Confissão #37

Capítulo 5 - Parte II


Os anjos não cruzam pontes


Sabe quando eu acho que acontece a quebra do pacto? Quando um quer se tornar dono dos sonhos do outro. Ninguém é feliz sem os próprios sonhos, vira anjo de uma asa só. Há uma representação do amor como sendo a união de dois seres, tendo um deles apenas a asa direita e o outro, a asa esquerda. Você concorda com isso? Eu não, e trato de cuidar muito bem das minhas duas asas, pois quero poder contar com você, sem depender de você.

Eu tenho uma coleção de anjos que carrego sempre comigo. Hoje são quarenta e três e estão aqui pela casa; você vai ver. Escolhi esta casa por causa da varanda que a abraça por todos os lados. Mas sabe quando tive certeza de que era mesmo aqui que eu deveria te esperar? Quando vi um anjo enorme que estava lá na sala quando cheguei. Foi como se ele tivesse chegado antes para guardá-la para mim. Ontem vieram buscá-lo. A dona Isabel me explicou que já é tradição; há anos os donos da casa o emprestam para enfeitar a igreja na cerimônia de coroação de Nossa Senhora. Acompanhei-o e aproveitei para rezar por você, por mim, pelo amor. As crianças estavam ensaiando, e não é que eu ainda sei todas as músicas? Na verdade eu também já fui anjo. Quero dizer, de verdade, de verdade mesmo, não. Mas muitas vezes eu já fiz papel de anjo. A primeira delas, que eu me lembre, foi neste mesmo mês de maio, para coroar Nossa Senhora. Mas eu também já fui Nossa Senhora, e acho que com o consentimento dela.

Eu já estava cansada de ser apenas anjo. Comecei no cortejo, aquele que acompanha a procissão, e nas primeiras vezes gostava muito. Adorava olhar no espelho e me ver linda na túnica branca que minha mãe cuidadosamente bordava com miçangas prateadas; e com a auréola feita de plumas que pareciam mesmo flutuar sobre a minha cabeça. Eu sempre tive o cabelo assim, enrolado, e para o grande dia os cachos eram domados e enfeitados com minúsculas flores de tecido branco. Mas o que mais me impressionavam eram as asas, de penas muito brancas recolhidas durante todo o ano entre os patos e as galinhas do quintal da minha avó. Somente as brancas imaculadas eram usadas nas asas enormes, que depois eram decoradas com purpurina. Eu gostava quando as procissões eram à noite, à luz de velas. As pontas das penas, carregadas daquele pó mágico, pareciam adquirir vida própria e voar para um mundo misterioso feito de suaves nuances de prata e fogo. Um mundo revelado apenas pelo jogo de luz e sombra das velas envoltas em papel manteiga ou celofane colorido, que evitavam que a cera derretida queimasse as mãos. Eu quase nem respirava, impulso necessário no plano dos homens, mas não no dos anjos. Aos anjos cabia apenas flutuar, cantar e balançar as asas que faziam chover prateado.

Quando me achei suficientemente escolada em ser anjo, quis ascender a Nossa Senhora. Mas tinha a Elzinha, com quem até eu mesma ficava comovida durante a representação. A procissão entrava na igreja e a imagem da santa era levada até o altar, escoltada pelo séquito de anjos. A Elzinha, então, aparecia por detrás da Virgem, como se esta tivesse criado vida, e tomava seu lugar no trono ricamente guarnecido de rosas; onde era coroada senhora e mãe dos céus. Eu sentia uma inveja enorme dela, e rezava para que a santa de verdade não descobrisse isso. E procurava mil defeitos na Elzinha, como estar grande demais para o papel. Sim, era isso, e no ano seguinte estaria maior ainda, e então seria a hora de abandonar o trono.

Passado um ano, quando começaram os ensaios, eu falei com o padre, com ares de grande conhecedora, acrescentando que tinha sido Jesus a dizer “vinde a mim as criancinhas”. A Elzinha, do alto de sua loirice, de dentro de sua pele clara, feito santa de porcelana, fixou em mim os olhos azuis de Nossa Senhora e disparou:

- Quem é que já viu Nossa Senhora quase preta?! Tem graça...

Não, não tinha graça nenhuma. Uma raiva imensa fez com que eu desatasse a chorar e nem conseguisse dizer que não era preta, que era apenas morena. E que tinha os olhos verdes, e que ao nascer eles eram azuis. Não me lembrei de pecado, nem da presença de todos aqueles santos e anjos na igreja, e saí correndo depois de rogar uma praga, em voz baixa, mas bem de frente para o altar e com toda a raiva que me era permitido sentir. Eu não ia ser mais anjo, nem santa, nem nada. E a Elzinha que morresse sozinha, seca e esturricada que nem carvão.

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- Pois é, dona Nola. Não é que a menina adoeceu? Será que sua neta não quer entrar no lugar dela?

Eu ouvia detrás da porta. Vi quando o padre entrou na casa de minha avó e imaginei que só podia ser para perguntar a razão de eu não estar indo aos ensaios de anjo.

- Mas é grave, padre Pedrinho? – perguntou minha avó.

- É sim, dona Nola. Meningite.

- Minha Nossa Senhora! Que coisa mais triste! Uma menina tão bonita...

Senti-me traída por minha avó também; até ela achava bonita a branquela da Elzinha. Mas Deus era justo e ela estava doente, bem feito. E nem adiantaria minha avó ir falar comigo como prometera ao padre, pois quem não queria mais era eu. A Elzinha que desse um jeito. E mesmo que ela, em pessoa, fosse falar comigo, eu não aceitaria, e ainda aproveitaria a oportunidade para dizer:

- Quem é que já viu Nossa Senhora de meningite? Tem graça...

Fiquei imaginando se conseguiria imitar a voz esganiçada dela. Coisa mais triste que nada; bem feito para ela! Não havia dito que Nossa Senhora tinha que ser loira, ter a pele clara e os olhos azuis? Então! Não havia mais ninguém por ali daquele jeito; pois ela que fosse, de meningite e tudo. Eu torcia para que meningite fosse uma daquelas doenças que fazia a pele ficar toda cheia de feridas, marcada para sempre com cicatrizes bem feias e escuras. E que mudasse a cor dos olhos também. E que fizesse cair cabelo. Isso! Queria ver a cara dela quando soubesse que não podia mais ser Nossa Senhora, toda marcada de cicatrizes e manchas e sem cabelos. Que assim fosse! E minha mãe, será que ela saberia me dizer se meningite causava tudo isso? Minha avó parecia saber, e fui perguntar a ela, como se não tivesse ouvido nada da conversa com o padre.

Primeiro fiquei com pena. Depois, desesperada, quando soube que a Elzinha podia morrer, que era quase certo que isso acontecesse. E a culpa era minha. Eu tinha pedido que ela morresse, na igreja, bem em frente ao altar. Com a mesma fé que pedia para tirar nota alta nas provas, e tirava; que a minha tia me levasse presentes de São Paulo, e ela levava. Eu deveria saber, minha avó sempre dizia que pedido de criança, ainda mais de criança-anjo, nem entrava na fila. Ia direto aos ouvidos de Nosso Senhor. Será que Ele me ouviria de novo? Será que Ele poderia entender que eu não tinha querido dizer morrer, morrer mesmo, que tinha sido apenas de mentirinha? Minha avó disse que sim, que a culpa não era minha, que a Elzinha já devia estar doente, se eu não tinha reparado que estava até mais pálida ultimamente. Mas eu não me conformava, sabia que a culpa era minha.

Aceitei ser Nossa Senhora e pedi que me fizessem o manto mais bonito que pudessem imaginar, mais parecido com o da imagem dela. Minha mãe, minhas avós e minhas tias, todas trabalharam até que não ficasse um só espaço daquele manto sem estar coberto de lindos bordados, pedras, brilhos e flores. E sei que mesmo não me parecendo com Nossa Senhora, eu estava linda. Tão linda que até Jesus Cristo me confundiu com ela, com a sua mãe, e atendeu meu pedido, que era não deixar a Elzinha morrer. Alguns dias depois, fui eu mesma ao hospital levar o manto de presente para ela.

Sabe que depois que me mudei de Ibiá nunca mais falei com a Elzinha? A vida acabou fazendo com que tomássemos caminhos diferentes, deixando aquela sensação de não se ter mais o que conversar. Mas quero te mostrar uma foto que ela me mandou há uns quatro ou cinco anos, da filha mais velha usando o mesmo manto em uma cerimônia de coroação. Se algum dia eu tiver uma filha, talvez o peça emprestado. Eu gostaria de passar adiante estas tradições, os rituais destas festas e as histórias que fizeram parte da minha infância. Eu adoraria saber que você algum dia já foi coroinha. Ou, quem sabe, anjo de procissão.

1 Comments:

Blogger IRACI said...

oi, bem original o seu texto, é, muitas vezes nos sentimos assim, mais só consiguimos confessá-los quando somos crianças, você se lembra de como eram feitas essas coroações, gostaria de saber pois quando criança sempre quis participar, mais nem olhos verdes eu tinha...

4/25/2008 02:41:00 PM  

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