Confissão #33

Capítulo III – Parte II

Amorragia


- Seu porco! Nojento!
Senti muita raiva de M., enquanto esfregava o dorso da mão com toda força sobre a boca. Ele tinha acabado de me beijar. Um beijo que eu tentava apagar da pele, já que da memória sabia ser impossível. Ele tinha estragado tudo, estragado meu primeiro beijo.
– Vai beijar o Martin Luther King, seu idiota!
Acho que ele também se assustou; não esperava pela minha reação. Talvez até esperasse um tapa, mas não um tapa dado com as palavras. Corri para casa e chorei por horas. De raiva, muita raiva, sentindo-me roubada em algo que eu guardava com carinho para dar a alguém de quem realmente gostasse. E M. o tinha pego assim, do nada, por pura vingança, para sair dizendo que já tinha beijado a “carola”. E nem beijar direito ele sabia, era uma coisa sem graça, babada, mole... Nojenta!
O pior era que eu sabia que tinha me beijado não por gostar de mim, mas para se vingar mesmo. Só por causa da redação, queria descontar só porque tinham rido dele. Fiquei com muita raiva de mim também, que deveria ter ignorado o bilhete, amassado e jogado de volta para ele. Ou ter feito um barquinho e atirado para as crianças empurrarem ladeira abaixo, na enxurrada. Mas não, eu li e acreditei que M. realmente queria se desculpar, ser meu amigo, parar com aquelas brincadeiras, que ele realmente não ia nunca mais me chamar de “carola”. Acreditei que isso estivesse mesmo preocupando-o a ponto de ele não conseguir escrever nada sobre “Eu tenho um sonho”, e como prova de que eu o desculpava, pedia minha ajuda. E eu acreditei. Fiz para ele a redação, caprichei mais do que na minha e mandei de volta no momento em que a professora não estava olhando. O mais rápido que pude, para que ele tivesse tempo de passar a limpo com calma, antes de entregar. E o cínico ainda me olhou, com a cara mais agradecida do mundo, um olhar que guardei por um bom tempo, como se nele houvesse gratidão, ou mesmo alguma ternura.
Não tínhamos ficado amigos, mas demos uma trégua. De vez em quando eu imaginava perceber até algum carinho nas poucas palavras que trocávamos. E ele tinha uns olhos azuis muito lindos, nos quais eu nunca tinha reparado de perto, e me olhava de uma maneira diferente; pelo menos eu achava que sim, como se aquele insensível fosse capaz disso. Um falso: é o que ele era. Mas um falso muito mais burro do que eu poderia imaginar.
- M., fale-nos um pouco mais sobre Martin Luther King – era a professora, dias depois, pedindo a ele que falasse do que eu tinha escrito na redação.
- Sobre quem? – ele se levantou, tentando colocar na pergunta o tom jocoso e desafiador que fazia toda a classe ficar do lado dele, quando enfrentava os professores.
- Sobre Martin Luther King – ela repetiu, com um tom de ironia que não era habitual.
Tenho quase certeza de que naquele momento a professora olhou para mim. Gelei. Ela sabia.
- Quem é esse? Algum cantor de rock ?
A classe inteira caiu na gargalhada, e mais ainda quando M. subiu na cadeira e imitou os trejeitos de Elvis.
- A senhora gosta de rock, irmã Lúcia? Elvis, the pelvis...
Esta última frase M. acrescentou baixinho, de costas para a professora, fazendo delirar a fiel platéia. Irmã Lúcia, tentando controlar a bagunça, batia nervosamente com as costas do apagador sobre a mesa. M. fez então um gesto para que todos se calassem e prestassem atenção à irmã “Lucy... in the sky...”. Ela esperou que a classe saísse da histeria coletiva, enquanto procurava pela redação de M. entre os textos corrigidos. Com a folha nas mãos se aproximou dele e disse em um fôlego só, sem esperar respostas:
- Senhor M., essa letra é do senhor, não é?! Esse nome é do senhor, não é?! Eu só esperava que o senhor pudesse nos falar um pouco mais sobre Martin Luther King, já que no dia da redação demonstrou conhecer tão bem um famoso discurso dele!
Eu deveria ter imaginado que o idiota tinha passado a redação a limpo sem ao menos prestar atenção ao que estava escrito nela.
- Quer que eu leia sua redação para refrescar a sua memória, senhor M.? – continuou irmã Lúcia, enquanto a classe se perdia no habitual silêncio dos vencidos, dos idiotas como M.. – Quer que eu leia ou o senhor agora já é capaz de se lembrar sozinho quem foi Martin Luther King?
Cheguei até a sentir alguma pena, percebendo os olhares sobre ele perderem quase toda a admiração. Se M. olhasse para mim naquele momento eu seria capaz de confessar, mas ele manteve a cabeça baixa. Irmã Lúcia não se calava:
- Vai me dizer quem escreveu isso, que o senhor teve a displicência de copiar sem ao menos prestar atenção? Ou vai me dizer que o próprio Martin Luther King – frisava bem o nome, saboreando cada sílaba, no mesmo tom em que ele tinha dito “Lucy in the sky” –, o próprio Mar-tin Lu-ther King foi quem a ditou para o senhor?!
Nas mãos de irmã Lúcia, a poucos centímetros do rosto de M., estava a redação, sem merecer sequer um comentário, maculada apenas por um enorme zero em tinta vermelha. Ela então a colocou sobre a carteira dele e, com a caneta, circulava todas as vezes que ele tinha escrito “Mar-tin Lu-ther King”, repetindo-o numa voz monótona e irritante.
Eu achei que M. me entregaria naquele momento. Mas olhando melhor para ele percebi que se abrisse a boca seria para chorar. Devia sentir muita raiva por estar sendo tão humilhado na frente de todo mundo; não estava gostando nem um pouco de provar do próprio veneno. Irmã Lúcia não parava de falar, agitando as mãos miúdas, arrastando os pés em volta da carteira de M.:
- Onze vezes! Onze vezes ele aparece aqui e o senhor ainda vem me dizer que não sabe quem é Martin Luther King? Diga-me, senhor M., devo mandá-lo à diretoria ou ao confessionário?
Eu não sabia o que fazer, tinha certeza de que irmã Lúcia sabia quem tinha feito a redação, mas eu não tinha coragem de confessar. Pensava que se me acusasse logo o castigo poderia ser mais brando; mas não era justo, pois eu me sentia tão enganada quanto ela. Só que, ao contrário de mim, ela tinha percebido. Eu não, não percebi que M. estava apenas fingindo a trégua para se aproveitar de mim, e a decepção já era castigo suficiente. Eu não merecia mais um que, com certeza, seria dado pela irmã Lúcia caso eu me acusasse. Além do mais, eu nunca poderia imaginar que M. não soubesse quem era Martin Luther King. E muito menos que, mesmo não sabendo, deixaria de se inteirar do assunto depois de entregar a redação. Eu mesma poderia ter dito muitas coisas a ele, coisas que aprendi nas inúmeras horas de leitura na biblioteca das freiras. Mas não, ele preferiu assinar calado o próprio atestado de burrice, então achei melhor não falar nada e ser solidária à ignorância dele.
- Pense um pouquinho, senhor M., e talvez até o final da aula o senhor consiga se lembrar de quem foi Mar-tin Lu-ther King - irmã Lúcia estava transtornada.
Ainda tentei brincar comigo, que aquilo sim devia ser a ira divina, quando ela me olhou e pareceu ler meus pensamentos. Ela sabia, e a próxima vítima seria eu. Já estava me preparando para mudar de idéia e contar toda a história, quando ela foi caminhando na minha direção. As sapatilhas arrastadas no assoalho de madeira, minha redação nas mãos. Colocou a folha sem um comentário sequer sobre a minha carteira. Deve ter percebido o meu pavor e tomado consciência do quanto já tinha sido cruel com M.. Tenho certeza de que se ele não a tivesse irritado tanto, sobraria para mim também. Ela descarregou sobre ele todas as palavras e todas as ironias que tinha escolhido para repartir entre nós dois.
- Senhor M., se o senhor quiser ir se lembrar lá fora, esteja à vontade. Mas o quero de volta antes do fim da aula, all right? A classe quer saber quem é, ou melhor, quem foi Mar-tin Lu-ther King. Olha só que dica preciosa, senhor M., o senhor já sabia da morte dele? Sabia?!
Irmã Lúcia distribuiu todas as redações junto com um ou outro comentário para algum aluno, e depois me mandou ir perguntar algo à Madre Superiora. Nem me lembro mais o quê, nem sei se prestei atenção; provavelmente teria que voltar para perguntar caso tivesse encontrado a Madre.
- Mas a irmã Lúcia sabe que a Madre Superiora nunca está aqui de manhã... – foi a resposta que recebi na diretoria.
Sim, ela sabia. Procurei M. e o encontrei sentado sob a escada que subia do pátio para o primeiro andar. Com a cabeça escondida entre os joelhos, ele não se mexeu, não disse uma palavra, não deu um sinal sequer de que estava ouvindo tudo que eu lhe dizia sobre Martin Luther King. Minutos depois estava frente à classe, falando do que se lembrava. A irmã Lúcia disse que na redação ganhara nota zero, mas que ele podia tentar recuperar fazendo um trabalho sobre grandes líderes da história da humanidade. Fizemos juntos. Eu, agradecida por ele não ter me entregado; ele, embora um pouco estranho comigo, agradecido pela minha solidariedade, enquanto recuperava aos poucos a popularidade abalada. Estivemos muito juntos naqueles dias, até que ele voltou a ser o mesmo M. de sempre, cercado de fiéis admiradores. Um tonto!
Até o dia do beijo, no intervalo entre as aulas e na frente de todo mundo. Ele se aproximou e, sem uma palavra sequer, passou uma das mãos por trás da minha cabeça, segurou-me com força e me beijou. Estragou tudo, tudo, tudo. Um lindo idiota, foi o que achei que ele era! Na atrapalhação de me soltar da pressão que ele fazia com a boca sobre a minha, ainda cortei o lábio inferior pelo lado de dentro. Aquele corte latejou por horas, ardendo ainda por mais alguns dias ao contato com alimentos muito ácidos, ou muito frios, ou muito quentes. As gracinhas dos colegas de escola, os curiosos querendo saber como era beijar, tudo isso fazia crescer ainda mais minha raiva por ele. Justo quando eu começava a achar que ele nem era tão idiota assim. Mais idiota era eu por ter me deixado enganar por aquela carinha de anjo. Tinha até pensado em namorá-lo, talvez, quando crescêssemos mais, é claro. Sim, ele poderia ter sido um bom namorado, às vezes até me tratava como se já fosse. Mas um beijo assim?! Roubado na frente de todo mundo? Se eu soubesse o que ia acontecer, talvez acabasse até gostando. Um beijo na boca...

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