Confissão #36

Capítulo 5 - Parte I


Os anjos não cruzam pontes


Sempre fiz perguntas demais, e receio que um dia comece a me importar demasiadamente com as respostas. Não por preguiça de ir buscá-las, mas porque elas se tornam mais e mais complexas com o passar do tempo. Algumas das dúvidas que tenho hoje nem sei como classificar. Não sei a que campo pertencem, em que tempo foram adquiridas, ou mesmo se são daquele tipo quase genético. Será que você também tem as suas? Será que pelo menos consegue me entender, quando digo que acho que existem algumas perguntas que preciso ir respondendo ao longo da vida? Nada de grandes questões filosóficas, mas um teste mesmo, como se as respostas fizessem parte de um entendimento maior pelo qual um dia serei cobrada. A qualquer momento, sem aviso prévio, só serei presenteada com a etapa seguinte se puder olhar nos olhos do oráculo de igual para igual e tendo a resposta como um escudo. Só assim acho que não serei decifrada. Nunca tive medo de ser devorada, mas tenho verdadeiro pavor de que me decifrem. No primeiro caso, acaba-se tudo e pronto. No segundo, seria cruel demais continuar vivendo sem os segredos que são só meus, sem ter o direito de, ao menos, me surpreender.

Quando criança era muito fácil separar as dúvidas em três assuntos: sobre a natureza, sobre as coisas e sobre as pessoas. Nunca imaginei que mais adiante, em alguma fase da minha vida, quase não haveria mais divisão alguma. Ou várias outras, dependendo do ponto de vista, e que eu poderia relutar em colocá-las em um dos nichos da minha “Caixinha dos Porquês”. Eu tinha uma caixinhas dessas, antes mesmo de aprender a ler ou a escrever, e gostava de enchê-la com objetos e papéis relacionados a tudo que eu ainda queria descobrir. Para onde corriam os rios; que gosto teriam as nuvens; quanto tempo uma flor levava para se abrir; se as formigas tinham nomes; se os cachorros sonhavam; qual o motivo de a cadeira ser chamada de cadeira; se os sapos eram mesmo feitos de gelatina; ou porquê as pessoas não eram todas do mesmo tamanho. Não sei onde foi parar essa caixinha, mas eu queria tê-la agora comigo só para te provar que era mesmo verdade.

Sabe que um dos meus maiores sustos foi descobrir que ninguém mais tinha uma “Caixinha de Porquês”? Parecia-me óbvio que todos tivessem. Minha mãe disse que eu daria uma boa psicóloga, no dia em que tive que explicar do que se tratava, depois de ser flagrada revirando seus armários à procura da caixinha dela. Mas eu queria mesmo era ser trapezista.

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- Mas por quê? Por que não?

C. tinha o rosto escondido entre as mãos, as costas curvadas e os cotovelos apoiados nos meus joelhos. Sentados em duas cadeiras colocadas frente a frente, já estávamos havia quase três dias sem sair da casa. Não sei quantas vezes ouvi aquela pergunta, a mesma que eu também vinha me fazendo havia muito tempo, sem obter resposta. Não há um porquê no desamor.

- Eu não sei.

Era a minha única resposta possível. Não havia um fator preponderante, mas a soma de vários. Já tínhamos conversado muito sobre isso, C. não entendia e eu não conseguia mais raciocinar direito para tentar explicar de outra maneira. Estava exausta pelas duas noites sem dormir, os músculos doídos pela constante tensão.

– Vamos embora agora? – tentei apressá-lo, antes que ele mudasse de idéia.

Permanecemos mais alguns minutos em um abraço que não queria ser desfeito. Apesar de tudo, eu ainda sentia um carinho enorme por ele. Mas era só o que restava: carinho, e talvez gratidão. Mas nenhum destes sentimentos, e nem mesmo os dois juntos, seriam suficientes para manter o namoro. E muito menos para justificar um casamento, como ele queria. Eu devia muito a C., e ele sabia disso. Aliás, ultimamente, fazia sempre questão de me lembrar. Mas quanto valia? Quanto será que vale o que damos por amor e depois queremos cobrar? Eu não sabia, apenas pensava que não podia continuar pagando para sempre. Seria um preço alto demais por algo que eu nunca havia pedido, e que enquanto pude, enquanto senti o mesmo, retribuí.

Eu só queria ir embora daquele lugar, já não agüentava as paredes, cada vez mais próximas, reduzindo o espaço onde ainda poderia restar alguma lucidez. Vivia um pesadelo, uma situação que me transformava em um ser autômato, dotado de percepção mas sem a mínima capacidade de reagir. Eu nunca poderia imaginar que C. fosse capaz de um sequestro, uma ameaça de morte e outra de suicídio.Em alguns momentos, achei que ele teria coragem, que puxaria mesmo o gatilho. O olhar era quase um prenúncio, um aviso, o estampido que antecede a bala. E logo depois, sim, o clarão, o olhar me ferindo de quase-morte, o choro suplicante e adorativo, como quem implora por um milagre. E eu sabia que milagre era aquele, que eu voltasse a amá-lo, a querê-lo. Logo ele, um ateu.

Os olhos de C. sempre me impressionaram. Lindos, de um azul que nunca mais vi igual, cristalinos. Quando saímos da casa, à luz natural, pude perceber o quanto se desgastaram, a vivacidade congelada por uma rigidez fria, como nos olhos das estátuas. Ele não chorava mais desde que concordara em ir embora, e então pude ouvir a festa egoísta que passou a acontecer dentro de mim. A caminho de casa, a arma deixada na chácara que era da tia dele, as duas mãos de C. no volante. Era como se eu pudesse novamente estar só, sem pensar no desespero dos meus pais por eu ter sumido, nos fantasmas que povoavam as lembranças e os planos de C., no casal que ele insistia em enxergar e que para mim não existia mais. Havia muito tempo que não existia mais.

Comovia-me o homem ao meu lado. Não fosse a alegria de estar viva – e a possibilidade de continuar vivendo bem longe dele - eu teria percebido ali, antes que me acontecesse de novo, que é muito maior a dor de quem é amado e não consegue retribuir, do que a de quem ama. É ingrata a culpa de possuir algo que o outro tanto quer, e ter que negar. Mas eu não poderia ceder, não de novo. Já tinha terminado o namoro inúmeras vezes e outras tantas acabava voltando. Não suportava vê-lo chorar e fazer promessas que eu sempre soube que não ia cumprir, aceitando esquecer o que eu tinha feito para afastá-lo de mim. Tudo isso, essa submissão, esse querer viver o amor a qualquer custo, fazia com que eu me afastasse ainda mais. Não era uma atitude digna do homem pelo qual eu tinha me apaixonado. Não era mais alguém que merecia o meu amor, era alguém que o exigia. Um amor sobre o qual nem eu tinha controle; eu não escolhi deixar de amá-lo, e nenhum de nós dois tinha culpa disto. Não merecíamos prolongar mais o sofrimento.

Fiz muita coisa errada sim, mas quem não tem o direito de errar aos dezesseis, dezessete anos? Muitas vezes menti e fiz questão de que ele descobrisse. Saí com outros homens e deixei que chegasse aos ouvidos dele. Algumas vezes C. me questionou, eu falava sobre o desamor e ele insistia que era uma fase, que ia passar, que estaria sempre ao meu lado e tudo ia ficar bem. Outras vezes fingia não saber de nada. Hoje sei que agi errado, que queria transferir para ele uma responsabilidade que era minha, a de querer terminar. Ou melhor, terminar eu até terminava, mas não conseguia manter a decisão. E não tinha coragem de dizer que era por dó que eu sempre voltava atrás, dó daquele homem que eu já havia admirado e amado tanto; e que ainda há pouco estava ali na minha frente, frágil, humilhando-se, querendo se agarrar a uma situação passada, sem volta. Muitas vezes pensava que eu também não merecia não poder fazer com que minha vontade prevalecesse, e traía-o até sem vontade, por pura vingança. E ele não reagia.

Até aquele momento não tinha reagido, porque bem ali estava a reação desesperada. Depois de abandonar o emprego C. me seguia o tempo todo. Dirigia atrás do ônibus que me levava ao colégio, ficava até altas horas dentro do carro estacionado na esquina da minha casa, até ter certeza de que eu não sairia mais. Até então eu achava que era só dar um tempo e tudo aquilo ia passar, ele se conformava e cada um seguia sua vida. Ele arrumaria novo emprego e ia tratar de se feliz. Eu passaria no vestibular e mudaria de cidade. Nunca mais nos veríamos.

2 Comments:

Anonymous Sonia said...

Acho que o desamor não tem porquê -acontece.

2/16/2006 12:10:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Sônia, pois é, acontece sem porquê, com porquê, e às vezes não acontece nem com porquê ;-) Vai entender...
Beijos,

2/16/2006 01:23:00 AM  

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