Confissão #34

Capítulo III – Parte III

Amorragia


Aos doze anos, quase treze, eu era uma das poucas na turma que ainda não tinha dado beijo na boca; não queria beijar qualquer um só por beijar. Queria um daqueles beijos dos livros da minha mãe, os livros que ela não sabia - ou fingia não saber - que eu lia às escondidas. Daqueles sim, valia a pena, não um beijo bobo como o de M., sem graça, sem jeito, com gosto de saliva. Vai ver era tudo mentira dele, que nunca tinha beijado alguém, senão saberia como é que se faz. E eu precisava dizer isso para ele, precisava mostrar que a “carola” entendia muito mais de beijos do que ele que fazia questão de sair espalhando para todo mundo que já tinha perdido a conta de quantas meninas havia beijado. Todas mais velhas do que ele, inclusive uma amiga da mãe. Será que nenhuma fora capaz de ensiná-lo a beijar?
Eu seria. E para isso reli todas as cenas de beijo dos tais livros escondidos; treinava diante do espelho o que fazer com as mãos, com a cabeça, com os lábios. E se ele ficasse quieto, até com a língua eu beijaria, bastava não pensar no gosto da saliva. Afinal era uma lição, e eu não ficaria com nojo. Comecei beijando o espelho, de olhos abertos para ver como é que eu ficava beijando. Depois, na mão, de olhos fechados. E, finalmente, em uma boneca. Até pude sentir M. ali, quieto, admirado, gostando de receber o melhor beijo da vida dele e reconhecendo que realmente nunca tinha beijado antes.
- Elisa, aperta os meus olhos quando for o M.? – segredei, enquanto brincávamos de “beijo-abraço-aperto-de-mão”.
Era minha vez, o que raras vezes acontecia, porque eu achava aquela brincadeira uma criancice. Com os olhos vendados pelas mãos de Elisa, eu teria que escolher alguém ao acaso enquanto ela ia apontando todos os que estavam sentados em círculo ao nosso redor. Perguntava “É esse?”, “É esse?”, até que eu dissesse que sim. Então perguntava se seria beijo, abraço ou aperto de mão. Era M., se é que eu podia confiar em Elisa. Confiei.
- Beijo!
Ignorei comentários como “Quer repetir, einh?”, “Falou que não gostou, mas quer de novo” e mais outros gracejos. M. não dizia nada, apenas parecia nervoso e sem entender direito o que estava acontecendo. Eu não fingi surpresa, não fiz cara de nojo, nem dei risinhos histéricos esperando por “Escolheu, agora vai ter que beijar”. Eu beijei de língua e tudo, um longo beijo tantas vezes ensaiado, e retribuído por M..
Anos depois, quando passei umas férias na cidade onde ele preferiu permanecer, confessou-me que aquele ainda era o melhor beijo que tinha recebido na vida. Rimos muito quando ele disse que eu não tinha me saído nada mal para uma carola.
Mas M. não soube e nunca saberá o quanto eu chorei depois daquele dia. O quanto fazia falta até mesmo a sua prepotência, as suas infantilidades, a sua burrice. O quanto eu me odiava por sentir essa falta e como era difícil fingir que não percebia, ou que não ligava a mínima para os olhares dele, para as outras pequenas gentilezas que eu fazia questão de ignorar. E até o quanto eu me esforçava para não achá-lo cada vez mais imaturo. Mas nunca me arrependi, M. roubou meu primeiro beijo e eu retribuí com o último que ele gostaria de receber. Doía em mim também essa segunda amorragia. E quando estancou já havia uma barreira própria da idade, aquela que separa os moleques de treze anos das mocinhas da mesma idade. Aquela que faz com que uma mulher ensaie poses diante do espelho enquanto os meninos ainda brigam por nada num jogo de figurinhas.

#

Sinto falta do Zé, mas a chuva não dá tréguas para que eu o encontre na praia. Apenas a companhia do mar, o mar agoniado que também se bate de um lado para outro, açoitado por milhões, bilhões, trilhões de pingos d’água. O mar que desconta sua fúria nos barcos de pescadores, colocando à prova a força das amarras. Nestas horas penso no quanto a solidão é monocromática nas suas variantes de um cinza sem graça, a mais perfeita moldura para a sua ausência.
Foi num dia assim, não sei se cinza por fora, se por dentro, sentindo a ausência de M., que dei de cara com a poesia. Digo “dar de cara” porque foi mesmo esta a sensação, de estar andando distraída, virar uma esquina e esbarrar em alguém desconhecido: a poesia. Nos olhamos por um instante e eu me senti incomodada com a familiaridade que ela parecia ter comigo. Era irônica, altiva, dona de um segredo meu que nem eu sabia existir. Houve então uma breve hesitação, eu não sabia se podia confiar, se ela insinuava verdades, com que palavras explicaria aquele seu jeito de saber de mim. E ela sabia o que me faltava, o que não existia em mim antes de ser traduzido por suas palavras. Agarrei-me à poesia tal qual criança com medo do escuro, para que ela me pegasse pelas mãos e me apresentasse a quem já tinha vivido o bastante para poder dizer o que eu apenas pressentia.
Há algo sobre poesia que eu só descobri quando ela me consumiu tanto que quase desapareci. Deixei que me descascasse uma a uma todas as máscaras, todas as peles, até chegar a um oco tão fundo dentro de mim que nem eu sabia que seria capaz de possuí-lo. Um oco, um núcleo, um ponto que a nada resistiu, pois em sua selvagem existência, a nada sabia resistir, como uma mata tão fechada que nunca tinha sido atravessada por um raio de sol. E a poesia foi esse raio, que ele não tentou compreender, pois seria como explicar a uma criança que as estrelas não estão coladas ao céu, ou covardemente dizer a dois amantes que a lua não se importa com eles. Vai-se ao encontro da poesia como quem voa com asas de cera rumo ao sol. Ou não se vai. E quando a cera começa a derreter e sentimos que para nos amparar há apenas os braços da morte, a poesia gentilmente nos recolhe, e vai nos recompondo em camadas que se sobrepõem, como as daquelas bonecas russas, e deixa do lado de fora, preso pelas sucessivas frinchas, o desejo de voltar a ela, de se mudar frágil e inconseqüente para dentro dela. Acho que assim também é o amor.
E quando você chegar eu vou chamar de poesia a vontade de morar no seu abraço.

3 Comments:

Blogger Matilda Penna said...

"Vai-se ao encontro da poesia como quem voa com asas de cera rumo ao sol."
"E quando você chegar eu vou chamar de poesia a vontade de morar no seu abraço."

Menina, você escreve cada coisa...
Beijos da fã, :).

2/12/2006 08:51:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Você também, Matilda, e minha mãe também virou sua fã.
Beijos,
Ana

2/13/2006 08:29:00 PM  
Anonymous Roberta Biazini said...

Gosto da maneira que escreve!
A leitura é contagiante.

6/12/2006 10:35:00 PM  

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