Confissão #35

Capítulo 4

A revolta margem dos sentimentos interiores


“A maresia oxida os sentimentos”. Se eu pudesse, roubava esta frase do Zé.
- Sangria! Nunca ouviu falar?
O Zé olhava para o próprio peito, de onde escorria um filete de sangue. Tinha acabado de passar um caco de vidro sobre a pele lisa e repuxada da cicatriz - ou tatuagem, como ele a chamava - bem em cima da letra L. Devia fazer isto várias vezes, pois, observando melhor, dava para perceber a marca antiga recortada por inúmeras linhas avermelhadas, como um relevo ainda mais saliente. Eu sentia uma grande aflição ao olhar para o peito do Zé, mas não conseguia deixar de fazê-lo. Era como se fosse o prenúncio de algo que estava para acontecer, qualquer coisa que eu não sabia bem o que podia ser, como a pele se romper sozinha, por exemplo. A minha amorragia era interna, e, de certa forma, eu traçava um paralelo com aquela do Zé, cravada no peito, tão à mostra, cruelmente natural e ostensiva. E não gostava das semelhanças.
Ele passava o dedo com força sobre as marcas. Com força e lentamente, sem esquecer uma letra, como quem quer dar cores novas a um desenho desbotado. As marcas eram saltadas e a pele muito fina, esticada, como se debaixo dela tivesse sido injetado algo gelatinoso que a mantinha despregada do resto do corpo. Formavam-se rugas logo à frente do ponto pressionado, rugas que iam se movendo em cadeia, como dunas empurradas pelo vento e se empurrando umas às outras até alcançarem a extremidade de cada letra, o ponto onde só então a pele voltava a fazer parte do corpo do Zé.
- Quando ela chegar, isso tudo aqui vai sangrar sozinho. Mas não de dor, entende?
O Zé disse isso precedido de um sorriso, o que me causou ainda mais mal estar. Definitivamente não estávamos em sintonia, apesar da saudade e da vontade de conversar que eu sentia. Eu queria fazer da espera algo suave, alegre até, e às vezes o Zé era amargo demais. Será que a maresia oxida mesmo alguns sentimentos?
Tenho certeza de que o Zé percebeu o meu desconforto e talvez esse fosse seu jeito de dizer, sem precisar dizer, que queria ficar sozinho. Respeitei, embora eu precisasse de companhia, nem que fosse para ficar em silêncio. Talvez principalmente para ficar em silêncio.
Acho que há um tipo muito especial de sentimento entre pessoas que não têm a necessidade de quebrar silêncios. Um pacto com a presença, apenas com a presença, sem precisar justificá-la. Embriaga-se e farta-se da presença do outro, e fica-se tão satisfeito dela que tudo mais, que todos os outros sentidos e todas as outras necessidades, tudo é adiado. Tudo cede forças para que flua melhor a dança invisível e prazerosa, quase erótica, que faz com que duas almas troquem de lugar, silenciosamente. A ponto de não saberem mais se pertencem a um corpo ou a outro. Isso acontece em silêncio e é tão natural entre duas pessoas que se amam que elas quase não percebem. Captam no ar um mistério e de vez em quando se olham, e sorriem, e fazem um carinho descuidado e se perdem um no outro. Dizem que algumas almas nunca mais encontram o caminho de volta. Acho que a minha já nasceu contigo, e às vezes eu quase não agüento mais a solidão que isto me causa, a urgência em revê-la.
Você já pensou se a explicação para o amor for essa mesma? Se por engano, castigo, desígnio, brincadeira, ou seja lá o que for, a alma de um vai morar no corpo do outro? Eu parto do princípio de que você acredita em almas. Mas, se não acredita, como se explica isso que eu trago aqui dentro do meu corpo e que parece não me caber? Nos dois sentidos, não caber nos dois sentidos. Primeiro, porque parece não ser minha. Às vezes maior, às vezes menor, e nunca um encaixe perfeito, há sempre frestas ou encolhimentos, a necessidade de calços ou a sensação sufocante de falta de espaço. Há um desencaixe, uma insatisfação, uma vontade de sair buscando algo que deve morar contigo. E eu só queria ter sido sempre feliz, muito mais feliz – digo muito mais no sentido qualitativo -, para, quando te encontrar, poder dizer:
- Toma, essa daqui é sua. Olha só como cuidei bem dela...
Eu nem consigo imaginar a hipótese de você não ter feito o mesmo por mim; e de talvez não vir porque não quer me devolver uma alma capenga. Involuída, despreparada, imberbe demais para saber o que a faz feliz. E você sabe que eu não agüentaria ter que fazê-la andar por todos os caminhos nos quais já fui com a sua. Quando você chegar eu gostaria de receber uma alma velha e malandra, uma alma experimentada e testada quase à exaustão. Daquelas que correm riscos, que aceitam desafios porque se sabem superiores a eles.
Lembra de que já te falei sobre querer que o nosso encontro seja uma grande estréia? Agora isto faz ainda mais sentido: estaremos estreando as almas que estivemos tecendo um para o outro. A minha alma já conhece seu corpo e vai saltar confiando que você vai segurar a minha mão. E eu nem quero pensar no medo que tenho de não ser assim, porque eu preciso muito que seja. E você precisa confiar em mim, confiar que serei leve, muito leve.
Eu tenho o dom do trapézio desde muito cedo. Nos circos da minha infância sempre foram para os trapezistas os meus aplausos mais efusivos. E talvez hoje, apenas hoje, eu entenda porque os trapezistas quase sempre eram da mesma família. Para que saltassem com mais segurança haveriam de estar presos por laços mais fortes do que os dos braços que se procuravam no ar. Precisavam confiar um no outro, mortalmente. Saltava-se com a plena confiança de que o outro estaria lá, naquele lugar, com a necessária força e o impulso certo para amparar o salto no escuro. Nenhum segundo a mais, nenhum segundo a menos. Eu penso que o amor é assim, e há muito tempo tenho aumentado a velocidade do balanço, aproximando-me mais e mais de você. E chegada a hora, frente a frente, para que o espetáculo continue tendo graça, vamos ter que saltar. Sem hesitação. Primeiro um, e logo em seguida o outro. Eu saltaria na frente, como já fiz tantas vezes antes.
Tenho a sensação de que sempre salto primeiro. Sou quem ama mais, quem ama primeiro, quem dá o salto no escuro sem saber se o outro vai enxergar. Você já percebeu quanto tempo dura um “ainda não”? Um “tirar a mão”? O tempo de uma hesitação, um segundo sequer em que o outro não confia no salto, é longo demais para um coração que já saiu do peito e não tem mais como voltar antes de se consumir. Ele faz um barulho imenso, e sangra, e grita, até implodir. Eu trago no peito um coração assim, que carrega o estrago de ser amado atrasado, sempre um compasso à frente, batendo desafinado. Prenhe que sempre esteve da necessidade de um novo amor.
Talvez a culpa seja dele mesmo, desse meu coração, pois sempre me impulsionou a ter pressa em viver. Como se algo urgente e derradeiro fosse acontecer e antes disso eu tivesse todos os prazos a cumprir. As horas a correr num relógio que não obedece à contagem de tempo a que estamos acostumados, mas que o atropela com saltos perigosos, com grandes recuos, como um exímio acrobata sobre uma corda bamba. Um relógio de corda. E para quê? Para que tudo se passasse rapidamente e eu pudesse finalmente estar aqui para cumprir meu destino: você. O mesmo que, de certo modo, me ensina a arte da espera. E eu só preciso que essa espera faça tudo valer a pena.

2 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

Dizer o que?
Muito bom, mesmo!
E o poema da terça, não esqueci não, vamos ver, ainda não acabou a terça, certo?
Beijos, :).

2/14/2006 03:06:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda, é claro que um poema às terças, sem segundas interpretações, poderia ser feito a qualquer dia ;-)
Beijos,
Ana

2/15/2006 08:02:00 PM  

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