Confissão #31

Capítulo III - Parte I

Amorragia


Inventei uma palavra: amorragia.

Uma vez uma amiga falou-me sobre o conceito de a paixão acontecer quando a nossa vontade se separa da vontade de Deus e passa a ter vida própria. Uma vida que suscita seu próprio ardor e arde e arde em sua própria afeição; ardor que é só nosso e que nada tem a ver com ardor divino. Já me apaixonei assim muitas vezes, sentindo esta onipotência que faz com que fiquemos girando e girando e girando em torno de nós mesmos, aumentando a força e a velocidade a cada giro, como os furacões. E somos então a nossa própria natureza, um emaranhado de sentimentos e sensações intransponíveis a não ser pelo outro, por aquele que permitimos. Pelo ser amado que colocamos lá no olho, no centro do furacão, a salvo de tudo e de todos. Até que ele nos escapa, no que achamos ser um breve descuido nosso, deixando como única alternativa fazermos o caminho inverso: girar em sentido contrário e dar o corpo a bater. Há que se receber de volta as farpas, os dardos, as flechas, as balas perdidas, tudo o que foi lançado pelos sentimentos que não têm mais dono. E dói. E sangra. E a gente morre um pouquinho até estancar.

Acho que é essa chuva. Molhados, os dias pesam mais e se arrastam. Em mim eles tiveram o efeito de fazer coçar as cicatrizes e relembrar que elas sempre estiveram aqui. Tantas e tantas cicatrizes, o furo no dedo do pacto com B., o beijo em M., o beijo de Judas. Também chovia assim há dias, e eu tentava enxergar através da vidraça embaçada. Uma chuva mansa e fina, daquelas que se poupam para durar mais tempo. Sabe que às vezes penso que a falta é proporcional ao que se falta? Faltavam ali naquele silêncio as vozes e a vivacidade de quarenta pessoas, todas concentradas no risc-risc-risc do lápis sobre a folha de papel em branco. Ou quase em branco, pois do alto ameaçava o título “Eu tenho um sonho”. Não sei o que poderia amedrontar mais as pessoas, se escrever sobre os próprios sonhos ou se sonhar. De vez em quando ecoava pela sala um suspiro, o barulho de alguém a se ajeitar na cadeira, uma tosse forçada apenas para ouvir o som da própria voz. Eu já tinha entregado a minha redação havia um bom tempo, e estava esperando que os outros acabassem enquanto pensava nos sonhos de que abri mão para escolher apenas um. Um único sonho, um outro sonho. Eu não seria capaz disso se fosse mesmo para valer.

Durava poucos segundos o espaço nítido que eu abria no vidro embaçado, pois o ar pesado das respirações nervosas tratava logo de anuviar os moleques brincando lá na rua. Não podia ouvi-los, mas imaginava as falas, pois muitas vezes eu também tinha brincado de apostar corrida na enxurrada, com barquinhos de papel. A sala de aula ficava no segundo andar da enorme construção erguida em uma das esquinas da Ladeira do Escorrega. Nunca soube o nome certo daquela rua, mas para todos era esse, que se firmava mais ainda com os dias de chuva que transformavam em encerados a calçada de cimento e a rua de paralelepípedos. Por sobre o muro eu podia vê-los do outro lado da ladeira, na pressa de dar a largada antes que a água tratasse de colocar a pique as frágeis embarcações. Uma vez entrando no ritmo da enxurrada, os barcos iam embora ladeira abaixo, e nós do lado deles aos gritos de incentivo, tirando as pedras, os gravetos e o lixo que barravam o caminho. Lá embaixo alguém seria vencedor e os perdedores sempre pediam revanche. Não nos atrevíamos a subir a ladeira molhada; seria tombo na certa. Dávamos a volta pelo quarteirão, aproveitando para pegar a munição de barquinhos deixados protegidos da chuva sob a marquise do convento, ao lado da escola. E começávamos tudo de novo. Incansáveis vezes.

Esse prédio, o do convento, era para nós assunto de muitas conversas. Uma enorme curiosidade sobre o que realmente acontecia lá dentro e sobre quem eram aquelas mulheres que mal mostravam o rosto. Diziam que sob suas longas vestes levavam escondidas as crianças que desobedeciam aos pais. Mantínhamos as portas em constante vigilância e nunca vimos uma criança sequer que tivesse conseguido fugir. Deixamos de ter medo apenas quando as freiras se tornaram nossas professoras. Eu passei a gostar cada vez mais delas e a procurá-las para conversar, fora dos períodos de aula. Não necessariamente sobre religião, mas me interessava saber dos lugares de onde vinham, porque tinham escolhido ser freiras, sobre os livros que me emprestavam e sobre seus autores. Eu preferia isso às vadiagens próprias da minha idade.

Aprendi a gostar de ler com minha mãe; eram deliciosas as tardes em que ficávamos as duas na cama dela, lendo em voz alta. Por isso eu trocava, sem pensar duas vezes, todas as brincadeiras, e quase todas as companhias, pelas horas de leitura naquela biblioteca. Horas que eram também as mais angustiantes. Tanta coisa a saber, tantas das minhas dúvidas poderiam estar ali, à minha espera entre as folhas de papel. Faziam-me bem a paz e o silêncio daquele local, reverenciando tudo o que eu ainda queria saber. Mas... Daí ser chamada de “carola”?

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- Eu não. E eu vou gostar desta carola? – M. falava sobre mim.

Falava alto, bem alto e no meio da classe, para que todos ouvissem. Ouvi alguns risos disfarçados, outros nem tanto, mas eu podia perceber que em todos havia um certo triunfo: M. não gostava da “carola”.

Eu também não gostava de M., achava-o um idiota completo, infantil, bobo, convencido, arrogante, insensível, burro até. Só tinha a beleza, que mesmo muito acima da média também não era nada excepcional. E um jeito cativante, que o tornava o centro das atenções onde quer que estivesse. Todos queriam ser amigos de M., mesmo que isso às vezes significasse ser alvo das suas chacotas. No minuto seguinte já fingiam esquecer, pagavam o preço e depois choravam sozinhos em casa. Nunca me aproximei muito dele; não achava a mínima graça nas suas brincadeiras de mau gosto, na sua necessidade de tomar a frente em tudo, como se esta posição lhe pertencesse por direito incontestável. Era sempre o noivo nas quadrilhas das festas juninas, o príncipe nas peças de teatro que encenávamos, o dono da bola. Havia uma certa competição entre nós dois, velada, mesmo que em terrenos completamente diferentes. Ele era o popular e eu a boa aluna, a primeira da classe, e este meu posto ele nunca poderia tirar de mim, nem que se esforçasse muito. Aquele burro invejoso!
- O M. disse que nunca vai gostar de você, porque você é muito carola.

Vinha sempre alguém me dizer isso, esperando uma resposta que talvez dissesse a M., mesmo em terceira pessoa, tudo o que os outros da classe não tinham coragem de dizer. M. estava sempre por perto quando enviava seus mensageiros, fingindo indiferença e gabando-se de feitos repetitivos, falando alto para dar a impressão de que não sabia o que estava acontecendo. Disfarçava a raiva com o mais lindo dos sorrisos quando percebia que, por mais que fossem os recados, eu manteria a mesma resposta: “Azar o dele!”

E ele fazia de longe uma cara de idiota. A mais idiota de todas.

3 Comments:

Blogger Claudio Costa said...

Hoje seu texto me levou a passear por duas paisgens: uma, a ladeira "do Escorrega", a chuva e a enxurrada, barquinhos, crianças, freiras, convento; outra - a mais "verdadeira" - a interior, o mundo psíquico, com desvãos, sombras e luzes.

2/10/2006 06:25:00 PM  
Blogger Matilda Penna said...

Adoro esse seu modo de escrever, leio com prazer.
Sou mesmo fã, :).
Poema da terça-feira na terça-feira que vem?
Terça-feira que vem é meu aniversário!
Mas tudo bem, vou tentar, combinado, :).

2/10/2006 07:43:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Cláudio, fico feliz de proporcionado o passeio. :-)
Beijo,

Matilda, terça-feira é aniversário? Ai, meu Deus, não posso esquecer. E será que vamos ganhar presente? ;-)
Beijo,

2/11/2006 02:09:00 PM  

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