Confissão #30

Capítulo II – Parte III

Infelizes são os pássaros que morrem pagãos

- Vinte vezes por dia, três dias por semana, durante vinte anos.
- Do que você está falando, Zé?
- Do condicionamento! - a resposta saiu como se ele estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo.
Até poderia ser, mas em outro contexto. E o que tinha aquilo a ver com meu cemitério de passarinhos? Como eu nada disse, ele continuou:
- É assim que as hipóteses passam a ser verdades absolutas.
Às vezes fico em dúvida se ele realmente presta atenção ao que eu digo. Parece estar atento, faz um ou outro comentário, sorri e até se emociona. Mas não sei... Como agora, é comum que mantenha o olhar alheio, daqueles que quando pousam na gente parecem ir além. Muito além. E voltar de repente:
- Mas por quanto tempo você cuidou do cemitério? – ele perguntou e eu sorri; pelo menos a parte do cemitério ele tinha ouvido.
Antes que você ache esta pergunta fora do contexto, saiba que eu estava contando para ele sobre o cemitério de passarinhos do qual eu e B. cuidávamos. Era um lugar muito especial para nós, encondido entre os eucaliptos do bosque que havia no final da rua onde morávamos. Uma rua sem saída, quase sem movimento de carros, muito mais larga do que o normal e pavimentada com paralelepípedos. Nós gostávamos de acompanhar o desenho formado por aquelas pedras irregulares, numa brincadeira onde podíamos pisar apenas sobre uma delas, cuidadosamente, e saltar as próximas três. Íamos assim até o final da rua, e depois de contornarmos uma pequena praça voltávamos procurando sempre o caminho mais curto, as pedras maiores. Ganhava quem ia e voltava ao ponto de partida em menos tempo, equilibrando-se quase nas pontas dos pés para não pisar fora do “paralelepípedo-sim-não-não-não”. Este era o nome do jogo: “sim-não-não-não”, e às vezes variávamos em “sim-não-não”, dependendo do tamanho das pernas dos participantes. Uma época feliz, com as nossas brincadeiras inventadas, com as risadas que ecoavam livres na rua até altas horas da noite.
Mas voltando aos passarinhos, B. e eu, cada dia mais unidos, não nos conformávamos em enterrar em qualquer lugar os que encontrávamos mortos, ou os doentes que morriam apesar dos nossos cuidados. Cruzando a pracinha no final da rua e seguindo por uma trilha, entrávamos no bosque. Era bem perto, mas quase ninguém passava por ali, caminho para uma parte sem graça e sem atrativos do rio Misericórdia. Próximo ao rio encontramos um descampado ao lado da trilha, protegido por uma pedra enorme. Para lá um dia levamos as ferramentas de jardinagem do pai de B., limpamos uma faixa de terra e inauguramos o “Asas da Saudade”. Não sei de onde tiramos este nome, mas ainda hoje continuo gostando dele, o nome do nosso cemitério de passarinhos.
Eram quatro fileiras cortadas por mais umas tantas, que mantínhamos cuidadosamente livres de mato e de ervas daninhas, calçadas por pedregulhos da beira do rio. As fileiras eram delimitadas por uma cerca de um tipo de planta que encontrávamos ali mesmo, a ramagem cerrada e com umas florzinhas miúdas, formando pencas coloridas. Não sei se você já viu, são espinhudas e o caule solta um líquido branco e viscoso quando partido. Nunca mais vi destas flores em lugar algum.
As covas, que chamávamos de camas, fazíamos questão de cobrir com grama, uma que quase não crescia e se esparramava pela terra feito um lençol muito verde e liso. Macio. As camas eram todas identificadas com cruzes de palitos de picolé pintadas de branco, onde, com tinta verde, escrevíamos a data e o nome do passarinho. Batizávamos todos na água do rio antes de deitá-los ali, com nomes como “Amor”, “Saudade”, “Paixão”, “Ternura”, todos os bons sentimentos que conhecíamos. Tínhamos muita pena dos passarinhos que iam dormir pagãos. Crianças pagãs sabíamos para onde iam; o que poderia sobrar para os passarinhos? Era assim que pensávamos. Eles então eram colocados dentro de caixinhas de vários tamanhos que colecionávamos e encapávamos com papel branco arrancado dos cadernos de desenho da escola.
Longe de ser um lugar triste, era lá onde mais nos alegrávamos. Havia uma atmosfera mágica, colorida, toda nossa, e que acabava atraindo muitos pássaros, com os quais aprendemos diversos tipos de canto. Era nossa forma de homenageá-los. Muito tempo depois de B. ir embora, eu ainda ia lá todos os dias, logo depois de chegar da escola e de almoçar. Tratava para que o local estivesse sempre limpo, florido, mas nunca mais tive coragem de fazer um dos nossos rituais de colocá-los para dormir. Eu apenas cuidava deles, como B. tinha me pedido. Até o dia em que M. apareceu.

#

- Zé, sabe que B. nunca me beijou?
Quando digo isso, ou qualquer coisa que tenha a palavra beijo, ele já sabe. É a nossa maneira de matarmos a saudade ou de anteciparmos o encontro. Lembro-me da primeira vez, e é difícil desde então não querer que todos os meus beijos sejam iguais àquele. Ou que pelo menos durem o mesmo tempo, tenham a mesma intensidade e o mesmo carinho para causarem tais sensações.
Eu continuava sentada na amurada. D. Isabel tinha entrado para resolver qualquer coisa. Sou capaz de ficar horas ali, olhando o mar e pensando em você. E sorrio sozinha das coisas que imagino. Se você soubesse! Mas também não conto tudo... Será que você vai conseguir se acostumar com meus segredos? Talvez eles não sejam uma forma de te esconder algo, mas de ir me mostrando aos poucos.
Naquela tarde, com os vários tons de azul do céu e do mar, com o sol, com a brisa, não tinha como não pensar naquelas cenas que vemos tantas vezes em comerciais de televisão. Eu te imaginava, lindo, correndo pela praia, vindo ao meu encontro vestindo uma calça branca com a barra dobrada até um pouco abaixo do joelho, sem camisa. Com os braços abertos, que pareciam já me contar sobre o tamanho do seu amor por mim. A aproximação, um abraço e então...
- Um presente pelo pensamento da menina.
Assustei-me, pois não tinha visto o Zé se aproximar. Provavelmente ele me flagrou com aquela cara de boba, esperando...
- ... um beijo. – escapou-me, na vã tentativa de interromper de repente um pensamento que já tinha ido além.
O Zé, então, fez como agora, quando fecha os olhos por alguns minutos e seu rosto vai se transformando. Adquire a tranqüilidade e a doçura de quem se encontra inteiramente envolvido por um leve roçar dos lábios da pessoa amada, enquanto move os dele, rápida e silenciosamente, desfiando uma ladainha sem fim. Poderia estar apenas procurando na memória o ponto exato onde a emoção estava guardada, mas acho que é algo maior. Algo que capta para aquele beijo uma certa consciência universal, porque não acredito que possa haver alguém que não gostasse de ser beijado daquele modo.
- Primeiro, meus olhos se entenderam com os teus, e trocaram carícias e fizeram juramentos e sobrepuseram ternuras. Eram minhas mãos se fechando delicadamente como duas conchas ao redor das tuas mãos, com todo cuidado, sabendo das preciosidades que lhes seriam dadas para guardar. Não houvesse desejo, falaríamos em linguagens e códigos indecifráveis. Mas há. E então meus olhos se entendem com os teus e se espelham no teu consentimento para anular tudo que é matéria, tudo que é gravidade. E passamos a existir no ser apenas leve, apenas brisa, intangíveis que somos quando tocados pelo amor. Nós dois, apenas nós dois, como duas únicas flores nascidas em um jardim descuidado. E eu me aproximo de ti e respiro, querendo que a carícia da minha respiração te toque por dentro, como quem quer impregnar de perfume, uma flor.
O Zé fez uma pequena pausa onde suspirou longamente, para depois continuar:
- Há então uma inércia do tempo e uma fuga das cores, apenas os teus lábios em technicolor, que eu beijo levemente. Ora em um canto ora em outro, acostumando-me aos poucos à intensa sensação de ir voltando a existir inteiro nas partes em que o teu corpo toca o meu. Na ausente distância da tua boca sob a minha. E naquele momento o que eu mais queria era que a minha, para merecer a tua, tivesse lido mais poesia em voz alta, bebido mais vinho, sorvido mais a constante cada sílaba das palavras mais doces. E o teu beijo dizia que sim, a cada afago de lábios dizia que sim, que era capaz de sentir mesmo o que eu não tinha feito. E calmamente tu acarinhavas-me o rosto, com a maciez das mãos contrastando com a frenética busca das línguas. Eu passo os dedos entre teus cabelos como se a qualquer momento eles pudessem nos embaraçar definitivamente. E te puxo para mais junto de mim, os braços como laços, os corpos presos na vontade de continuar existindo. E ouço então o teu suspiro, breve, como se precisasse, como se fosse necessário dizer o que sentimos e dar voz à linguagem dos corpos: Toma-me!...
O Zé sabe que é constrangedor admitir as sensações que um beijo assim pode causar. Respeita sempre a minha atrapalhação, a falta que eu sinto de você me ardendo inteira e antecipando o depois. Ficamos os dois olhando o mar, deixando que aquela paz de fim de tarde e de maré baixa nos acalme os sentidos. Todos eles, todos os sentidos. A esta hora o movimento das águas é manso, lento e preguiçoso, quase imperceptível. Apenas sugerido em um ou outro lampejo quando a suave ondulação se põe no caminho de um raio de sol.
A ilha é circundada por corais, uma grande cerca de pedra em toda a sua volta, transposta apenas pela maré alta. Do lado de dentro, o mar me espelha e parece um grande lago, calmo, as águas mexidas apenas pela força dos ventos. Um ondular cuidadoso, como se uma película muito fina envolvesse algo bem mais forte e pudesse se romper a qualquer momento, mesmo sob o mais delicado dos toques. Com um beijo, por exemplo. Na primeira vez que o ouvi, achei que fosse um poema.
- É lindo! É seu? - perguntei, assim que fui capaz de colocar na voz apenas a emoção que senti com a descrição.
- É meu sim – respondeu o Zé com um fio de voz, um sorriso leve, mas no qual mais se notava pesar do que qualquer outra coisa. – Nunca o dei a alguém...
Durante muito tempo ainda achei que falava do poema. E só dias depois entendi que não, quando o Zé me contou porque também veio parar aqui. Você já pensou em como podemos viver só disso? Das coisas que queríamos que tivessem sido? O Zé nunca beijou Lorelei, e tem essa idéia do que poderia ser um beijo dela. Eu nunca te beijei, e no entanto sou capaz de sentir, de querer que todos os seus beijos sejam bons assim.

6 Comments:

Anonymous eduardo said...

Belíssima história.
http://dudu.oliva.blog.uol.com.br

2/09/2006 12:05:00 AM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Obrigada, Eduardo

2/09/2006 12:33:00 AM  
Blogger Matilda Penna said...

Lendo e gostando, principalmente do sonho-comercial, lindo!
"Naquela tarde, com os vários tons de azul do céu e do mar, com o sol, com a brisa, não tinha como não pensar naquelas cenas que vemos tantas vezes em comerciais de televisão. Eu te imaginava, lindo, correndo pela praia, vindo ao meu encontro vestindo uma calça branca com a barra dobrada até um pouco abaixo do joelho, sem camisa. Com os braços abertos, que pareciam já me contar sobre o tamanho do seu amor por mim. A aproximação, um abraço e então..."
E quanto ao poema das terças, vou tentar uma hora dessas, ótima idéia!
Beijos, :).

2/09/2006 12:55:00 AM  
Anonymous César Filho said...

Ué, você voltou e ninguém me avisa...

2/09/2006 01:11:00 PM  
Blogger Ana Maria Gonçalves said...

Matilda, vou te cobrar o poema, pode ter certeza disso. Que tal terça-feira que vem? Beijos...

César, que bom revê-lo! ;-) Eu também não avisei ninguém não, e os de casa vão achando, vão chegando...
Beijos,

2/10/2006 06:16:00 PM  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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5/04/2010 06:29:00 PM  

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