lágrimas. Um sorriso triste foi o que tive como resposta. Eu precisava dizer alguma coisa antes que ele desistisse de me contar o resto da história. Ele parecia evitar falar de Lorelei.

- Ainda sobre os circos pobres, Zé, minha mãe contou que muitas vezes o pessoal da cidade fazia festas, bailes, rifas; e davam toda a renda para eles. E faziam a mesma coisa para os parques de diversões. Uma vez meu pai ganhou na rifa um dos leões de um circo. Imagina o que ia fazer com um leão!? Mesmo velho, desdentado... Acho que faziam de propósito; será que alguém pensaria em ficar com um leão, ou com um elefante, ganhos em uma rifa?

- Maltrata-se tanto esses animais, que talvez eles até preferissem.

- Mas e o seu nome? O Franz. Ainda não me contou de onde veio.

- Foi em um espetáculo em Praga, quando abandonamos os trens e começamos a correr mundo.

Ouvi uma palavrinha mágica: Praga. Uma das cidades que eu daria tudo para conhecer. Depois precisava me lembrar de mostrar ao Zé minha coleção de revistas de turismo, mapas e guias sobre Praga. Interessei-me ainda mais pela história.

- Gostávamos de manter a tradição do Torre de Babel, de termos pelo menos um artista de cada país por onde passávamos. Na França, onde fomos participar de um festival de circo, o mágico preferiu ficar por lá com a família e nos abandonou. E logo em seguida fomos convidados para umas apresentações na República Tcheca, na abertura do Festival da Primavera, que naquele ano ia reunir circos do mundo inteiro. Como o convite foi feito em cima da hora, não tivemos tempo de contratar ninguém, e eu resolvi adotar um nome tcheco e substituir o mágico, aproveitando uns truques que tinha aprendido com meu avó. Ele era um grande mágico, substituído pelo francês quando resolveu que era hora de parar.

- Eu tenho muita vontade de conhecer Praga; acho que deve ser uma cidade linda. Já li tantas vezes “O Castelo”, que sou capaz de andar por lá de olhos fechados.

Isso é verdade. Uma vez eu até sonhei ter marcado um encontro com Kafka em um dos salões do Castelo, onde Chopin tocava piano apenas para nós dois.

- Então, sobre o meu nome artístico, Franz é em homenagem a Franz Kafka. E Hanus em homenagem ao Mestre Hanus, o do relógio astronômico.

Este relógio tem uma história linda, além da aparência, é claro. De hora em hora os doze apóstolos anunciam o correr do tempo, surgindo em suas janelinhas. O rei o encomendou a um artesão chamado Mestre Hanus, que acabou sendo punido por sua competência. Fez um trabalho tão perfeito, o mecanismo funcionando tão bem e tão exato que, depois da encomenda entregue, os membros do conselho municipal mandaram que lhe furassem os olhos com uma espada incandescente, para que ele nunca mais fosse capaz de fazer outro igual. Quase nunca é igual também a roupa do Menino Jesus de Praga. Em cerimônias que já viraram atração turística, suas guardiãs, as freiras carmelitas, vestem-no alternadamente com uma de suas trinta e nove vestes. Por que trinta e nove, e não quarenta?

Para falar a verdade, gosto mais dos números ímpares do que dos pares. Quando ímpares e primos, são de uma imperfeição que dá vontade de continuar contando. Com o número dez, por exemplo, não é assim. Conta-se até dez e pronto, pode-se descansar, parar por ali com a sensação de dever cumprido, de conta fechada. O número dez é de um conformismo irritante. Trinta e nove não. E treze, menos ainda. Trinta e nove é três vezes divisível por treze. E as pontes de Praga, quantas eram mesmo?

- E as pontes, Zé, são bonitas mesmo?

Eu provavelmente já sabia tudo sobre elas, mas adoraria que ele me surpreendesse com uma novidade.

9 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Continuo lendo e adorando, :).
Beijos.

2/16/2006 09:41:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Acho que só você, Matilda ;-)
Obrigada!
Beijos,
Ana

2/16/2006 10:02:00 PM  
Anonymous Delaine said...

Amei os textos!!!!!!!
Como foi estranho ler essa última parte é exatamente o queria disser.

Lindo!!!

2/17/2006 01:36:00 PM  
Anonymous Lúcia said...

Imagine, Ana! De minha parte, continuo com você, mas meio basbaque de tanto que gosto do que você escreve. Como não soube antes de você, eu que quando crescer quero ter esse olhar e contar de "Aninha"?! E já sendo evidente que não vou conseguir te ler com a mirada rápida com que leio blogs: andei perguntando a São Google e ele disse que você lançou ou vai lançar outro livro, pela Record. Saiu? Está à venda? Não achei.

2/17/2006 02:40:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Então diga, Delaine, diga. Não guarde nada porque faz muito mal. ;-)

Lúcia, confesso que esse blog está meio abandonado justamente porque estou cuidando disso. Vai sair, vai sair... E eu já não aguento mais de ansiedade, menina. Se Deus quiser, em breve dou boas notícias (para mim, pelo menos heheheh) por aqui. Obrigada pela companhia,


Beijos,
Ana

2/17/2006 03:33:00 PM  
Blogger Idelber said...

Bom, Ana, como viu, nao eh so a Matilda....

Tem gente que te ama e que sonha ser personagem do romance :-)

Beijos,

2/17/2006 03:49:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Idelber, você sabe que tem gente que eu amo e que já é ;-)
Beijos,

2/17/2006 03:59:00 PM  
Blogger Matilda Penna said...

Viu que não sou só eu?
Só eu que falo, mas é que com você eu sempre falo demais da conta, :).

2/17/2006 06:34:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda, fala nada, e eu gosto de te ouvir ;-)
Pois é, acho que vou dar uma choradinha de vez em quando ;-)
Beijos,

2/19/2006 04:42:00 PM  

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